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Sucesso de 'Minari', falado em coreano, é marco para diversidade de Hollywood

Em entrevista, diretor e protagonista do filme, indicado a 6 Oscars, discutem racismo e representação de culturas asiáticas no cinema

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Homem sentado no vão de uma porta aberta

O ator Steven Yeun em cena de ‘Minari’ Divulgação

Ana Maria Bahiana

Jornalista da área cultural e editora-adjunta do site goldenglobes.com, é autora, entre outros livros, de "Nada Será Como Antes - MPB nos Anos 70" (Civilização Brasileira, 1980)

[RESUMO]Indicado a 6 Oscars, entre eles o de melhor filme, "Minari", falado em coreano, retrata a luta pela sobrevivência de imigrantes da Coreia do Sul nos EUA. Em entrevista, o diretor e o ator do filme, ambos de origem asiática, falam de como o sucesso do longa é um marco para levar mais diversidade a Hollywood e despertar o interesse das plateias por outras culturas.

As raízes de “Minari” —o filme estadunidense falado em coreano, indicado a seis Oscars, inclusive melhor filme— vêm do Arkansas, de Michigan, de Utah, de Ruanda.

Oscar 2021 anuncia os vencedores em cerimônia à noite; acompanhe ao vivo.

“A Coreia do Sul é um espaço distante, mas presente”, diz o ator Steven Yeun, protagonista do filme, em uma entrevista remota via Zoom, de sua casa em Los Angeles. “Conversamos muito sobre isso, Lee [Isaac Chung, diretor e roteirista do filme] e eu. Estávamos contando uma história americana. Asiático-americana, mas americana, só que falada em coreano.”

Com uma bilheteria mundial de US$ 10,4 milhões (R$ 58,4 milhões) em plena pandemia, o quinto longa-metragem de Lee Isaac Chung fez muito mais do que agradar a críticos e colegas do meio cinematográfico. “Minari” fala diretamente a várias camadas de pessoas comuns, famílias, mães e pais, avós, crianças; é um pequeno épico em uma dimensão plausível, quase banal, o esforço para melhorar de vida.

“Eu não sabia o quanto eu ia aprender sobre mim mesmo, sobre minha família, quando estava fazendo ‘Minari’”, diz Lee (também via Zoom, também em Los Angeles). “Minari” concorre a 6 Oscars no próximo dia 25. Lee disputa as categorias de melhor diretor e melhor roteiro original.

“Quando escrevi o roteiro, não queria que fosse a história da minha família, queria que fosse outra família, uma nova família. Por isso, mudei os nomes e os detalhes do que aconteceu com minha família. Mas, ao mesmo tempo, as emoções começaram a vir à tona, sem parar, enquanto eu estava filmando.”

Lee Isaac Chung nasceu em Denver, no Colorado, filho de imigrantes da Coreia do Sul. Como os personagens de “Minari”, seus pais trabalhavam em uma empresa de processamento de galinhas. Quando Lee tinha 5 anos, seus pais se mudaram para Lincoln, no estado de Arkansas, uma região predominante rural no sul dos Estados Unidos.

Também como em “Minari”, o jovem pai da família Chung tinha sonhos de ter sua própria fazenda. Com eles seguiu a avó materna, a quem o cineasta dá o crédito de ter mantido “o idioma e a cultura da Coreia” dentro dele.

O diretor Lee Isaac Chung, diretor de 'Minari' - 28.out.2020/AFP/BIFF

“Minha avó não sabia inglês e nunca se interessou em aprender”, ele recorda. “Ela só falava coreano comigo e me ensinou tudo da minha cultura, inclusive os palavrões em coreano [ele ri muito]. Ela foi o espírito coreano, o espírito da sua geração. Ela foi essencial para mim.”

O contato com a natureza levou-o a estudar biologia na respeitada Universidade Yale. Sua primeira intenção era se tornar médico, mas, no meio do caminho, no contato com os alunos do programa de cinema e mídia da universidade, resolveu mudar de rumo. “Aí as coisas se complicaram”, conta. “Não tinha os créditos para me transferir para o curso de cinema.”

Lee saiu de Yale com um diploma de biólogo e um “desejo louco” de ser cineasta. “Meu pai não entendia nada do que tinha acontecido —’meu filho não ia ser médico?’”, ele recorda. “Mas minha mãe me dizia que eu era igual ao meu pai —eu era cabeça-dura e não abria mão de algo que eu realmente quisesse fazer. Como meu pai com a fazenda. Como o Jacob, de ‘Minari’.”

Chung se inscreveu em 15 universidades e foi rejeitado por todas elas. Finalmente, a menos conhecida Escola de Cinema da Universidade de Utah aceitou-o. “Eu fui muito sincero com eles e eles compreenderam minha paixão”, diz. “O fato de a escola ser pequena e menos conhecida foi algo positivo para mim, tinha muito mais liberdade para experimentar. Na minha carta de candidatura, escrevi que o cinema, para mim, era uma forma de ser útil para os outros. E acredito nisso.”

Cumprindo o que escreveu para a universidade, o primeiro filme de Lee foi o resultado de um gesto de apoio a quem precisa.

“Munyurangabo” (2007), a história de dois meninos tentando refazer suas vidas em um país massacrado, foi criado e realizado em breves 11 dias, a partir das aulas de cinema que o diretor ministrou em um campo de refugiados órfãos em Kigali, Ruanda. Seus jovens estudantes trabalharam como atores e operadores de câmera e som, e não atores do lugar colaboraram com o elenco.

A ideia de dar aulas de cinema a refugiados foi inspirada pela esposa de Lee, Valerie, terapeuta especializada em trauma, que visitara Ruanda várias vezes, como voluntária, desde o massacre em 1994.

Incentivado por seus alunos, Lee resolveu inscrever “Munyurangabo” na seleção oficial do Festival de Cannes de 2007. “Nós ríamos muito, porque era algo impossível para nós, uma loucura, mas uma coisa divertida também”, recorda. “Não tínhamos dinheiro para fazer uma cópia digital, então peguei uma câmera barata de vídeo e gravei o filme enquanto era projetado na tela. Eu pensava: de jeito nenhum isso vai para Cannes, mas como é bom tentar.”

“Munyurangabo” foi escolhido para a seleção da mostra Un Certain Regard, em Cannes. O ilustre crítico Roger Ebert chamou o filme de “uma obra-prima, cada quadro é um filme belo e poderoso”, e muitos outros fizeram eco. O festival do American Film Institute solicitou a presença de “Munyurangabo” e deu ao filme seu prêmio principal.

“Foi tudo inesperado, mas muito bonito”, ele diz. “É como um filme que resolveu existir por conta própria. Eu estava dando aulas e pensei que não adiantava dar aulas, falar de cinema, temos que fazer cinema para entender o que é. Foi algo muito puro. Não queríamos provar nada, só mostrar algo verdadeiro e honesto. Foi uma das melhores experiências da minha vida.”

Três anos depois, em 2010, Lee realizava seu segundo filme, “Lucky Life”, a história de um grupo de amigos se despedindo de um deles, em estágio final de câncer. O projeto bancado pela Kodak por meio da Cinefondation do Festival de Cannes permitiu uma produção maior e despertou sua vontade de “usar minhas memórias”.

Depois de trabalhar, mais uma vez, em Ruanda, com o documentário “I Have Seen My Last Born” (2015), sobre o impacto do genocídio sobre as famílias do país, Lee resolveu se dar uma espécie de retiro. Aceitou um cargo de professor em um programa de formação para cinema, na Coreia do Sul, e dedicou o tempo a, em suas palavras, “lembrar”, “voltar ao que eu sabia, mas nunca tinha prestado muita atenção”.

Teve Dostoiévski como uma de suas inspirações, e sua família foi a substância do que queria narrar. “Ao mesmo tempo, sabendo como meus pais eram pessoas discretas, eu estava apavorado com a possibilidade de violar a privacidade deles. Tinha medo de ser próximo demais, pessoal demais.”

O roteiro foi escrito em inglês, sendo as falas dos personagens vertidas em coreano pelo tradutor Hong Yeo-yul. No ano seguinte, o projeto já estava em desenvolvimento, graças à produtora Christina Oh, uma das executivas da Plan B, empresa criada por Brad Pitt.

Oh já havia coproduzido obras importantes, como “Okja” (2017), do cineasta Bong Joon-ho, o sul-coreano que fez história no Oscar do ano passado com “Parasita” (2019), vencedor de quatro Oscars, incluindo melhor filme e diretor. Ela contou ter, ao mesmo tempo, “fascinação e temor” pela obra de Lee. “Era mais uma oportunidade de explorar a cultura coreana, desta vez dentro da América”, comentou em uma palestra no Festival de Sundance de 2020.

“Essa era a fascinação. E o temor era exatamente que fosse coreano demais para a plateia norte-americana. Mas não era possível mexer nisso sem mexer com a própria essência do filme. Era preciso ter fé no poder que ‘Minari’ tinha, por si mesmo.”

“Eu creio que a América de hoje é mais ampla e compreende muito melhor todas as diferentes gamas de cultura que temos. A cultura coreana não é mais algo alienígena”, diz Steven Yeun, o protagonista de “Minari”, indicado ao Oscar de melhor ator.

“A culinária coreana é celebrada, conhecida e consumida por todos os Estados Unidos. Bong Joon-ho é um nome conhecido. Há algo em ‘Minari’ que resume tudo isso e vai fundo nesse encontro entre Estados Unidos e Coreia. Ele é ao mesmo tempo uma homenagem à Coreia e um filme completamente americano.”

De fato: filmado em uma fazenda em Oklahoma —cultivada por uma família de coreanos—, “Minari” foi, tanto para Lee Isaac quanto para Steven Yeun, nascido em Seul e criado no estado de Michigan desde os 5 anos, e o elenco coreano —Yeri Han e Youn Yuh-jung, ambas estrelas em seu país de origem—, experiência singular. Youn concorre a melhor atriz coadjuvante no Oscar.

No olhar de Lee, “era um filme completamente americano, no qual eu via sempre referências de westerns, filmes como ‘As Vinhas da Ira’, e ao mesmo tempo, cada vez mais, eu via minha família.”

Para Steven —que carregava a responsabilidade de viver o jovem patriarca da família imigrante, e usou o tempo todo, durante as filmagens, o boné vermelho dado pela mãe quando ele foi para a universidade—, a preocupação era “não infantilizar meu personagem, e ao mesmo tempo não glorificar o seu sacrifício”.

“Sim, o sucesso da segunda geração de imigrantes se baseia no sacrifício da primeira geração, no seu estoicismo de suportar a imensa solidão da distância de suas raízes. Mas essa não era a história —a história do filme era a de pessoas tentando viver uma vida melhor, ter fé no fluxo contínuo de uma geração para outra”, completa o ator.

O sucesso de “Minari” em crítica e público é um marco importante, pois reflete uma virada no interesse de plateias por filmes sobre outras realidades e culturas, ou, como Lee diz, “sem medo de ler legendas”. “Isso é uma realidade hoje, graças a plataformas como a Netflix que exibem obras coreanas e de várias nacionalidades e idiomas. Talvez a indústria finalmente se convença de que o público mudou.”

O filme também é relevante por elevar ao posto de protagonista o que antes era tido como “exótico”. Apenas sete atores de origem asiática —Pat Morita, George Takei, Sessue Hayakawa, Keye Luke, Anna May Wong, Bruce Lee e Phillip Ahn— trabalharam regularmente no cinema americano durante um longo tempo.

O ator Steven Yeun na 91ª cerimônia do Oscar - Danny Moloshok - 24.fev.19/Reuters

Este quadro foi alterado em grande parte pela chegada de realizadores do leste asiático, como Ang Lee, Wayne Wang e John Woo, na virada dos anos 1980 para os 1990.

O primeiro filme estadunidense dirigido e estrelado integralmente por talentos asiáticos foi “O Clube da Felicidade e da Sorte”, de 1993. Desde então, apenas oito filmes americanos tiveram temas, realizadores e atores asiáticos.

Estrelas de origem asiática como Sandra Oh, Awkwafina, Joan Chen, Hong Chau, Lee Byung-hun, Daniel Wu, John Cho, Henry Golding, Gemma Chan e Maggie Q são presenças razoavelmente recentes em uma indústria que há pouco tempo começou a enfrentar a questão da diversidade.

Em um momento de crise como o que vivemos —quando a luta contra a pandemia resvalou em campanhas de ódio como a alavancada por Trump, que chamava o Sars-Cov-2 de “vírus chinês”, o que levou a perseguições a indivíduos de origem asiática em cidades dos Estados Unidos—, o sucesso de um filme profundo e delicado como “Minari” é sinal de possibilidades.

Steven Yeun, conhecido por produções como a série “The Walking Dead”, está escalado para três projetos e tem sua própria produtora. Lee Isaac Chung já trabalha em seu próximo filme, “Your Name”, adaptação de um filme anime do mesmo título, de 2016.

“Racismo existe, e é algo difícil de ser abordado”, diz Steven. “Mas há muito trabalho sendo feito para nos levar adiante disso, para que sejamos capazes de nos percebermos todos como seres humanos.”

E o pai de Lee, que Steven encarnou em “Minari”? “Meu pai acabou tendo muito sucesso com ervas medicinais”, Lee diz, sorrindo. “Foi graças à fazenda, graças à persistência da minha família, à luta constante, que eu pude ir à universidade, me tornar um realizador, ter uma vida mais tranquila do que a que eles tiveram.”

Minari é uma erva aromática, semelhante ao salsão, nativa do leste asiático. Resiste a tudo, cresce e se multiplica rapidamente, a despeito de qualquer obstáculo. Esse é o poder de “Minari”.

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