Prisão de Temer e Moreira Franco aprofunda queda na Bolsa e pressiona dólar

Para analistas, punição de representantes da velha política dificulta ainda mais toma lá da cá pela reforma da Previdência

Anaïs Fernandes
São Paulo

O dia foi tenso para a Bolsa brasileira. O mercado, que abriu azedo com a proposta de reforma na aposentadoria dos militares apresentada pelo governo e pela queda da aprovação do presidente Jair Bolsonaro (PSL), desandou com a prisão do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco, por volta de 11h.

Na avaliação dos analistas, as prisões tendem a repercutir negativamente num ambiente político já fragilizado, dificultando o andamento da reforma da Previdência. Ficaria mais complicado para o governo de Jair Bolsonaro (PSL) aceitar a chamada velha política, representada por Temer e Moreira Franco.

Ibovespa, índice das ações mais negociadas, abriu em queda de 0,19%. Entre 11h13 e 11h18, quando foram noticiadas as prisões, passou de 97.372,06 pontos para 96.762,88. 

No pior momento, a Bolsa recuou mais de 2%, mas recuperou parte das perdas. Encerrou o dia em baixa de 1,33%, a 96.729 pontos. O giro financeiro foi de quase R$ 18 bilhões.

A queda destoou, por exemplo, das bolsas americanas, que avançaram mais de 1%.

O dólar, que rondava a estabilidade pela manhã, chegou a subir para R$ 3,838. Encerrou com valorização de 0,90%, a R$ 3,8010. 

O CDS (credit default swap, termômetro de risco-país), subiu de 161 pontos para 163.

Paulo Gama, analista político da XP Investimentos, diz que as prisões desta quinta não ajudam na expectativa de que o governo adote um tom menos de campanha e mais pragmático em relação ao Congresso e aos políticos em busca da aprovação da reforma da Previdência.

"O que o Congresso esperava para ter esse avanço era que o governo conseguisse se descolar do discurso de campanha crítico à política tradicional e caminhasse para uma prática mais pragmática. Quando é preso um dos símbolos dessa política tradicional, fica mais custoso para o presidente Jair Bolsonaro fazer esse movimento", afirma.

O fato de o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ter laços de parentesco com Moreira Franco, que também foi preso, entra na cota do que "não ajuda", segundo Gama. Maia é casado com a enteada de Moreira Franco. No convívio social, eles são vistos como genro e sogro. 

"Tudo o que desviar o foco do Congresso, turvar o ambiente de discussão, tumular o ambiente e deixar o clima mais acirrado não ajuda na votação de uma reforma que já não é fácil de passar", diz.

Na avaliação do economista-chefe da Necton, André Perfeito, a prisão de Temer aumenta também as tensões entre a classe política e as forças da Lava Jato e do judiciário, que já era grande.

Na véspera, Maia fez duras críticas ao ministro da Justiça, Sergio Moro, e a seu pacote de medidas anticrime. O economista cita ainda a criação da CPI Lava Toga, para investigar integrantes do STF (Supremo Tribunal Federal) e de tribunais superiores.

"Tudo isso em conjunto evidencia que teremos maior incerteza política num momento que o presidente não está com sua capacidade de articulação plena", diz Perfeito. Pesquisa Ibope revelou que a aprovação do governo de Bolsonaro caiu 15 pontos desde a posse

"A prisão de Temer foi um aviso em dois, como se diz no jargão de mercado. Outros nomes de peso devem ser presos ou pressionados em breve ao que tudo indica."

A Bolsa também reagiu negativamente à proposta do governo para a reforma na aposentadoria dos militares, apresentada na véspera.

"Uma das avaliações feitas é de que a economia de R$ 10 bilhões em 10 anos é muito pequena em relação à da PEC da Nova Previdência (R$ 1 trilhão). Outra é a sinalização negativa do comprometimento do governo devido às concessões estabelecidas para o grupo", disse a XP em relatório.

"O mercado viu como negativo o plano para os militares, uma vez que ele trouxe uma série de benesses para uma categoria do serviço público [...] O governo tem se apoiado na estratégia de comunicação de que a previdência gera e perpetua desigualdades esdrúxulas no país, e que por isso a mesma precisa ser reformada. Porém, com esse projeto para os militares, o governo instalou um gigantesco telhado de vidro em cima da sua principal linha retórica", escreveu a Guide.

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