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Aumento da pobreza ajuda a explicar o declínio econômico da Argentina

Macri parecia perfeito para receber dinheiro global abundante, mas população pensa diferente

São Paulo

Dois movimentos contraditórios ajudam a explicar a nova moratória argentina: de um lado, investidores internacionais nadando em dinheiro; de outro, o rápido aumento da pobreza, que agora afeta 
um terço dos argentinos.

Em junho de 2017, o governo de Mauricio Macri surpreendeu o mundo ao vender US$ 2,75 bilhões em títulos com prazo de cem anos prometendo pagar juros de 7,9% ao ano. Na América Latina, só o México havia emitido papéis centenários até então, em 2011.

O feito se deu quatro meses antes das eleições legislativas, que deram a Macri e seu partido, o Cambiemos, um poder inédito desde 1985 —última vez em que um não peronista, Raúl Alfonsín, venceu amplamente eleições legislativas de meio de mandato.

A demanda pelos títulos públicos argentinos atingiu o triplo do total ofertado. Isso seria muito estranho para um país com histórico de hiperinflação e calotes, não fosse a monumental quantidade de dinheiro barato disponível hoje no mundo.

Reflexo do combate à crise financeira de 2008-2009 e da política de juros baixos dos bancos centrais de EUA e Europa, principalmente, havia à época (e ainda há) trilhões de dólares ao redor do mundo atrás de oportunidades de remuneração. 

Devido a esse excesso de liquidez, as avaliações de risco de investidores tornaram-se menos rigorosas; e o governo pró-mercado de Macri parecia até há pouco o candidato perfeito para receber parte desse dinheiro barato global.

O problema de Macri é que os argentinos não pensam assim. O terremoto financeiro desta semana em Buenos Aires provavelmente não estaria ocorrendo se Macri estivesse liderando a corrida eleitoral deste ano. 

E não está porque os argentinos parecem dispostos a dar a Presidência aos peronistas Alberto Fernández e Cristina Kirchner, considerados hostis ao mercado e ao FMI (que em 2018 emprestou US$ 57,1 bilhões ao país, um recorde). 

Apesar (e por causa) das várias medidas que Macri tomou para tentar recolocar a Argentina nos trilhos, as condições de vida pioraram e a taxa de pobreza aumentou.

Duas séries estatísticas (do Indec, o IBGE argentino, e da Universidade Católica Argentina) coincidem em mostrar um avanço dramático da pobreza, que atinge agora 32% da população 
(ou 13 milhões de pessoas).

O aumento foi de cinco pontos percentuais em apenas um ano. E, segundo a Universidade Católica, a taxa de miseráveis chega a 41,1% na Grande Buenos Aires, onde vive mais de um quarto da população e de onde Macri governa.

Se Cristina Kirchner entregou um país falido e à beira da hiperinflação no final de 2015, Macri também falhou ao postergar para depois das eleições legislativas, em outubro de 2017, medidas mais duras que acabou tomando em 2018 e no ano eleitoral de 2019.

Nesse meio tempo, Macri aumentou muito as dívidas interna e externa argentinas, e o país acabou vítima também do aumento da aversão a riscos de investidores, cada vez mais temerosos de uma recessão global.

Somando novos episódios às contas até 2008 dos economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, da Universidade Harvard, a nova moratória argentina se junta a outros oito ou nove momentos (dependendo do critério) em que o país passou por um “default” ou reestruturou sua dívida. 

Outros latino-americanos como Equador, Venezuela e Chile estão no alto desse ranking. Mas ele tem em seu topo a “matriz” desses países, a Espanha, com 14 episódios —todos eles anteriores aos séculos 20 e 21.

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