Estado do Arizona vira aposta democrata para derrotar Trump em 2020

Partido vê chance de vitória em região que há 23 anos vota em republicanos

Marina Dias
Phoenix

David Balsamio vai votar em Donald Trump. Aos 30 anos, o manobrista da região metropolitana de Phoenix, capital do Arizona, se diz republicano e conservador. 

Cresceu em uma casa com ideias de direita, concorda com a construção de um muro na fronteira entre Estados Unidos e México, e costuma se informar por emissoras de TV que corroboram essa visão de mundo.

Sua formação é corrente quando se trata de política no deserto americano, mas a eleição presidencial de 2020 pode mudar o histórico de um estado que há pelo menos duas décadas escolhe republicanos. 

O último candidato democrata à Casa Branca a vencer no estado foi Bill Clinton em 1996 e a vitória anterior tinha sido em 1948. 

Sob o sol de 42ºC que fazia no domingo (16), Balsamio elaborava com facilidade explicações sobre a possível mudança de humor do eleitorado na região.

"As coisas se transformaram nos últimos dois anos. Os eleitores estão mais jovens e, além disso, pessoas estão vindo da Califórnia para trabalhar aqui com ideias mais progressistas."

O diagnóstico é preciso: as mudanças demográficas e o discurso anti-imigração de Trump têm impacto e fazem do Arizona uma peça em movimento no tabuleiro político desde 2016.

Naquele ano, Trump venceu Hillary Clinton por uma margem de 90 mil votos e, no ano passado, os eleitores escolheram pela primeira vez em 30 anos uma democrata ao Senado, Kyrsten Sinema.

Outdoor contra o presidente Donald Trump é exibido em Phoenix
Outdoor contra o presidente Donald Trump é exibido em Phoenix - Brian Snyder - 24.mai.19/Reuters

Desde então, os índices de desaprovação do atual presidente aumentam e hoje estão na casa dos 50% na região. 

"O clima está mudando", afirma Balsamio no centro histórico de Scottsdale. A cerca de 30 km dali, a cidade de Chandler abriga empresas de tecnologia, como a Intel, e seus funcionários californianos e progressistas aos quais o manobrista se refere. 

O município de 250 mil habitantes reúne ainda parte dos jovens escolarizados que têm se incomodado com a postura agressiva de Trump em relação aos imigrantes.

"Fico envergonha com a maneira com que o presidente representa nosso país e sou completamente contrária à sua política externa. Acho que imigrantes são trabalhadores esforçados em busca do melhor para suas famílias", afirma a empresária Mary Sublet.

Aos 32 anos, a americana diz que votará nos democratas em 2020, como já fez na disputa legislativa do ano passado. 

Na ocasião, ela e outros muitos jovens e latinos foram às urnas no Arizona em um comparecimento histórico para as chamadas eleições de meio de mandato, já que o voto não é obrigatório nos EUA.

Foi isso que entusiasmou Cody Thompson. A moradora de Chandler avalia que é possível pintar o Arizona de roxo no ano que vem.

A referência é à mistura das cores que definem estados democratas (azul) e republicanos (vermelho) --roxos são os estados-pêndulo, que podem dar a vitória a qualquer um dos partidos.

"Começamos a mudança no ano passado, elegendo uma democrata ao Senado. Agora acho que podemos ser roxo na eleição presidencial, só depende do candidato da oposição", argumenta Thompson.

Há 23 candidatos disputando a vaga democrata para concorrer à sucessão de Trump e o favorito deles é o ex-vice-presidente dos EUA Joe Biden.

Para Sublet, a concretização das transformações no Arizona depende de eleitores que mudaram de posição nas últimas eleições. "Tem muita gente que votou no Trump em 2016 depois de ter votado no Obama em 2012. Minha esperança é que esses eleitores percebam que a situação em que vivemos hoje é grave e votem de novo nos democratas."

Assessores do presidente americano identificaram o descontentamento em relação ao governo, principalmente entre mulheres nos subúrbios do país, e traçaram uma estratégia para tentar reverter esses votos.

A região metropolitana de Phoenix --que abriga dois terços do eleitorado do Arizona-- é alvo de uma campanha que deve explorar os bons índices da economia nos EUA, com crescimento acima de 3% ao ano.

Mas não é somente quem resolve mudar de lado que deve preocupar Trump.

Republicanos do Arizona que estão descontentes com o presidente dizem que não pretendem sair de casa em novembro do ano que vem para votar nele. É o caso do motorista Steven A. Thornton, 48. "Se for Trump, não vou votar em ninguém em 2020, já fiz isso em 2016."

O programador Timothy, 37, que não quis dar sobrenome --"em tempos de redes sociais somos obrigados a tomar posição e somos atacados por isso"-- disse que votou em Trump contra Hillary e que hoje não está satisfeito.

"Definitivamente não votarei de novo em Trump. Se os republicanos tivessem outro nome, com certeza votaria neles, mas posso pensar em votar num democrata agora."

Ainda há muitos apoiadores de Trump no Arizona --os eleitores do presidente são majoritariamente brancos, pobres e de baixa escolaridade, perfil de parte da população do estado.

Além disso, o discurso da oposição move-se à esquerda, impulsionado pela ala progressista dos democratas. O fato, dizem analistas, pode afastar o eleitorado que, apesar de desgostoso com Trump, segue conservador.

O presidente deu mostras de que vai centrar esforços para manter os estados em que venceu em 2016, como Pensilvânia, Michigan e Wisconsin.

Se a estratégia tiver sucesso, os democratas vão precisar ampliar o apoio em outras regiões, e os jovens e latinos do Arizona já mostraram que o estado pode ser essa porta de entrada. 

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