Como criar um negócio inovador sem ter que investir pesado em tecnologia

Alterações simples ajudam pequenos empresários a melhorar processos e personalizar serviços

São Paulo

Pequenos empresários tendem a achar que a inovação não está a seu alcance por demandar altos investimentos e muita tecnologia. Mas mudanças simples no negócio já podem fazer uma grande diferença.

"Gosto de pensar na inovação como um jeito novo de fazer uma coisa velha", diz Pedro Superti, especialista em marketing de diferenciação.

Para ele, isso independe da tecnologia. "No passado, havia muitos erros médicos dentro dos hospitais, até que um administrador importou a ideia da aviação do uso de checklists. Quando os profissionais de saúde começaram a utilizá-las, o número de erros médicos despencou. Isso é inovação", afirma.

Desenvolver processos e canais que contribuam para reduzir custos e aumentar a base de clientes também é inovar, diz Michel Porcino, gerente de inovação do Sebrae-SP. "O principal obstáculo para a inovação é a resistência das pessoas às mudanças, não a falta de acesso à tecnologia."

Ele sugere que, antes de começar o negócio, o empreendedor concentre esforços no cliente. "Conhecer profundamente o seu consumidor e entender o que ele está buscando é o primeiro passo", afirma.

Com base nas necessidades do cliente, o empresário pode adaptar o seu negócio e, assim, ampliar as chances de ganhar espaço no mercado.

Homem com blusa preta em loja de materiais de contrução
O empresário Paulo da Silva em sua loja de materiais de construção em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

Os especialistas destacam ainda que é natural que os empresários tentem competir por volume de vendas, mas essa não é a única opção.

"As pequenas empresas têm uma oportunidade incrível de oferecer uma experiência superior, na qual a pessoa realmente importa e não é apenas um número em um sistema. Essa é a grande vantagem contra as redes gigantescas em qualquer mercado", diz Superti.

Com isso, o empreendedor consegue agregar valor ao seu produto ou serviço e, assim, aumentar sua margem de lucro, afirma ele.

"A pessoa está disposta a pagar mais caro por um serviço personalizado", diz Fernando Moulin, especialista em transformação digital e experiência do cliente.

O atendimento diferenciado foi a aposta do empreendedor Paulo da Silva, 45, quando comprou em 2019 a Melo Materiais de Construção, loja com 30 anos de mercado, localizada em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo.

Depois de ouvir as necessidades dos fregueses, o empresário implementou o atendimento por WhatsApp e estreitou a parceria com fornecedores e prestadores de serviços, além de ampliar a variedade de produtos.

"Muitas das alterações que fizemos não dependeram de investimentos, foram mudanças nos processos. Criamos um fluxo melhor na logística e mudamos horário de atendimento, assim o cliente passou a poder ir à loja na volta do trabalho. Também fizemos uma negociação com o banco e conseguimos ampliar as condições de pagamentos", conta o empresário.

Matheus Jacob, fundador da Conte, empresa especializada no treinamento de empresas e de líderes, afirma que pequenos negócios podem conseguir se diferenciar pelo atendimento, pela agilidade ou pela personalização. "A inovação não precisa vir sempre pelo produto", diz. ​

Mas competir com grandes empresas não é tarefa fácil, especialmente para quem está começando. Criada em 2018, a startup Vee, que atua na área de recursos humanos, percebeu que poderia se diferenciar nesse mercado prestando um serviço personalizado.

A empresa atende a outras companhias, fazendo a gestão dos benefícios dados aos seus funcionários, o que facilita o trabalho do departamento de RH.

"Fazemos uma abordagem diferenciada, levando em consideração as necessidades de cada empresa e dos seus colaboradores", diz Raphael Machioni, 28, cofundador e diretor-executivo da Vee.

A startup também inovou ao implementar benefícios flexíveis, deixando o empregado livre para usar seu cartão da forma que achar mais conveniente. É possível, por exemplo, transferir o crédito de alimentação diretamente para a conta bancária.

"Trouxemos para o mercado mais flexibilidade e produtos agregados, algo que as outras empresas não tinham. Isso tem sido o nosso grande diferencial", diz o executivo.

No ano passado, o faturamento da companhia saltou para R$ 75 milhões, contra R$ 440 mil em 2019.
O número de usuários também aumentou, saindo de 1.500 para os atuais 50 mil. A meta do empresário é chegar a 200 mil até o fim de 2021.

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