Descrição de chapéu Financial Times alimentação

JBS recorre a blokchain para comprovar origem de gado na Amazônia

Maior frigorífico do planeta enfrenta pressão de investidores para demonstrar que seu gado não provém de terras desflorestadas ilegalmente

Bryan Harris
São Paulo | Financial Times

O grupo JBS, o maior frigorífico do planeta, está recorrendo ao blockchain a fim de garantir que as dezenas de milhares de cabeças de gado que a empresa processa a cada dia no Brasil sejam rastreáveis, depois de sofrer intensa pressão de investidores e ativistas por seu histórico ambiental.

A empresa sediada em São Paulo há muito vem enfrentando críticas de organizações não governamentais por não fazer o suficiente para garantir que o gado proveniente de seus fornecedores indiretos –pecuaristas que fornecem animais aos provedores diretos do JBS– não está sendo criado em terras desflorestadas ilegalmente na Amazônia.

Mais recentemente, em meio à pressão internacional renovada sobre o governo brasileiro pela destruição cada vez maior da selva amazônica, a maior companhia do Brasil em termos de faturamento se tornou alvo de investidores, que ameaçaram retirar seu capital a menos que a companhia melhore suas normas de sustentabilidade.

FILE PHOTO: Cattle graze on a smoldering field that was hit by a fire burning a tract of the Amazon forest as it is cleared by farmers, in Rio Pardo, Rondonia, Brazil September 16, 2019. REUTERS/Ricardo Moraes/File Photo ORG XMIT: FW1 - REUTERS

Em julho, a Nordea Asset Management decidiu excluir as ações do JBS de seus fundos devido a preocupações ambientais. Analistas do banco HSBC também alertaram quanto a investir no grupo frigorífico, afirmando que este não tinha “plano de ação, tecnologia ou solução” para monitorar sua cadeia de suprimento de gado.

Na quarta-feira (23), porém, a JBS decidiu agir, com o anúncio de um registro digital que traçaria as origens de todo o seu rebanho. A companhia anunciou que, em prazo de cinco anos, seus fornecedores teriam de monitorar as cadeias de suprimento que os servem e garantir que disponham de documentação sobre as origens do gado.

A companhia acrescentou que o registro seria auditado por terceiros, e incluiria cláusulas de compartilhamento de informações para que os bancos brasileiros pudessem determinar se estão fazendo empréstimos a pecuaristas associados à destruição da selva amazônica.

“A nova plataforma oferecerá uma camada essencial de informações a fim de permitir que o gado seja rastreado durante toda a sua vida, e para garantir que gado de quaisquer produtores envolvidos em desflorestamento ilegal não possa ingressar na cadeia de suprimento da JBS”, a companhia anunciou na quarta-feira.

Os investidores receberam o desdobramento positivamente. "É claro que ainda resta muito a provar quanto ao impacto exato e ao cronograma dessa medida, mas ainda assim [ela] representa um passo à frente significativo”, disse Eric Pedersen, diretor de investimento responsável na Nordea Asset Management, que tem 223 bilhões de euros sob administração.

Jeanett Bergan, diretora de investimento responsável do KLP, o maior fundo de pensões da Noruega, elogiou o uso de “novas tecnologias... para levar adiante a agenda da sustentabilidade”, mas disse que guardaria “provas práticas detalhadas” sobre o sucesso da ideia.

Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, uma organização de pesquisa, acrescentou que a iniciativa requereria proficiência tecnológica para funcionar como pretendido.

“Os fornecedores indiretos no meio da Amazônia terão o acesso à internet, o hardware e o conhecimento digital necessários para administrar esse processo?”, ele questionou.

A adoção da tecnologia blockchain pela companhia brasileira se segue a iniciativas semelhantes nos Estados Unidos e Austrália, onde os pecuaristas estão mostrando cada vez mais atenção às preocupações dos consumidores sobre o impacto ambiental da indústria da carne.

“O uso do blockchain é excelente. É uma ótima tecnologia. Mas a questão importante é de onde virão os dados, e qual é a estrutura legal por trás dos dados sobre transações de gado que você estiver utilizando”, disse Petterson Vale, consultor de agricultura na Amazônia.

A despeito da crescente indignação quanto ao impacto das ações empresariais sobre o meio ambiente no Brasil, o grupo JBS teve um segundo trimestre recorde, superando a estatal de petróleo Petrobras para se tornar a maior companhia do Brasil por faturamento, com vendas de R$ 67,6 bilhões no segundo trimestre.

O grupo foi estimulado pela queda da moeda local, combinada à demanda sustentada por produtos durante a crise de Covid-19.

O papel da empresa nas cadeias mundiais de suprimento foi destacado terça-feira (22) nas Nações Unidas pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que disse que o setor de agronegócio de seu país estava “alimentando o mundo”, e que isso havia feito do Brasil um alvo de forças protecionistas no exterior.

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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