Descrição de chapéu The New York Times

Nos protestos em Hong Kong, rostos tornam-se armas

Tecnologias de reconhecimento facial são usadas tanto pela polícia como por manifestantes

Hong Kong | The New York Times


Os policiais lutavam com Colin Cheung dentro de um carro sem identificação. Precisavam de seu rosto. Eles agarraram seu queixo e forçaram a cabeça, virando-a para seu iPhone. Deram tapas no rosto dele, gritando: "Acorde!" Abriram seus olhos com os dedos. Tudo falhou: Cheung tinha desativado o login de reconhecimento facial do telefone com um toque de botão rápido, assim que o pegaram. Enquanto Hong Kong se debate há semanas com protestos, os manifestantes e a polícia transformaram a identidade em uma arma. As autoridades estão rastreando on-line os líderes dos protestos e procurando seus telefones.

Muitos manifestantes agora cobrem os rostos, temendo que a polícia esteja usando câmeras e possivelmente outras ferramentas para identificar pessoas e prendê-las. Quando a polícia parou de usar crachás de identificação, à medida que a violência aumentava, alguns manifestantes começaram a denunciar a identidade dos policiais on-line. Um canal em rápido crescimento no aplicativo de mensagens Telegram procura e publica informações pessoais sobre os policiais e suas famílias. O canal, chamado "Dadfindboy", tem mais de 50 mil assinantes e defende a violência de maneira crua e caricatural. Canais rivais pró-governo tentam desmascarar os manifestantes de modo semelhante.

Cheung, que foi preso na semana passada por suspeita de "conspirar e instigar assassinato", está inscrito no canal "Dadfindboy", embora tenha negado ser um de seus fundadores, como disse a polícia, e condenado as postagens que instigam a violência. Ele acredita que se tornou alvo da polícia porque desenvolveu uma ferramenta capaz de comparar imagens com um conjunto de fotos de policiais para encontrar combinações -- projeto que abandonou mais tarde.

"Não quero que eles sejam como a polícia secreta", disse Cheung, que foi libertado sob fiança e não foi acusado de infrações. "Se os policiais não usarem nada que mostre sua identidade, eles se tornarão corruptos. Poderão fazer o que quiserem."

"Com essa ferramenta, cidadãos comuns podem saber quem são os policiais", acrescentou. Hong Kong está no limite de uma mudança significativa na capacidade das autoridades de rastrear tanto criminosos perigosos como os legítimos manifestantes políticos -- e na capacidade de seus alvos se defenderem. Do outro lado da fronteira, na China, a polícia geralmente captura pessoas com impressões digitais coletadas por um dos sistemas de vigilância mais invasivos do mundo. O advento da tecnologia de reconhecimento facial e a rápida expansão de uma vasta rede de câmeras e outras ferramentas de rastreamento começaram a ampliar substancialmente essas capacidades.

A transformação causa uma forte reação em Hong Kong. Os protestos começaram com um projeto de lei que permitiria que a cidade extraditasse suspeitos de crimes para a China continental, onde a polícia e os tribunais são controlados pelo Partido Comunista.

As autoridades de Hong Kong definiram rígidos controles de privacidade para o uso do reconhecimento facial e a coleta de outros dados biométricos, mas a extensão de seus esforços não está clara. Elas também parecem estar usando outros métodos tecnológicos para identificar os manifestantes. No mês passado, um jovem de 22 anos foi preso por ser o administrador de um grupo do Telegram.

Os manifestantes estão reagindo. No domingo (21), quando outra manifestação se transformou em um confronto violento com a polícia, alguns envolvidos dirigiram ponteiros de laser para as câmeras da polícia e usaram tinta spray para bloquear as lentes das câmeras de vigilância em frente ao escritório de relações com o governo chinês. Oficiais da tropa antimotins levavam câmeras na ponta de bastões logo atrás das linhas de frente, enquanto disparavam gás lacrimogêneo e balas de borracha.

A ira dos manifestantes se intensificou depois que a polícia retirou os números de identificação dos uniformes, supostamente para evitar que sua conduta violenta fosse relatada às autoridades. Para alguns manifestantes, a medida sugeriu que a polícia estava adotando um hábito da China continental, onde os policiais não têm de prestar contas ao público e muitas vezes não se identificam.

Representantes da polícia de Hong Kong disseram que informações pessoais sobre oficiais e seus amigos e parentes foram postadas on-line, em um ato conhecido como "doxxing". Em 3 de julho, a polícia informou que havia detido oito pessoas acusadas, entre outras coisas, de divulgar informações pessoais sem autorização. Um porta-voz da polícia disse que membros da força relataram mais de 800 incidentes em que policiais ou familiares foram perseguidos após a divulgação dos dados. "Dadfindboy" -- uma brincadeira com o nome de um grupo do Facebook criado para ajudar mães a encontrar seus filhos, mas que acabou se tornando uma forma de grupos pró-governo coletarem fotos de manifestantes -- é um fórum para o "doxxing" de policiais. Em tom alternadamente jocoso, juvenil, cruel ou profano, o canal revela com frequência informações pessoais e fotos de parentes de policiais, às vezes com fotos íntimas das redes sociais.

O canal fez apelos à violência, muitas vezes de maneira caricatural, embora não haja provas de que tenha incitado quaisquer atos específicos. Um post instruiu os manifestantes a usar estilingues. Outro explicou como fazer um maçarico usando desodorante spray. Uma pesquisa recente questionou os seguidores do canal sobre a melhor forma de tratar a polícia. As opções incluíam prisão, câmara de gás, sepultamento vivo, guilhotina e execução com metralhadora. O sepultamento vivo prevaleceu, com cerca de um terço dos votos.

A polícia deteve Cheung 11 dias depois que o canal no Telegram foi criado, acusando-o de administrá-lo. Ela também o acusou de postar um manual para assassinar policiais. Cheung nega as acusações, e uma pesquisa do "New York Times" não conseguiu encontrar mensagens correspondentes ao que a polícia descreveu.

Cheung, 29, foi apanhado em um shopping center por volta das 12h de 18 de julho, segundo seu relato. Quatro policiais à paisana esperaram que ele destravasse o telefone e pularam sobre ele, tentando arrancá-lo de suas mãos.

Depois que os policiais tentaram usar seu rosto para desbloquear o telefone, levaram Cheung para uma delegacia, onde ele foi agredido e interrogado, segundo disse. Mais tarde, os oficiais foram até sua casa e usaram um pendrive carregado com software para invadir seus computadores, de acordo com seu relato do incidente. Ele disse que ficou preso por mais de dez horas e que não tinha certeza de como a polícia o havia identificado. A polícia de Hong Kong confirmou a investigação, mas não quis fazer mais comentários a respeito.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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