Adivinha o que acontece na eleição argentina? Fake news

Campanhas de Macri e kirchneristas têm feito uso intenso de redes sociais

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Como em outras eleições recentes pelo mundo, as redes sociais têm sido muito usadas nas campanhas dos principais candidatos à Presidência na Argentina.

Enquanto propagandas via WhatsApp são mais utilizadas pela equipe de Mauricio Macri, que disputa a reeleição, redes sociais como Facebook, Instagram e YouTube são os meios favoritos dos kirchneristas Alberto Fernández e sua candidata a vice, Cristina Kirchner.

O presidente Mauricio Macri, que disputa a reeleição, durante evento de campanha em Buenos Aires - Agustin Marcarian - 6.ago.2019/Reuters

No domingo (11) ocorrem as primárias obrigatórias. Como não há disputas internas nos partidos, o pleito servirá para medir como o eleitorado pretende votar no primeiro turno, em 27 de outubro.

Quem assistiu ao documentário “Privacidade Hackeada” (Netflix) deve se lembrar que a Argentina é citada como um dos países que teria contratado os serviços da Cambridge Analytica, consultoria que acessou ilegalmente dados de milhões de cidadãos para serem usados nas campanhas de Donald Trump e do brexit. 

O filme mostra a equipe de Macri celebrando a vitória em 2015. Depois, numa audiência na Câmara dos Comuns, no Reino Unido, Alexander Nix, então executivo-chefe da Cambridge Analytica, confirmou ter trabalhado numa campanha “anti-Kirchner” naquele ano, mas se negou a afirmar quem o contratou.

Como aquela foi uma campanha muito polarizada entre Macri e o kirchnerista Daniel Scioli, e os partidos do terceiro lugar para baixo não tinham o capital para pagar por esses serviços, a imprensa passou a insistir na versão de que a equipe do atual presidente contratou a empresa, o que macristas sempre negaram. 

Depois, porém, vieram à luz evidências de encontros de Nix com Macri e pessoas de seu entorno, e uma associação de ambos para ajudar uma organização de caridade.

Questionado pela Folha, o governo argentino voltou a afirmar que Macri e sua equipe nunca contrataram serviços da Cambridge Analytica.

A equipe do atual presidente tem 350 mil colaboradores, os Defensores del Cambio (defensores da mudança), que trabalham na produção de mensagens para grupos de WhatsApp de empresas, esportistas e acadêmicos. 

Por dia, os Defensores del Cambio mandam cerca de 30 mensagens com a voz do presidente dirigidas a um público segmentado. A um grupo de empresários, ele encorajou a “continuar apostando em suas reformas”, mencionando números de vendas ou objetivos alcançados por empresas específicas e chamando seus donos pelo primeiro nome. 

Também há mensagens endereçadas a membros de equipes de rúgbi ou de futebol e a pequenos empresários que buscam soluções para seus problemas em meio à crise. 

A saudação é sempre cordial e direta: “Olá, [fulano], aqui fala Mauricio”. E logo vem a mensagem, que inclui um “obrigado por seu apoio”, “sei que a situação está difícil, mas estamos no caminho certo”.

Também há um aplicativo dos Defensores del Cambio, com dezenas de mensagens pré-gravadas do presidente. Elas podem ser baixadas para que apoiadores divulguem em suas próprias redes ou grupos. 

Do lado kirchnerista, a campanha oficial é mais modesta, e membros do partido têm divulgado notícias falsas, que se espalham rapidamente.

O ex-chefe de governo de Cristina, Aníbal Fernández —não confundir com o candidato, Alberto Fernández—, por exemplo, difundiu um vídeo em que Macri aparecia ao lado do chanceler Jorge Faurie cumprimentando soldados. 

O presidente então teria escutado uma ofensa de um oficial. Mentira. Mesmo assim, o vídeo teve mais de 37 mil republicações no Twitter.

Do lado de Macri também há apoiadores que divulgam fake news, como a de que Cristina teria uma filha com síndrome de Down. Mais: a ex-presidente teria escondido a garota durante toda a vida. 

Também é mentira, mas nas ruas é possível escutar a história como se fosse verdade 
—publicações em blogs e sites duvidosos sobre a suposta filha fazem sucesso nas redes. 

Para combater a divulgação de notícias falsas, o site Chequeado (verificado) lançou um programa chamado Reverso. 

Trata-se de um serviço voltado para as eleições. “É muito difícil ganhar a luta contra as notícias falsas, porque a mentira tende a se espalhar mais fácil e rapidamente do que a verdade”, diz a fundadora do site, Laura Zommer. “Mas vale a pena. Esse tipo de problema só se resolve combatendo a desinformação.” 

O Chequeado é financiado por colaborações online e não é vinculado a partido. Se uma pessoa tem dúvidas de uma notícia sobre um candidato, pode enviá-la ao site (chequeado.com) para verificação. 

Nas últimas semanas, o Reverso desmentiu algumas notícias falsas que haviam viralizado. Uma delas dizia que o candidato Alberto Fernández tinha câncer de pulmão. Mentira. Outra afirmava que nas escolas do país estaria proibido usar os termos “papai” e “mamãe”. Mentira também.

Algumas notícias que parecem falsas, porém, depois se confirmam como verdade, como um vídeo em que Alberto Fernández agride um sujeito num bar após ser ofendido.

“Somos um país fraco no que diz respeito à proteção de dados pessoais, por isso é preciso muito cuidado com a informação pessoal que colocamos nas redes”, diz Zommer sobre uma possível manipulação de dados para propaganda específica, como aconteceu no caso das eleições em que a Cambridge Analytica atuou. 

Ela acrescenta que, “numa eleição tão polarizada, a propaganda negativa tem muita força, e as pessoas infelizmente estão mal informadas. Vídeos ou notícias escabrosas sobre um ou outro candidato espalham-se rapidamente, e muitas vezes são mentiras.”

O Reverso se associou, nesta eleição, a 180 meios de comunicação de toda a Argentina.

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