Lojista deixa porta entreaberta para não matar negócio em São Paulo

Comerciantes permitem dois clientes por vez no interior do estabelecimento

São Paulo

Após quase dois meses de portas fechadas para cumprir o distanciamento social contra o coronavírus, alguns pequenos comerciantes de estabelecimentos não essenciais de São Paulo atendem o público de forma restrita para tentar sobreviver.

No centro de São Paulo, lojas de roupas deixam as portas entreabertas ou sinalizam que funcionam de modo restrito. Empresários e funcionários falaram com a reportagem na condição de não terem os nomes revelados.

Na rua das Palmeiras, um ponto de venda de roupas femininas e lingeries permite a entrada de clientes, com a regra de dois por vez. O gerente diz que as pessoas precisam estar de máscara e passar álcool em gel nas mãos.

Fachada de rua no bairro Santa Cecília; lojistas deixam porta entreaberta para clientela
Fachada de rua no bairro Santa Cecília; lojistas deixam porta entreaberta para clientela - Adriano Vizoni/Folhapress

Segundo ele, apesar de temer multas, a loja não tem outra forma de garantir um faturamento mínimo. Mesmo com a possibilidade de suspensão de contrato ou corte de jornada e salário, viabilizados por medida provisória do governo federal, 25 funcionários foram demitidos.

A empresa chegou a formar uma rede de nove lojas na capital, mas seis foram fechadas por completo, segundo ele. Apenas a do centro funciona, e foi reaberta há menos de uma semana. O faturamento caiu a menos da metade.

Esquema parecido é visto em duas lojas em Santa Cecília. Um comerciante relatou queda de 80% no faturamento e disse que reabrir com restrição foi a única opção que encontrou para pagar o aluguel e as contas, que ultrapassam R$ 7.000. O resultado oscila na casa dos R$ 3.000 com encomendas de clientes antigos feitas via WhatsApp.

Apesar de aberta, duas fitas isolantes impedem o ingresso no interior da loja. O atendente recebe o interessado, que informa a peça de roupa que deseja adquirir, e a transação é feita fora da loja.

Na Santa Ifigênia, polo de eletrônicos, a movimentação é maior que a vista em outros bairros comerciais. Há muitos estabelecimentos abertos que oferecem reparo de itens elétricos, modalidade considerada essencial pelo governo do estado.

Lojas de luminárias e de peças para computador têm as portas abertas: algumas têm fita isolante restringindo a passagem, e outras, acesso liberado, que é permitido.

Esquema comum tem sido a venda por WhatsApp, que justifica a operação de uma série de lojas com portas entreabertas a um metro do chão.

"Estamos faturando cerca de 40% do que normalmente conseguimos. Tínhamos dinheiro guardado e pedimos empréstimo no banco. Conseguimos segurar funcionários. Se o governo optasse pelo 'lockdown' [restrição total], teríamos que demitir", afirma Paulo Antoni, de uma loja de chaveiros para o atacado.

Há sete semanas, sua operação ocorre essencialmente pelo WhatsApp. A loja veda o acesso a clientes, mas às vezes precisa operar internamente para manejar o estoque e realizar a entrega de materiais.

Na região da 25 de Março, onde funciona boa parte do varejo popular paulistano, ao menos 20 pontos encerraram as atividades e não devem reabrir, segundo a Univinco, associação de comerciantes.

"Isso são lojas de rua. Não sabemos sobre as dezenas que ficam em prédios e galerias, o número será muito maior", diz Claudia Urias, diretora da associação.

Ela afirmou que representantes dos polos comerciais do centro, que são Santa Ifigênia, Brás, 25 e Bom Retiro, aguardam posição do governo sobre uma reunião pleiteada para entender os protocolos a serem estabelecidos no pós-confinamento.

Em nota, o governo de São Paulo disse que se reuniu com a Associação Comercial de São Paulo e com a Fecomercio, "entidades que contemplam os os polos comerciais do Centro".​

O setor defende reabertura gradual e flexível após o dia 31. "Respeitamos até agora, mas precisamos do mínimo de previsibilidade", diz. Reportagem da Folha já mostrou que a estimativa de associações do centro é de 100 mil cortes diretos e indiretos nos próximos meses.

Nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, as lojas não essenciais estão fechadas, mas com luzes acesas e trabalhadores no interior. Três estabelecimentos abriram a porta para a reportagem. Eles dizem que estão no local porque operam pelo ecommerce e precisam realizar as entregas.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.