Trump ouviu os céticos e resolveu suspender ataque contra o Irã

Tucker Carlson, da Fox News, foi determinante para líder não seguir os 'linha-dura'

​Peter Baker, Maggie Haberman e Thomas Gibbons-Neff
Washington | The New York Times

Ele ouviu os generais e os diplomatas. Legisladores expressaram sua opinião, e os assessores do presidente também. Mas entre as vozes que ecoaram mais poderosamente para o presidente Donald Trump estava a de um de seus apresentadores favorito do canal de notícias a cabo Fox News: Tucker Carlson.

Enquanto sua equipe de segurança nacional instava por um ataque militar ao Irã, Carlson disse a Trump recentemente que usar a força para responder às provocações de Teerã era loucura. Ele afirmou que a linha dura não tinha em mente os melhores interesses do presidente. E que se Trump entrasse em uma guerra contra o Irã, estaria destruindo sua chance de reeleição.

Presidente dos EUA, Donald Trump, fala no jardim da Casa Branca sobre decisão de não atacar o Irã
Presidente dos EUA, Donald Trump, fala no jardim da Casa Branca sobre decisão de não atacar o Irã - Saul Loeb / AFP

Quer esse conselho tenha quer não tenha influenciado a escolha, o sentimento expresso por Carlson certamente reforçou as dúvidas que Trump mesmo abrigava quanto a uma das mais importantes decisões de política externa de sua presidência. De acordo com seu relato, o presidente cancelou o ataque que estava "armado e pronto", na noite de quinta-feira, a apenas 10 minutos do horário marcado para seu lançamento. O ataque poderia ter causado até 150 vítimas.

As preocupações que Carlson expressou a Trump refletem aquela parte do id presidente que sempre hesita em apertar o gatilho. Por mais que sua persona pública seja belicosa e intransigente, Trump em diversos momentos recuou quanto ao uso da força, convencido de que os Estados Unidos já desperdiçaram dinheiro e vidas demais em guerras inúteis no Oriente Médio, e optando pela cautela quanto a repetir o que vê como erros de seus predecessores.

Como argumentaram Carlson e outros céticos, um ataque contra o Irã poderia facilmente descambar para uma guerra aberta, sem vitória fácil. E foi exatamente a isso que ele se opôs em sua candidatura, eles disseram a Trump. Assim, o presidente hesitou até o começo da noite, primeiro determinado a agir e a se mostrar resoluto, e em seguida decidindo contra o ataque e cancelando as ordens aos aviões e lançadores de mísseis.

"Para aqueles que desejam criticar o presidente, eu diria que eles deveriam se sentir agradecidos por a decisão não caber a eles", disse o senador Jim Risch, republicano do Idaho e presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, um dos legisladores que visitaram a Casa Branca durante o dia. "Eu percebi o quanto a decisão foi sofrida para ele."

Uma coisa que ficou clara uma vez mais, no entanto, é o quanto o processo decisório de Trump difere do adotado por presidentes anteriores, mesmo quanto às questões mais importantes que o comandante em chefe tem a resolver.

Ele costuma desconsiderar reuniões e memorandos e confiar mais em seus instintos do que nas instituições; busca fontes heterodoxas de orientação; e não hesita em confrontar uma sala repleta de assessores. Há quase seis meses, Trump vem governando sem um secretário de Defesa confirmado pelo Senado, e o secretário interino anunciou sua renúncia esta semana. E os assessores que o presidente têm parecem estar sempre ocupados tentando ganhar vantagem uns sobre os outros.

Trump já vinha resistindo há semanas a uma resposta militar a provocações repetidas por parte do Irã, quando acordou na manhã de quinta-feira e foi informado que uma aeronave de espionagem não tripulada dos Estados Unidos havia sido abatida. Agora, pressionado por John Bolton, seu assessor linha dura de segurança nacional, o presidente teria de escolher como responder.

Às 7h da manhã de quinta-feira, horas depois que o drone foi abatido, Bolton se reuniu às 7h para um café da manhã na Casa Branca com Patrick Shanahan, o secretário interino da Defesa; Mark Esper, o secretário do exército; Mike Pompeo, o secretário de Estado; e o general Joseph Dunford, chefe do Estado-Maior Conjunto das forças armadas. (Shanahan havia anunciado sua renúncia ao posto três dias antes, e Esper deve ser seu substituto.)

O grupo discutiu o episódio do drone e ponderou uma possível resposta militar a ser recomendada ao presidente. Às 11h, o mesmo grupo, em companhia de outros integrantes da equipe de segurança nacional da Casa Branca, se reuniu com Trump para informá-lo sobre as opções quanto a um ataque ao Irã. De acordo com um representante do governo, as possíveis baixas causadas por um ataque foram discutidas na reunião.

Mas Trump, como de hábito, não confiou exclusivamente em sua equipe oficial. Entre as pessoas de fora com quem ele falou naquela manhã estava o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, um de seus aliados mais próximos. Graham o instou a considerar uma resposta militar ao ataque que abateu o drone.

Às 15h, Trump recebeu líderes do Congresso na sala de situação da Casa Branca, para informá-los sobre o episódio. Pelo menos alguns dos presentes deixaram a reunião presumindo que ele fosse ordenar um ataque.

Trump recebeu uma lista de pelo menos uma dúzia de opções de ataque, geradas este mês depois de ataques a petroleiros na região. A lista foi então reduzida a pelo menos duas alternativas. Entre os alvos haveria instalações como centrais de radar e baterias de mísseis.

Funcionários do governo disseram na sexta-feira que a equipe de segurança nacional do presidente foi unânime em preferir uma resposta armada, e que todos os integrantes concordavam com a opção final recomendada a Trump. Mas diversos oficiais das forças armadas disseram que Dunford preveniu sobre as possíveis repercussões de um ataque, alertando que isso poderia colocar em risco as forças e os aliados dos Estados Unidos na região. Uma reunião às 18h no escritório de Shanahan no Pentágono, da qual Dunford participou, foi descrita como especialmente tensa.

Quanto a Pompeo, ele argumentou durante as reuniões na Casa Branca que as sanções estavam exercendo um efeito poderoso ao reduzir as receitas do Irã com as vendas de petróleo, de acordo com um funcionário importante do governo informado sobre a discussão. Embora expressasse apoio a um ataque militar limitado, ele enfatizou que as sanções estavam causando o efeito em longo prazo que o governo esperava. Alguns dos assessores de Trump questionaram se um ataque não poderia ter efeito negativo sobre uma estratégia que já estava funcionando.

Às 19h, os principais funcionários do governo americano foram informados de que o ataque ocorreria, entre as 21h e as 22h, ou pouco antes do alvorecer no Irã. Mas menos de uma hora mais tarde, ele foi cancelado.

No Twitter e em entrevista à rede de TV NBC, Trump atribuiu sua mudança de ideia ao desejo de evitar baixas.

"Quero saber uma coisa, antes de vocês começarem", ele disse ter perguntado aos seus generais. "Quantas pessoas morreriam, nesse caso iranianos?"

Os generais, ele disse, responderam que cerca de 150 pessoas morreriam.

"Pensei nisso por um segundo e pensei comigo mesmo que eles tinham derrubado um drone, ou um avião sem piloto, chame como quiser, e cá estamos nós falando em 150 mortes, que teriam acontecido meia hora depois de eu dizer sim", disse Trump a Chuck Todd, da NBC. "Não gostei da ideia, não achei boa, não achei proporcional".

Mas um funcionário do governo informado sobre as discussões contestou essa descrição, falando em modo privado. A estimativa sobre 150 mortes não veio de um general, mas de um advogado, de acordo com ele. A estimativa foi desenvolvida por advogados do Departamento de Defesa que estavam calculando as piores consequências possíveis, e não levava em conta o horário de realização do ataque; se de manhã, quando mais gente estaria presente nos alvos, ou nas horas anteriores ao alvorecer, como planejavam os militares.

A estimativa foi encaminhada a Pat Cippolone, assessor jurídico da Casa Branca, sem que Shanahan ou Dunford a aprovassem. Em seguida foi encaminhada ao presidente pelos advogados da Casa Branca, e foi então que Trump mudou de ideia e cancelou o ataque.

Mas o envolvimento dos advogados foi visto por alguns dos assessores de Trump como manobra para contornar Bolton e influenciar o presidente. Na prática, quer ela tenha chegado ao conhecimento dele de propósito, quer não, a estimativa de baixas se enquadrava nas preocupações que Trump havia mencionado a Carlson e a outros céticos quanto a ações militares no Oriente Médio.

O general reformado Jack Keane, que foi vice-chefe do Estado-Maior do exército e é próximo à Casa Branca de Trump, disse que outro fator influenciou as deliberações. O presidente foi informado de que o ataque ao drone foi na verdade um engano, como Trump insinuou publicamente falando a jornalistas horas antes.

"O presidente recebeu informações adicionais de que os líderes nacionais iranianos estavam furiosos ou frustrados com o comandante tático que tomou a decisão de abater o drone americano", disse Keane. Entre os líderes supostamente irritados estava Qasem Soleimani, o poderoso comandante da Força Quds [a unidade da Guarda Revolucionária iraniana que responde por ações militares não convencionais].

Keane disse que não estava claro se o comandante que ordenou a derrubada do drone estava operando dentro dos limites de sua autoridade ou se ele agiu sem ordens. De qualquer forma, disse Keane, Trump foi informado de que correria o risco de promover uma escalada perigosa por conta de algo que os principais líderes iranianos não haviam pretendido como ataque.

"Não acho que isso tenha sido decisivo para o presidente", disse Keane, mas o fato contribuiu para a decisão, que segundo o general foi motivada principalmente pela preocupação quanto a baixas. "O decisivo para ele foi a comparação que foi feita entre destruir baterias de mísseis e matar pessoas, de um lado, e abater um drone, do outro".

O prazo estava se esgotando, àquela altura. Graham, que pressionou por um ataque, estava a bordo de um avião, a caminho da costa oeste, e fora de contato. Trump cancelou a missão.

Com a decisão, as forças armadas ordenaram que os aviões e navio na região saíssem da prontidão. Na Casa Branca, Trump ligou a TV pra assistir ao começo do programa de Carlson, às 20h, e ouviu uma declaração que, para ele, deve ter parecido um endosso. "As mesmas pessoas que nos arrastaram ao atoleiro do Iraque 16 anos atrás estão exigindo uma nova guerra, desta vez com o Irã", disse Carlson. "O presidente merece muito crédito por ter se mantido cético a esse respeito - muito cético".

Mas se tivesse continuado a assistir TV, Trump teria ouvido mensagem radicalmente diferente vinda de outro amigo na Fox News, às 21h. A notícia sobre a suspensão do ataque não havia circulado ainda, e o apresentador Sean Hannity declarou que Trump podia "não ter escolha" a não ser "enchê-los de bombas".

Por uma noite ao menos, isso não se confirmou. Mas a batalha pela atenção de Trump ainda não acabou.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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