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Governo Trump

Doutrina do 'fale grosso e imponha tarifas' de Trump pode falhar desta vez

EUA anunciaram taxa sobre bens mexicanos em resposta à migração na fronteira

São Paulo

Subvertendo a máxima consagrada pelo ex-presidente americano Theodore Roosevelt (1901-1909) —“fale macio e leve um grande porrete”—, a doutrina do atual líder dos EUA, Donald Trump, está mais para “fale grosso e ameace impor tarifas”.

O uso de tarifas como instrumento de persuasão tem sido uma arma razoavelmente eficiente para extrair concessões econômicas: levou a União Europeia, China, México e Canadá, entre outros, à mesa de negociações.

 

Mas a ameaça de Trump de lançar um tarifaço sobre todas as exportações do México para os EUA —que chegam a US$ 371 bilhões— para estancar o fluxo de imigrantes ilegais tem grandes chances de ser um tiro no pé.

 

Sem entrar no mérito do possível aumento de preços dos produtos para o consumidor americano, o tarifaço poderia sabotar a ratificação do novo tratado entre México, EUA e Canadá (Usmca), que deve substituir o Nafta, considerado por Trump “o pior acordo comercial já feito.”

Duas semanas atrás, Trump acenara com a bandeira branca ao anunciar que estaria retirando as tarifas sobre exportações de aço e alumínio do México e Canadá, em vigor desde o ano passado. Essas sobretaxas eram vistas como um obstáculo para a assinatura do novo Nafta.

Mas Trump tirou um bode da sala para colocar um maior ainda no lugar.

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, enviara o acordo para o Senado na quinta-feira (30) e pediu que se adiantasse a votação do texto. Após o tarifaço, é de se esperar que os senadores examinem com menos boa vontade a legislação.

Nos EUA, os deputados democratas já estavam fazendo corpo mole, exigindo mudanças nos capítulos de legislação trabalhista, meio ambiente e farmacêuticos.

Senadores do partido do presidente vieram a público dizer que o tarifaço contra o México pode atrapalhar a ratificação.

“Política comercial e segurança da fronteira são duas questões separadas”, disse o senador republicano Chuck Grassley, líder do comitê de finanças do Senado. “Este é um mau uso da autoridade do presidente de impor tarifas; se ele cumprir sua ameaça, vai pôr em risco seriamente a ratificação do USMCA, uma das principais promessas de campanha do presidente Trump.”

Segundo análise da Comissão Internacional de Comércio dos EUA, o acordo USMCA geraria 176 mil empregos no país. Já o tarifaço pode custar US$ 17 bilhões aos consumidores americanos.

O México é o segundo maior parceiro comercial dos EUA, com o comércio bilateral atingindo US$ 671 bilhões em 2018 —só perde para a China, que também é alvo de tarifas americanas. As taxas atingiriam US$ 34 bilhões em importações de carros, US$ 33 bilhões em caminhões e US$ 14 bilhões em petróleo.

O mercado financeiro levou a sério as ameaças de Trump e já está refletindo as possíveis perdas que seriam causadas pelas tarifas.

Ações de montadoras, que estariam entre as mais afetadas por importarem boa parte dos veículos e autopeças do México, chegaram a cair 3%.

O peso mexicano chegou a cair 2,5%. A Bolsa de NY teve queda de 1,3%.

Há que se pesar ainda se as tarifas são mesmo uma arma eficiente para qualquer tipo de disputa. Na guerra comercial com a China e a UE, estão em jogo interesses essencialmente econômicos —acesso a mercados, respeito à propriedade intelectual.

Embora o assessor de comércio de Trump, Peter Navarro, tenha dito que o tarifaço é um lance de gênio, pois “imigrantes ilegais são uma exportação” do México, nada indica que as sobretaxas seriam eficientes para reduzir o fluxo de refugiados.

A grande maioria dos imigrantes chegando aos EUA vem de Honduras, Guatemala e El Salvador. Enquanto a situação lá não melhorar, o fluxo não vai cair.

Não é realista imaginar que o México irá segurar todos esses migrantes em seu território. Em contrapartida, se o México ceder, é capaz de Trump se empolgar e ameaçar com tarifas os parceiros da Otan que, segundo ele, não contribuem como deveriam para a aliança militar.

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