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Nicolás José Isola

Pandemia fez presidentes e gerentes girarem como um pião

Embora discurso predominante seja de adaptação, poucos aceitam modificar a própria mentalidade

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Nicolás José Isola

Filósofo, é doutor em ciências sociais, coach executivo e consultor em storytelling

Jamais nossos corpos ficaram tanto tempo quietos ao mesmo tempo que as nossas almas moravam numa inquietude nunca antes conhecida.

A paisagem habitual dos aeroportos foi trocada pelo percurso entre a cama e o computador. Muitos morreram de saudades de fazer check-in.

No mundo das empresas falamos muito da necessidade de aprender ao longo da vida e de se adaptar às mudanças. Porém, poucos aceitam modificar aquilo ao que estão mais acostumados: a sua própria mentalidade.

Trabalhar remotamente gerou uma fronteira confusa entre a vida pessoal e profissional. As salas de nossos lares foram transformadas em escritórios e escolas. O convívio familiar, com todas suas bondades e complexidades, para muitos não foi confortável. É dificílimo trabalhar e ajudar os filhos no Zoom ou no Teams ao mesmo tempo.

Qualquer crise na vida de uma pessoa levanta uma série de questões. Não é esquisito, então, que durante a interminável quarentena, muitos executivos tenham se enchido de questionamentos internos sobre seu futuro e o futuro das suas equipes. Assim como a Covid-19 colocou em perigo a nossa saúde, também colocou em risco a saúde das nossas organizações. Um extra de empatia foi imprescindível.

Na verdade, todos fomos forçados a entrar em uma zona de desconforto que não conhecíamos sobre nós mesmos.

Essa viagem interna não foi fácil: foi cheia de pedágios eternos em que o cansaço nos exauria. Em muitos momentos, o peso foi maior que as nossas forças.

Para muitos executivos, diante da inércia em que viviam, surgiu a questão do desejo, o questionamento ligado ao motivo último que os fazia permanecer em determinada posição ou continuar em determinada empresa. Olharam-se no espelho do próprio sentido profissional, e reconhecer as próprias sombras não sempre é fácil. Muitas vezes dói.

O vírus também os infectou de dúvidas. Como coach de executivos, não foi estranho ouvir: “acho que não sou feliz nessa posição” ou “cheguei até aqui mas eu quero mudar”. A nova (a)normalidade fez com que muitos presidentes e gerentes girassem como um pião, sem saber para onde ir.

Reconhecer a própria vulnerabilidade não foi simples. A Covid-19 hackeou o software de muitos executivos e os obrigou a renovar o hardware.

Receberam um banho de humildade. Começaram a cuidar muito mais de suas equipes e empregados. As áreas de recrusos humanos se transformaram na celebridade das organizações. Cuidar das pessoas era fundamental.

O golpe da pandemia foi grave: desta vez, não bastou regar as equipes com um curso de criatividade ou com açúcar de confeiteiro de uma motivação pré-fabricada. A crise que originou o Covid-19 foi um tapa surpresa que mudou categoricamente as coisas.

Essa movimentação interna gerou um fenômeno filosoficamente denso: quando um líder troca a visão de si mesmo, muda a sua maneira de liderar. Quando a claridade interna aumenta, o exterior não é o mesmo, ele também acende. E não é poesia barata. É fibra vital: conectividade humana.

Muitos executivos aprenderam a ser mais pacientes e a reconhecer seus próprios limites.

As consequências dessas transformações tocam cantos internos, inesperados. Algumas placas tectônicas que pareciam rígidas começam a se mover de uma maneira nova.

Nada misterioso. A morte gera sempre um questionamento contundente sobre a maneira como vivemos.

Um paradoxo maluco, não é?! O vírus que intentou nos afastar, acabou unindo a gente.

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