Descrição de chapéu Memorabilia

A história do quadro que quer que sejamos o anjo diante de Maria

Escritora Veronica Stigger discute a obra que representa a mãe de Cristo sem elementos sagrados

Veronica Stigger

Nove apontamentos a propósito da “Anunciada”, de Antonello da Messina:

1. Na noite anterior ao dia em que escrevo este texto, conversava com Eduardo Sterzi, meu marido, sobre literatura e ele me disse: “Estamos sempre reinterpretando, reinventando, reescrevendo aquilo que mais amamos”. 

2. Foi só na tarde de 16 de julho deste ano que finalmente entrei na sala X, no primeiro andar do Palazzo Abatellis, que abriga a Galleria Regionale della Sicilia, em Palermo. Por mais de 20 anos, adiei essa viagem. 

Num painel de fundo branco, disposto em diagonal na sala, está exposta a “Anunciada” (“Annunciata”), de Antonello da Messina, de 1475-76. A mão direita da Virgem, ligeiramente levantada e estendida para a frente, parece querer conter nossa chegada —ou nos saudar de maneira discreta, ou ainda nos abençoar. Não há como não concordar com o crítico italiano Roberto Longhi: é “a mão mais bela que eu conheço na arte”. Mas essa beleza não elimina certa estranheza do gesto, e mesmo da conformação dos dedos.

virgem anunciada com mão para a frente
"Anunciada" (1475-76), de Antonello da Messina - Reprodução

3. Diante da “Anunciada”, percebo que o que sempre me interessou nesse quadro —e que, em certa medida, soou em meus ouvidos ao longo dos anos como um espírito diabólico a soprar ideias — foi justamente a redução dos elementos dessa famosa passagem bíblica —a Anunciação— ao mínimo. Aqui, ao contrário do modo como esse episódio é costumeiramente representado, o foco não recai sobre a ação propriamente dita (a chegada do anjo Gabriel para comunicar à Virgem que ela engravidará do Senhor), mas sobre sua principal personagem, Maria, a origem do mundo cristão.

4. Ausente o anjo, não há qualquer outro elemento que indique a sacralidade da cena: nem auréola sobre a cabeça da moça, nem pomba fazendo as vezes do Espírito Santo, nem luz que vem do céu, nem as mãos cruzadas sobre o peito em adoração, como em outra “Anunciada” do mesmo Antonello, pertencente à Alte Pinakothek, de Munique. 

Só o manto azul, que a mão esquerda fecha sobre o vestido vermelho em sinal de pudor, nos remete à vestimenta tradicional das representações de Maria. No mais, vemos apenas, sob um fundo escuro, uma jovem, com um quase sorriso no rosto, diante de uma mesa sobre a qual há um livro aberto.

5. Aliás, o que também sempre me chamou a atenção foi a juventude da Anunciada. Maria não devia ter mais de 14 anos à época da concepção, mas muitos pintores parecem (ou preferem) esquecer esse detalhe. Tão jovem quanto esta Virgem só lembro daquela feita por Paula Rego para a capela do Palácio de Belém, em 2002 —uma juventude que se preservou até em sua representação da Pietá. Foi sua neta Lola, que tinha à época a mesma idade de Maria quando gerou Cristo, que serviu de modelo à pintora portuguesa.

6. Na Anunciada de Palermo, Antonello escolheu trabalhar a partir do subentendido, daquilo que não se apresenta de modo evidente, abrindo espaço para a interpretação do episódio por parte do espectador. Cabe a este interpretá-lo não apenas no sentido de “compreender”, mas também no de “representar”, assumindo o papel a ele designado no teatro proposto pelo artista: o de anjo.

7. Quando, em 1953, o arquiteto Carlo Scarpa concebeu expograficamente a sala onde o quadro se encontra até hoje, atuou como um perfeito encenador ao reforçar, pela disposição espacial, o papel do espectador, isto é, o nosso papel. 

Mal entramos e deparamos a Anunciada, que não olha nem para o livro que tem diante de si nem diretamente para nós, mas para um ponto um pouco abaixo. Se fôssemos bons atores, nos ajoelharíamos a seus pés, inclinaríamos levemente a cabeça para a frente e daríamos o texto a nós atribuído: “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”.

8. Há alguns anos, ao escrever meus textos ficcionais, tenho recorrido a temas bíblicos em proporção semelhante com que venho me apropriando de falas alheias. Vejo ambos os movimentos, em direção às narrativas da Bíblia e em direção às conversas ouvidas por aí, como parte de um interesse mais amplo, que está no centro do que faço, por uma certa teatralização do mundo. 

A Bíblia, como todo texto religioso, é, para mim, um grande ready-made, um acervo de personagens e histórias tão conhecidos e tão interpretados que como que exige, do seu leitor, sobretudo do seu leitor que porventura é ficcionista, novas reinterpretações. Além disso, como todo texto religioso, a Bíblia nos dá exemplos fabulosos de procedimentos por meio dos quais podemos produzir o ideal de toda ficção: a suspensão da descrença.

9. O conto “A visita” do meu mais recente livro, “Sombrio Ermo Turvo” (Todavia), é uma Anunciação. Fazia tempos que eu queria enfrentar o tema. A questão era como. Lembrei-me de Antonello, da construção do tema por meio dos não-ditos e da parte que nos cabia no quadro, ou diante dele. Pensei que, como bons humanos e maus atores, poderíamos falhar e esquecer o que deveríamos dizer diante da Virgem. Imaginei-a ainda mais jovem do que a de Antonello e, como nos rituais de casamento na Atenas antiga, ocupada em sacrificar suas bonecas como forma de marcar a entrada na vida adulta. 

Talvez não fôssemos o que somos se não falhássemos justamente no momento em que isso não se apresentasse como opção. Quero crer que um anjo de verdade não falharia. Pelo menos, não sem querer —porque, como já nos ensinou Rilke, todo anjo é terrível. 


Veronica Stigger, escritora premiada com o Jabuti e doutora em teoria e crítica de arte pela USP, fez a adaptação de “Macunaíma” em cartaz no Teatro Antunes Filho.

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