Petrobras diz que é prematuro projetar impactos de queda do petróleo

Companhia não comentou possível redução de preços de combustível

Rio de Janeiro

A Petrobras afirmou nesta segunda (9) que está monitorando o mercado de petróleo mas que ainda é prematuro projetar os efeitos da queda das cotações internacionais em suas operações. Segundo a empresa, ainda não há clareza sobre a intensidade ou duração do choque de preços.

A companhia, porém, não fez referência aos preços dos combustíveis, que vêm acompanhando mais de perto as cotações internacionais. Em 2020, a Petrobras já cortou quatro vezes os preços da gasolina e do diesel em suas refinarias —a gasolina teve ainda um reajuste positivo.

As cotações internacionais desabaram após anúncio de que a Arábia Saudita ampliaria a produção, como retaliação à falta de acordo sobre cortes na oferta global em reunião da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

No fim da manhã, a cotação do Brent, negociado em Londres, rondava os US$ 35 por barril (cerca de R$ 167, ao câmbio atual). Já há analistas projetando que chegue aos US$ 30 (R$ 143) diante dos efeitos do surto de coronavírus sobre a economia e da guerra de preços iniciada pelos árabes.

Tanques da Petrobras em Brasília - Ueslei Marcelino/Reuters

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"A Petrobras avalia que ainda é prematuro fazer projeções sobre eventuais impactos estruturais no mercado de óleo e gás associados à recente e abrupta variação nos preços do petróleo, dado que não está clara nem a intensidade ou mesmo a persistência do choque de preços", disse, em nota, a estatal.

No texto, a empresa cita "plano de resiliência" lançado em 2019 com o objetivo de se preparar para enfrentar cenários de baixos preços do petróleo. O plano reforça a estratégia da venda de ativos e fala em corte de 6,6% nos custos gerenciáveis entre 2019 e 2023.

Em apresentação para investidores estrangeiros em dezembro de 2019, a empresa estimou que seu custo de produção estaria em US$ 16 (R$ 76) durante o ano de 2020. Deste total, cerca de 80% seriam destinados a despesas operacionais e restante a participações governamentais, como royalties e manutenção.

"A ideia é que, sempre que tivermos o Brent a US$ 16 por barril, estaremos aptos a pagar todos os custos operacionais", disse a diretora financeira da companhia, Andrea Almeida, durante encontro com os investidores em Nova York.

O valor, porém, não considera os investimentos em busca de novas reservas. Na mesma apresentação, incluindo os gastos em exploração, a companhia fala em custo de US$ 25 por barril (cerca de R$ 120). Considerando apenas os campos do pré-sal, o valor cai para US$ 21 (R$ 100).

A queda do preço, porém, pode impactar no processo de venda de ativos em curso, ao trazer incertezas sobre qual será o comportamento futuro do mercado. No momento, a Petrobras tem negociações abertas para a a venda de campos de petróleo, refinarias e, fábricas de biocombustíveis, entre outros.

Para o MME (Ministério de Minas e Energia), porém, os investimentos do setor são de longo prazo e não são alterados com as variações de curto prazo nas cotações internacionais. "Apenas se o preço, de fato, se estabelecer em novo patamar é que os investimentos poderão ser reavaliados", disse, em nota.

O ministério afirma que vem acompanhando a situação e trabalha na criação de mecanismos que possam suavizar os efeitos ao consumidor da volatilidade nas cotações internacionais do petróleo. Uma das ideias seria criar um fundo de estabilização com recursos dos royalties.

"O governo vem se preparando para ter instrumentos adequados que permitam uma menor variação nos preços de combustíveis sem interferência na liberdade de mercado, respeitando a livre negociação entre os agentes econômicos", disse o MME, em nota.

Com a queda do petróleo, as ações da empresa desabaram na Bolsa brasileira —por volta de 12h45, os papéis preferenciais eram negociados em torno dos R$ 17,59, queda de 23%.

O analista Régis Chinchila, da Terra Investimentos, diz que o investidor deve ter calma. "A gente não sabe para onde isso pode ir", afirmou, dizendo que a decisão da Arábia Saudita pode ser apenas uma forma de pressão para que os países exportadores voltem à mesa de negociações.

Ele ressalta, porém, que o risco de recessão provocado pelo surto de coronavírus pode ter efeitos de mais longo prazo.

A visão é reforçada por relatório divulgado na manhã desta segunda pela Agência Internacional de Energia, que cortou em 90 mil barris por dia sua projeção para o consumo de petróleo em 2020 —movimento que já seria suficiente para reduzir as cotações independente da guerra de preços.

Segundo a agência, 2020 deve ter o primeiro recuo no consumo de petróleo desde 2009, quando o mundo sofria os impactos da crise financeira global. Para o diretor executivo da agência, Faith Birol, os impactos do coronavírus na circulação de pessoas e bens tem efeito grave no mercado de óleo.

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