Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Presidente da Vale se afasta temporariamente após pressão da Procuradoria e da PF

Fabio Schvartsman e outros três executivos da mineradora também deixam seus cargos após tragédia de Brumadinho

Brasília e São Paulo

O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, e três diretores da mineradora se afastaram temporariamente da empresa após pressão do Ministério Público Federal, do Ministério Público de Minas Gerais e da Polícia Federal.

A decisão foi tomada neste sábado (2) depois de reunião do conselho de administração da empresa e, à noite, a companhia divulgou comunicado sobre a troca temporária no comando.

Na sexta-feira (1º), conforme antecipado pelo Painel, os órgãos de investigação recomendaram o afastamento dos executivos e mais dez funcionários enquanto são apuradas as causas e as consequentes responsabilidades pelo rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG).

O acidente, ocorrido no dia 25 de janeiro, deixou 186 mortos e 122 pessoas estão desaparecidas.
Os executivos apresentaram cartas de afastamento temporário. Os pedidos foram aceitos pelo conselho da mineradora.

Com a saída de Schvartsman, o diretor-executivo Eduardo Bartolomeo deve assumir interinamente o comando da empresa.

Além de Schvartsman, os três executivos que enviaram cartas com pedido de afastamento temporário foram: Peter Poppinga, diretor-executivo de ferrosos e carvão; Lucio Flavio Gallo Cavalli, diretor de planejamento e desenvolvimento de ferrosos e carvão; e Silmar Magalhães Silva, diretor de operações do corredor sudeste da Vale.

Em carta ao conselho, Schvartsman afirma que decidiu pedir o afastamento temporário da função de diretor-presidente “com a absoluta convicção da retidão” e “do dever cumprido até aqui” em favor da continuidade das operações da companhia e “do apoio às vítimas e a suas famílias”.


“É muito difícil para mim, após décadas de atuação como executivo de algumas das maiores empresas do Brasil, e tendo colhido o reconhecimento de minha dedicação e apoio aos milhares de colegas, colaboradores, acionistas e demais constituintes com quem ombreei ao longo de todos aqueles anos na tarefa de gerar empregos, riqueza, tributos e governança de primeiro nível, retirar-me da linha de frente

Fabio Schvartsman, presidente da Vale


No documento, o executivo afirmou também que “é muito difícil” tomar a decisão pelo afastamento, “após décadas de atuação como executivo de algumas das maiores empresas do Brasil”.

“Mas essa frustação daquilo que percebo como meu dever de dedicação integral às vítimas, a suas famílias, a todos os colaboradores da Vale e ao país, é irrelevante quando comparada à dor que se espalha entre milhares de pessoas neste momento”, diz Schvartsman.

Em sua carte de afastamento, Peter Poppinga também afirma estar convicto de que atuou dentro da legalidade, com retidão de conduta, pautado por responsabilidade social e ambiental. 

"Sinto e estou convencido que nesse momento de polarização, o melhor que tenho a fazer, tanto para mim como para a companhia, é solicitar o afastamento temporário de minhas funções, até que as autoridades concluam suas investigações e possam apurar, independentemente do meu cargo, de forma técnica, legal e imparcial, as causas e circunstâncias do rompimento da barragem B1 de Feijão", escreveu Poppinga.

No total, a recomendação dos órgãos de investigação pediu o afastamento imediato de 14 funcionários da Vale. Solicitou também que a companhia orientasse seus empregados a não compartilhar com eles assuntos de teor profissional e que ficasse proibido o acesso dessas pessoas a prédios ou instalações da Vale.

Além dos quatro diretores agora afastados, outros dez cargos são de nível de gerência, geologia ou engenharia. O documento diz também que o afastamento não exclui futuras recomendações de saída de outros profissionais ainda não listados, conforme o avanço das investigações.

O presidente da Vale, Fabio Schvartsman - Valter Campanato/Agência Brasil

A recomendação, entregue ao advogado do conselho da Vale, Celso Vilardi, estabeleceu um prazo de dez dias para a companhia se manifestar sobre todos os pedidos.

“A omissão da resposta no prazo estabelecido será considerada como recusa ao cumprimento da recomendação”, diz.

De acordo com o MPF, MP e PF, o afastamento dos nomes indicados não exclui a possibilidade de adoção de “medidas mais gravosas” perante a Justiça.

“A presente recomendação não esgota a atuação da Polícia Judiciária nem do Ministério Público sobre o tema, não excluindo futuras recomendações ou outras iniciativas com relação aos fatos ora expostos, inclusive e especialmente, a adoção das medidas cabíveis para obtenção do resultado pretendido”, diz o texto.

A recomendação ocorreu uma semana depois de gerentes e técnicos que estavam presos afirmarem em depoimento que diretores da Vale sabiam que havia problemas com a barragem do Córrego do Feijão, que se rompeu em janeiro.

A informação de que o depoimento de um gerente levou a investigação à diretoria executiva da Vale foi revelada pela coluna Mônica Bergamo na terça (26).

No depoimento, o gerente disse que poderia afirmar com certeza e convicção que os dados de avaliação de risco e a probabilidade de ruptura, não apenas de Brumadinho, mas de outras barragens do chamado corredor sul e sudeste, eram de conhecimento dos diretores Silmar Silva e Lúcio Cavalli. Ambos se afastaram neste sábado.

Entre os gerentes alvo da recomendação das autoridades de Minas Gerais, estão sete dos oito que foram detidos no dia 15 e tiveram habeas corpus concedido pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) no dia 27.

Desde a tragédia, as ações da Vale recuaram 16,76%, reflexo do receio de investidores com as punições que poderão ser impostas à mineradora após a tragédia. 

Desde a posse de Schvartsman, porém, em maio de 2017, a companhia se valorizou cerca de 75%. Ele foi indicado ao posto em março daquele ano.

A disparada se deu na esteira da reestruturação societária conduzida pelo executivo. O processo levou a Vale a migrar para o Novo Mercado, segmento da Bolsa brasileira com regras mais rígidas de governança corporativa. Os fundos de pensão Petros (Petrobras), Previ (Banco do Brasil) e Funcef (Caixa) seguem como maiores acionistas da companhia, por meio da Litel (21%), mas não têm o controle.

Quando assumiu o cargo, Schvartsman defendeu em seu discurso que a companhia adotasse o lema “Mariana nunca mais”. Além de fazer votos de que a companhia não voltasse a se envolver em um desastre ecológico e social da dimensão de Mariana, o executivo tomou posse destacando o objetivo de realizar uma gestão marcada por performance, governança e sustentabilidade. 

Conforme destaca agora em seu pedido de afastamento, Schvartsman teve uma carreira de mais de 40 anos na condução de grandes negócios, com passagens por Klabin, Grupo Ultra e Telemar Participações. 

Na semana passada, a agência de classificação Moody's retirou o grau de investimento da companhia ao cortar o rating global atribuído à mineradora Vale de "Baa3" para "Ba1", com perspectiva negativa. 

Schvartsman tem 65 anos e é engenheiro formado pela Poli-USP. Ele tem ainda pós-graduação em administração de empresas pela FGV.

Thais Arbex, Joana Cunha e Tássia Kastner
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