Vida bem vivida é a grande rebeldia de Alzira E, diz Marcelino Freire

Para escritor, documentário sobre a artista revela uma criadora em permanente comunhão

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Marcelino Freire

Escritor, é autor, entre outros livros, de "Nossos Ossos" (editora José Olympio)

[RESUMO] Autor revisita a trajetória da cantora, compositora e instrumentista Alzira E, retratada no documentário inédito "Aquilo que Eu Nunca Perdi". Ao registrar a protagonista revirando baús e colocar em relevo suas parcerias, o longa ilumina as nascentes e o legado criador de uma artista imensa, afirma.

E logo de cara Alzira E diz que não gosta de sonhar. Todo sonho para ela é pesadelo. Eu afundo o meu olhar, ensimesmado. Alzira lava as verduras. E na pia entulha os pratos. E diz que foi na estreita cozinha de sua casa a primeira conversa que teve com o parceiro Itamar Assumpção.​

Quanta emoção é Alzira no documentário "Aquilo que Eu Nunca Perdi". Um ganho para nossa alma. Ela sai mostrando em caderninhos os manuscritos das parcerias clássicas. Ela + Itamar. Ela começava uma ideia, rascunhava. E ele terminava a letra e depois Alzira cantava de imediato. Nem parecia letra, nem parecia canção. É uma alma só, não desgruda uma da outra. Somam-se.

Alzira mesmo quem diz que gosta de matemática. Alzira E é adição (+). O “E” deixou de ser Espíndola, virou conjunção aditiva. Embora Alzira seja tão família, com o uso do “E” virou ainda mais “bando”, sociedade alternativa. Cumplicidade, afinidade, “pró-criação”. Estou para conhecer uma pessoa na nossa música que se irmane tanto com o outro, com a outra. Uma criadora em permanente comunhão. Mãe, mulher, amiga.

Alzira é o poder da própria natureza. Uma coisa só. Uma corrente de rio do qual não se vê começo nem fim, superfície nem fundura. Alzira E “ondula”. Digo sempre que uma boa história não vai para frente nem para trás, uma boa história “ondula”. Marina Thomé é quem dirige o filme sobre (e a partir de) Alzira E. Um trabalho produzido pelo Estúdio CRUA e contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018. A fita é esse fluxo. Alzira é um movimento, uma pessoa que soa, um corpo solto. Embora tendo a raiz fincada no Mato Grosso do Sul.

Ney aparece com ela nas imagens, andando pelas paisagens, apontando os horizontes do mato. Não se sabe quem é gente e quem é árvore. Os dois juntos, semeados no mesmo chão. É bem isso. Ney Matogrosso gravou dela canções tão bonitas (a exemplo de “Finalmente”, parceria com Itamar). O corpo de Ney está em Alzira. Alzira nasce a todo momento no decorrer das narrativas do filme. Deixa-se filmar. Firma-se, finca-se, planta-se em imagens captadas no Pantanal.

A cantora Alzira E de perfil, com vegetação ao fundo
A cantora Alzira E - Marina Thomé - Itaú Cultural/Divulgação

É daquelas águas que ela vem e desemboca em São Paulo em 1984, já com quatro filhos gestados. Ela de uma família numerosa de artistas, a família Espíndola lá de Campo Grande: Humberto, Geraldo, Tetê, Celito e Jerry Espíndola. Todos nascidos da voz límpida da mãe, Alba, que nós ouvimos emergir do documentário costurando os sons da casa. Alzira revela que aprendeu a costurar com ela os próprios figurinos. Esse bordado que veste as bordas, as margens.

Eu mesmo sou testemunha. Em tempo: além de várias participações dela na Balada Literária, da qual sou curador desde 2006, conheci Alzira antes em outros destinos traçados. Quando ela começou a fazer contato com os versos de arrudA, com quem fez dois discos. Tive a oportunidade de ouvir em primeira audição a naturalidade com que o som do violão de Alzira dialogava com a palavra do poeta paulistano. Toda palavra lavra, toda palavra colhe. Alzira põe as mãos na terra. Ninguém arranca fácil o que ela estrutura. É pura literatura.

Alice Ruiz diz lá: “Você é uma poeta”. Alzira nega. A parceira, autora de livros como o clássico Navalhanaliga, sabe o que está falando. Gravaram um disco chamado Paralelas. Para lê-las juntas nas linhas e nas entrelinhas, inclusive quando ambas tentam explicar o que não se explica: “Enchemos a vida / De filhos / Que nos enchem a vida / Um me enche de lembranças / Que me enchem / de lágrimas / Outro me enche de alegrias / Que enchem minhas noites / De dias / Amor que se dedica / Amor que não se explica / Até quando se vai / Parece que ainda fica”. Canto a canto unidas na busca.

“Buscar” talvez seja esse o verbo. Alzira E não para. Não sou eu sozinho quem fala isso. O amigo Tiganá Santana afirma que Alzira é água contínua, está sempre renovando o oxigênio. Alzira + Almir Sater + Cora Coralina + Luhli + Lucina + Manoel de Barros + Arrigo Barnabé + Tetê Espíndola + Benjamim Taubkin + Anelis Assumpção + Peri Pane + Tiganá + os parceiros da banda Corte + Zélia Duncan, que acaba de lançar o disco Minha Voz Fica, todo dedicado ao repertório de Alzira. Alzira é rock. É porrada, é pauleira. É guarânia, é cultura da fronteira. É raiz latina. Assistimos, aliás, a uma imagem rara de Alzira menina e tão madura. Defendendo já no corpo da voz a voz de um povo. Voz vinda de tanto tempo. Uma história que Alzira vê agora se estender às filhas cantoras e compositoras Iara Rennó e Luz Marina. Futuro e fruto que Alzira olha, mira, respira. Contempla no espelho do camarim do Itaú Cultural, ou diante do Rio Paraguai.

Cresce à nossa frente, a cada plano documental (lírico e delírico), a trajetória desta compositora brasileira. Genuína, inquieta, verdadeira. Ela por exemplo, caseira ao lado de Lucina, em uma cena em que pescam pela memória os acordes de uma obra conjunta, testemunhamos ali um Brasil tão profundo entre as duas. No silêncio empoderado das amigas a noção clara do que perdemos. O tesouro que elas nos entregam há décadas e que caçadores do sucesso fácil tentam jogar no esquecimento. Por quê? Quando acordaremos?
Alzira E revira baús, encontra fitas K7s, fotos. Rica e teimosamente, o documentário celebra esse trabalho quase arqueológico. Tenta entender as nascentes de uma artista imensa, muitas vezes vista em segundo plano, ou coadjuvante de seu legítimo legado criador. Engano. "Aquilo que Eu Nunca Perdi" nos abastece de uma protagonista de seu próprio curso e percurso. É amor o que acontece ali. É de amor que estão falando, o tempo todo, as mulheres (incluída a diretora Marina Thomé) deste documentário. É real demais, não é sonho.

Depois de visto o filme, juntei-me ainda + à sua causa. Alzira E é vida. E vida bem vivida. Desde sempre essa a sua grande arte. E a sua grande rebeldia.

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