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Ao sair de acordo com o Irã, Trump rompe com a Europa

Decisão americana mostra que o país perdeu a fé em seus aliados mais tradicionais

Edward Luce

Lembre-se do dia 8 de maio. A história talvez se recorde dessa data como sendo aquela em que os Estados Unidos abandonaram sua fé em aliados. A saída de Donald Trump do acordo nuclear com o Irã coloca Washington –e não Teerã— na situação de estar violando um acordo internacional.

Pela primeira vez em décadas, os EUA está agindo sem um parceiro europeu. A guerra do Iraque, em 2003, foi apoiada pelo Reino Unido, Espanha e outros, além de esforços frouxos para convencer a França e a Alemanha a aderir. Já Trump, pelo contrário, isolou a América do resto do Ocidente sem fazer qualquer esforço sério. Quem mais seria capaz de unificar o Reino Unido pós-Brexit com a Europa?

Manifestantes do lado de fora da Casa Branca defendem a manutenção do acordo com o Irã
Manifestantes do lado de fora da Casa Branca defendem a manutenção do acordo com o Irã - Brendan Smialowski - 8.mai.2018/AFP

A primeira baixa provocada pela iniciativa de Trump é qualquer coisa que se assemelhe a uma ordem mundial. Os EUA agora se encontram com Israel e a Arábia Saudita em um grupo solitário, de um lado de uma divisão internacional tóxica. Do outro lado estão a China, Rússia, Europa e Irã. A essa lista devemos quase certamente somar o Japão, Índia, Austrália e Canadá.

É difícil visualizar como essa divisão não vai se aprofundar. Trump ignorou as súplicas unânimes dos aliados mais estreitos dos EUA. Dois de seus líderes, o francês Emmanuel Macron e a alemã Angela Merkel, chegaram a viajar até Washington nos últimos 15 dias para defender seus argumentos. Eles voltaram com as mãos abanando.

Um terceiro aliado sênior, Boris Johnson, o secretário do Exterior britânico, destacou que o mundo não tem um “plano B” ao acordo nuclear com o Irã. Foi outra maneira de dizer que a alternativa a “discussões, discussões” é “guerra, guerra”. Trump mergulhou a Europa em um dilema que ela tentou de tudo para evitar. Ele está obrigando os principais aliados dos EUA na Otan a optar entre respeitar um acordo que eles mediaram –e que o Irã vem respeitando— ou aderir a um partido bélico “América em Primeiro Lugar” sobre o qual eles não exercem nenhuma influência.

A primeira alternativa vai desencadear sanções americanas sobre bancos e empresas energéticas europeus que continuarem a fazer negócios com o Irã. A segunda significaria contrariar o que lhes parece correto e correr o risco de desencadear um conflito no Oriente Médio que prejudicaria a Europa muito mais que a América. Seguir a linha dos EUA também teria um custo político muito alto. Os índices de aprovação de Macron em sondagens na França caíram após sua “ofensiva de bajulação” junto a Trump.

Também significaria abraçar a visão alternativa que Trump tem da realidade. O presidente americano disse na terça-feira que o acordo nuclear de 2015 levou o Irã “à beira de” desenvolver armas nucleares.

Os líderes europeus chamam a atenção para o fato de que o Irã estava a três meses de conquistar um grande avanço nuclear antes de o acordo ser selado. O acordo adiou essa data em pelo menos um ano. O Irã concordou em permitir inspeções não avisadas com antecedência e aceitou limites rígidos a suas atividades de pesquisas e enriquecimento nuclear por entre dez e 15 anos.

Trump entregou ao Irã um pretexto para reiniciar seu programa nuclear a qualquer momento. A mesma coisa se aplica à alegação de Trump de que o acordo nuclear desencadeou uma corrida armamentista nuclear no Oriente Médio. Não existia tal corrida. Agora é possível que ela comece.

A resposta da Europa vai depender em grande medida da reação do Irã. O presidente iraniano, Hassan Rouhani, disse na terça-feira que o próximo passo terá que ser dado pela Europa. Se os três Ms –Merkel, Macron e May— encontrarem uma maneira de manter o acordo, é provável que o Irã se atenha a ele.

Essa bifurcação conduz a uma divisão crescente no Ocidente. Washington imporia sanções a organizações europeias. A Europa seria forçada a retaliar. Há anos os aliados da América estão insatisfeitos com a imposição de sanções secundárias por Washington. As consequências da divergência em torno do Irã podem ser a gota unilateral que faz o copo transbordar.

É desnecessário dizer que Rússia, China e outros países vão continuar a fazer negócios com o Irã. E também adotarão medidas recíprocas se forem alvos de sanções financeiras dos Estados Unidos.

Esse tipo de retaliação não ocorrerá de modo isolado. Não se sabe que impacto teria sobre as negociações comerciais de Trump com a China e sobre as esperanças de manter a pressão chinesa sobre o norte-coreano Kim Jong-un para levar à desnuclearização. Assim como a Europa e o Oriente Médio, a Ásia observa a evolução de Trump com ansiedade crescente. Não está claro como Trump imagina que sua política de risco em relação ao Irã pode beneficiar as perspectivas de um acordo nuclear sério com Kim.

Houve em dado momento uma discussão sobre se Trump deveria ser levado a sério ou interpretado literalmente. A resposta é: as duas coisas. Agora ele tem uma equipe que compartilha seus instintos de “América em primeiro lugar”.

John Bolton, seu assessor de seguraça nacional, defende há anos que os EUA deveriam atacar as instalações nucleares do Irã. Bolton não confia em inspetores nucleares.

Os paralelos com o período de preparação para a guerra do Iraque são preocupantes. Poucos países gostariam de ver uma repetição desse erro colossal. Na terça-feira Trump praticamente declarou guerra ao Irã. Isso é algo que já será altamente consequente. Os prejuízos colaterais causados à posição global dos Estados Unidos podem ser ainda piores.

Financial Times

Tradução de Clara Allain

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