EUA liberam voos com o Boeing 737 MAX após 20 meses de suspensão

Modelo ficou parado devido a problema de software que levou a 2 acidentes com 346 mortos

São Paulo

O Boeing 737 MAX foi liberado para voar pelas autoridades regulatórias dos Estados Unidos, 20 meses após ter sua operação suspensa em todo o mundo devido a um problema de software que causou dois acidentes fatais.

A notícia, a primeira boa para a fabricante norte-americana na maior crise de seus 104 anos de história, fez sua ação subir até 5% na abertura da Bolsa de Nova York nesta quarta (18). Empresas de aviação e de turismo devem ser favorecidas também.

Aviões Boeing 737 MAX estacionados no aeroporto Grant County, em Moses Lake, Washington (EUA)
Aviões Boeing 737 MAX estacionados no aeroporto Grant County, em Moses Lake, Washington (EUA) - Lindsay Wasson/Reuters

A FAA (Administração Federal de Aviação) se disse satisfeita com as diversas correções de projeto e de procedimentos de treinamento que a Boeing aplicou ao modelo, o mais vendido em termos de encomendas de sua história.

"Eu estou 100% confortável com minha família voando nele", disse o chefe da FAA, Stephen Dickson, que citou o "caminho longo e extenuante" que a revisão do 737 MAX exigiu. O avião teve sua produção suspensa em janeiro.

Apesar da liberação, há ainda alguns passos pela frente. "A FAA deve aprovar a revisão do programa de treinamento de pilotos para cada empresa americana operando o MAX", afirmou a agência em comunicado.

A crise do MAX, que vai custar ao fim estimados US$ 18 bilhões (R$ 95 bilhões no câmbio desta quarta) à Boeing, acabou ampliada pela pandemia do novo coronavírus.

Com a devastação do mercado aéreo, as empresas passaram a cancelar compras de aviões e a revisar pedidos futuros. No Brasil, a única empresa que opera o MAX, a Gol, teve 7 aeronaves paradas em solo e reduziu sua carteira de pedidos de 129 para 95.

O avião era o maior best-seller da Boeing, com 5.000 encomendas, quando começou sua saga trágica. Em outubro de 2018, um modelo da Lion Air caiu no mar da Indonésia sem causa aparente, logo após a decolagem.

Meses depois, em março de 2019, o mesmo ocorreu com um avião da Ethiopian Airlines, na Etiópia. Os sinais de alerta se acendera e a frota foi paralisada no mundo todo para investigar o motivo das tragédias, que mataram ao todo 346 pessoas.

Há 387 modelos MAX entregues no mundo, mais 400 parados em pátios da Boeing, ainda sob guarda da empresa.

A apuração revelou uma série de problemas no projeto do avião, questões conceituais que levaram à causa específica dos acidentes: uma falha de operação no sistema de software conhecido com MCAS, que corrige automaticamente o ângulo do nariz da aeronave.

Grosso modo, o computador entendia incorretamente que o avião precisava baixar o nariz para nivelar e o fazia mergulhar rumo ao solo, sem responder a comandos dos pilotos.

Para piorar, descobriu-se que o treinamento de pilotagem era falho para lidar com o sistema.

As investigações mostraram que, mesmo dentro da Boeing, as suspeitas sobre a tecnologia adotada eram conhecidas e temidas há tempos, e tinham a ver com a pressa em colocar o avião no mercado. Regulamentos federais foram alvo de chacota e falhas potenciais, escondidas.

A isso se somou o próprio modo de desenvolvimento da aeronave. Como toda a linha do 737, o avião mais vendido do mundo com 10.500 unidades produzidas desde 1967, o MAX era uma versão aprimorada de sua geração anterior.

Como suas turbinas eram maiores, elas foram colocadas numa posição mais adiantada na asa para caber no modelo sem tocar o solo, o que mudou o centro de gravidade do avião. O MCAS era um sistema que buscava corrigir eventuais falhas em voo devido a essa mudança.

Choques entre tecnologias falhas e treinamento de pilotos não são inéditos. A europeia Airbus teve de revisar procedimentos e sistemas de seu popular modelo A330 depois que um deles caiu no Atlântico, voando do Rio para Paris, matando 228 pessoas em 2009.

Agora o sistema recebeu aprimoramento e a Boeing fez outras mudanças de engenharia, como no cabeamento de sistemas dentro da cabine de comando.

A decisão da FAA, que fez a investigação com a ajuda das agências reguladoras do Canadá, da União Europeia e do Brasil, a Anac, deverá ser seguida em todo o mundo pelos órgãos locais.

Grandes operadoras do modelo, como a americana United, estimam que ele de fato volte a operar no começo de 2021, a depender da demanda.

A crise abalou profundamente a Boeing, maior fabricante aeroespacial do mundo. Devido a ela, e à pandemia, a empresa cancelou a compra da linha de aviação comercial da brasileira Embraer, em abril, gerando uma disputa que está num tribunal de arbitragem nos EUA.

Trinta mil funcionários da empresa perderam o emprego no processo, inclusive seu presidente, Dennis Muilenburg —não sem antes embolsar uma multa de US$ 62 milhões (R$ 327 milhões hoje), o que foi alvo de crítica de grupos de parentes de vítimas dos acidentes.

O novo chefe da empresa, David Calhoun, enviou uma carta aos funcionários da Boeing dizendo que irá trabalhar para restabelecer os voos do MAX o mais rapidamente possível e que nunca esqueceria das mortes.

Enquanto prepara a volta do modelo ao ar, a Boeing terá de quebrar a cabeça para reconquistar a confiança dos passageiros.

No fim do ano passado, uma pesquisa da empresa registrou que 40% dos passageiros ouvidos não voariam no avião, por exemplo. A Boeing já enfrentou problemas de credibilidade com incêndios a bordo do modelo 787 no começo de sua carreira, mas eles foram ultrapassados.

Mas há casos clássicos de modelos que nunca se recuperaram no mercado após falhas, como o primeiro avião comercial a jato do mundo, o britânico deHavilland Comet, que teve de redesenhar suas janelas após acidentes nos quais a fuselagem se rompia em voo.

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