EUA enviam investigadores para apurar desaparecimento de jornalista saudita

Turquia nega e diz que vai investigar caso de Jamal Khashoggi ao lado de sauditas

Washington | Reuters e Associated Press

O presidente Donald Trump afirmou nesta quinta-feira (11) que os EUA enviaram investigadores para ajudarem a Turquia a apurar o desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi.

"Estamos sendo muito duros. Mandamos investigadores para lá e estamos trabalhando com a Turquia, e francamente, estamos trabalhando com a Arábia Saudita. Queremos descobrir o que aconteceu", afirmou ​à Fox News. 

Questionado sobre uma reportagem do Washington Post segundo a qual a inteligência americana interceptou comunicações indicando um plano orquestrado pelo príncipe saudita Mohammed bin Salman para deter o jornalista, Trump disse: "Isso seria muito triste, e saberemos em um futuro muito próximo".

No entanto, a Turquia negou que os EUA tenham enviado alguma equipe ao país. O porta-voz da Presidência turca, Ibrahim Kalin, afirmou ter aceitado proposta saudita para que o caso seja investigado por um "grupo de trabalho" conjunto.

Como Khashoggi não é cidadão americano, o FBI não teria como influenciar nas investigações a menos que houvesse um convite turco, afirmou o The New York Times. 

Manifestante com máscara do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman com sangue nas mãos protesta contra desaparecimento do jornalista Jamal Khashoggi, em Washington - Jim Watson - 8.out.18/AFP

Trump afirmou ainda que "não seria aceitável" um bloqueio às vendas de armas americanas para a Arábia Saudita em resposta ao caso. "Que bem isso nos faria?", disse a repórteres no Salão Oval. 

Em sua primeira viagem internacional como presidente, Trump visitou a Arábia Saudita e anunciou um acordo de US$ 110 bilhões (cerca de R$ 410 bilhões) para a venda de armas.

Seu governo também conta com o apoio saudita em vários aspectos de sua agenda para o Oriente Médio.

“Não gostamos disso. Mas sobre se deveríamos ou não impedir que US$ 110 bilhões sejam gastos nesse país, sabendo que eles têm quatro ou cinco alternativas, duas delas muito boas, isso não seria aceitável para mim." 

A declaração provocou reações de senadores republicanos, muitos dos quais assinaram uma carta na quarta-feira pedindo que o governo Trump pressionasse por investigações e abrindo caminho para a possível aplicação de sanções contra autoridades sauditas.

"Se ficar provado que eles assassinaram um jornalista, isso mudará enormemente nossa relação", afirmou o senador Bob Corker, presidente da comissão de relações exteriores. "Se for o que todos achamos que é mas não temos certeza, terá de haver sanções significativas contra as mais altas esferas." 

A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA , Heather Nauert, afirmou que o governo ainda "Não tem certeza sobre o que aconteceu" com Khashoggi e que está "extremamente preocupado" com o caso.

Ela a firmou também que diplomatas americanos que entraram em contato com o embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, que retornou para o seu país de origem. "Esperamos ter algumas informações quando ele voltar ", disse ela.  

Em declarações ao jornal Hurriyet, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a Turquia não pode silenciar sobre o caso.

Khashoggi desapareceu no último dia 2 de outubro após comparecer ao consulado da Arábia Saudita em Istambul para coletar documentos. Autoridades turcas pensam que ele foi morto dentro do edifício.

"Estamos investigando todos os aspectos do evento. Não é possível para nós ficar em silêncio sobre essa ocorrência, porque não é uma ocorrência comum", afirmou.

"Como é possível que não havia circuito de segurança no consulado?", questionou. Autoridades sauditas afirmam não ter imagens de Khashoggi deixando o edifício. 

Segundo o Post, a operação envolvia enviar duas equipes com 15 homens, em dois voos privados, para Istambul, com o objetivo de atrair e deter o jornalista —uma espécie de "rendition", ou seja, quando um alvo é capturado em um país e levado ilegalmente para outro para interrogatório. 

Para a Turquia, qualquer que tenha sido o objetivo da operação, Khashoggi foi morto dentro do consulado. Imagens de câmeras de segurança mostram o jornalista entrando no prédio, mas não saindo.

Na noite desta quinta, o Washington Post informou, com base em agentes de inteligência dos EUA, que os turcos disseram aos americanos que têm um áudio captado no consulado do interrogatório e da agressão e tortura do jornalista antes de ser morto.

Os agentes americanos afirmaram ao jornal que foi esta gravação que deu base para a acusação de assassinato.

O Post questiona ainda sobre se os EUA souberam de antemão sobre a operação, mas não alertaram o jornalista. Segundo uma diretiva de 2015, agências de inteligência têm o "dever de alerta" pessoas que corram risco de sequestro, ferimentos graves ou morte. 

Em retaliação ao sumiço do jornalista, a revista The Economist, o jornal The New York Times e os canais CNN e CNBC cancelaram sua ida a um evento econômico em Riad. Já o empresário Richard Branson, da Virgin, suspendeu a negociação sobre o aporte saudita de US$ 1 bilhão para um projeto espacial.

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