Pandemia vitima memória gastronômica de Buenos Aires

Cerca de 30% dos bares e restaurantes fecharam de vez; alguns eram centenários

Buenos Aires

A cidade internacionalmente conhecida por sua agitada vida gastronômica, com restaurantes históricos e modernos, e muitos cafés abertos desde a primeira medialuna matinal até o último drinque, vai chegar ao final da pandemia do coronavírus com esse cenário completamente alterado.

Com uma longa e restritiva quarentena, que ultrapassa os cem dias, 30% dos restaurantes e cafés de Buenos Aires já fecharam suas portas definitivamente, segundo o sindicato gastronômico local. A previsão, caso a medida se estenda por mais um mês, é que 70% deles tenham o mesmo destino.

“Isso é o equivalente a mais de 3.000 negócios, que hoje empregam 24 mil pessoas”, diz Ariel Amoroso, presidente da Associação de Hotéis, Restaurantes, Confeitarias e Cafés.

Desde 20 de março, quando veio a proibição de abrir para o público, muitos deles atuam por delivery ou take away, com o pedido antecipado por telefone e horário marcado para a retirada, por meio de uma janela ou na porta do estabelecimento, sem que se possa entrar.

O setor também sofre com o desaparecimento do turismo. Não há voos locais e internacionais na Argentina até, pelo menos, dia 1º de setembro.

Umas das baixas foi o Trapiche Palermo, um legítimo “bodegón”, como se diz de restaurante de cozinha tipicamente argentina. Fechado no fim de junho após 30 anos de funcionamento, exibe na porta cartas e bilhetes dos frequentadores lamentando o fim.

“Aqui celebramos os 80 anos do meu pai, Juan, e tivemos reuniões familiares inesquecíveis. Não te esqueceremos nunca, Trapiche”, diz um dos bilhetes da cliente que se identifica apenas como Cecilia.

Locais de encontro mais modernos também não resistiram, é o caso das filiais do café Sottovoce e do restaurante La Parolaccia, em Puerto Madero. O calçadão gastronômico criado no bairro, à beira d’água, nos anos 1990, está às moscas. Ali, o delivery e o take away não funcionam muito bem, pois a maioria dos frequentadores desses restaurantes era de turistas e de gente que trabalhava nos escritórios das torres comerciais, agora desertas com a transferência de funcionários para o home office.

Entre os locais históricos fechados está o restaurante do hotel Castelar, onde morou o poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936) por mais de um ano, o bar La Iberica, que funcionava desde 1893, e o La Flor de Barracas, considerado um dos “bares notáveis” da cidade, de 1906.

Mesmo em locais mais centrais, o atendimento por telefone e a entrega domiciliar não têm ajudado muito. O dono do La Biela, tradicional café da Recoleta, um dos pontos turísticos da cidade, que acaba de completar 70 anos, diz: “Só estamos faturando 6% de nosso rendimento com isso. Mantenho aberto para mostrar solidariedade, para dar um sinal positivo para a sociedade e para os funcionários”, conta Carlos Gutiérrez García, que é proprietário do imóvel.

“Se tivéssemos que pagar aluguel, teríamos de fechar já. É o que está acontecendo com muitos restaurantes de Buenos Aires.” Um dos funcionários, por exemplo, vai ao local apenas para limpar as famosas estátuas dos escritores Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, que estão na mesa em que o segundo costumava frequentar.

O fechamento é uma saída também para que seja possível demitir funcionários.

Por decreto presidencial, demissões e reduções salariais estão proibidas até o fim das medidas de isolamento. Desse modo, a única maneira de aliviar custos com pessoal é fechando. “Tenho 54 funcionários, mas só 10 estão trabalhando aqui todos os dias. Os outros estão em casa e recebendo. Quem pode aguentar isso sem nenhuma entrada?”, questiona Gutiérrez García.

O retorno do turismo, em setembro, se ocorrer, é visto como muito distante. “E, mesmo assim, não vai ser como antes, as pessoas terão menos dinheiro e mais medo de sair. Temos de repensar todo o modelo de negócio”, diz Narda Lepes, proprietária do premiado Comedor de Narda, que está na lista dos 50 melhores da América Latina.

O Comedor continua operante, mas com futuro incerto. Para Lepes, modelos de reabertura com cones ou bolhas de plástico que surgiram na Europa não funcionam. “Isso só serve para alimentar a programação da TV, para fazer a foto, ninguém vai querer de fato comer num restaurante assim.”

Um caminho que tem surgido como opção é transformar os espaços em lojas de produtos gastronômicos, mesmo assim com entrada restrita de pessoas e medidas de higienização constante. É a saída encontrada, por ora, pela famosa parrilla Don Julio, considerado o melhor restaurante de Buenos Aires no ano passado. O Don Julio virou um açougue de luxo, vendendo cortes de carne por encomenda.

Restaurantes pequenos de bairro, tão comuns na cidade, também estão fechando ou apostando em nichos de clientela. Como o Allegra, no bairro da Chacarita. “Estamos trabalhando num menu criativo, com um prato novo por semana, e os vendemos congelados. A pessoa escolhe pelo Instagram e nos contata”, diz Mariana Achaval, uma das sócias do restaurante. Ela afirma, porém, que trabalha sem ganhar nada desde março.

“Estou conseguindo pagar o aluguel e só”, afirma. Sua ideia é que, na nova normalidade, o Allegra adote um novo modelo. “Vamos ter algumas mesas, com separação grande entre elas, e abrir um armazém para que as pessoas comprem vinhos, congelados, e mesmo plantas ou comida para cachorros. Talvez assim possamos continuar com o negócio”, diz.

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