Descrição de chapéu The New York Times

Empresa corta proteção a site no qual atirador de El Paso teria postado manifesto

Cloudfare defendia fórum extremista 8chan de ataques que pudessem tirá-lo do ar

Kevin Roose
The New York Times

Após o atentado a tiros que deixou 20 pessoas mortas em El Paso, no Texas, a empresa de infra-estrutura de internet Cloudfare anunciou nesta segunda (5) que deixará de oferecer proteção contra ataques de ativistas que pretendam tirar do ar o site de mensagens de extrema-direita 8chan.

São os chamados "ataques distribuídos de negação de serviço" (DDoS), e a proteção que a Cloudfare oferecia visava evitar que o site fosse derrubado. O 8chan deixará de ter os serviços da Cloudfare a partir da noite desta segunda.

Acredita-se que o suspeito do massacre em uma loja do supermercado Walmart em El Paso tenha postado um manifesto nacionalista branco no 8chan antes do ataque.

"O raciocínio é simples: eles provaram que não têm leis e a ilegalidade causou várias mortes trágicas", disse o CEO da Cloudfare, Matthew ​Prince, em um post no blog da companhia ao explicar as razões do desligamento. “Mesmo que o 8chan não tenha violado a letra da lei ao se recusar a moderar sua comunidade cheia de ódio, eles criaram um ambiente que se regozija em violar este espírito.”

“Nós toleramos com relutância o conteúdo que achamos repreensível, mas colocamos o limite em plataformas que demonstraram que inspiram eventos trágicos diretamente. O 8chan cruzou essa linha”, completou.

O autor dos disparos foi preso e identificado como Patrick Crusius, um homem branco de 21 anos. Ele saiu da cidade de Allen, no Texas, e se dirigiu a El Paso —os municípios ficam a cerca de 10 horas de carro um do outro.

Momentos antes do massacre, no sábado (3), uma mensagem de quatro páginas apareceu no 8chan cujo autor se identificou como o atirador. A pessoa que fez o post incentivou seus “irmãos” no site a difundirem a mensagem aos quatro ventos.

Nos últimos meses o 8chan virou um recurso ímpar para extremistas violentos. Pelo menos três chacinas cometidas este ano —incluindo o massacre em mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, e a chacina numa sinagoga em Poway, Califórnia— foram anunciadas com antecedência no site, em muitos casos acompanhadas de textos racistas que pareciam ter sido criados especialmente para viralizar na internet.

Fredrick Brennan fundou o mural de mensagens online para ser um ponto utópico de livre expressão. Mas hoje o 8chan é conhecido como algo diferente: um megafone para atiradores em massa e uma plataforma de recrutamento de nacionalistas brancos violentos.

O site virou foco de atenção de pessoas que se esforçam para barrar os caminhos do extremismo online. No domingo, críticos descreveram o site como terreno fértil para a violência; alguns fizeram lobby junto aos provedores da página para que ela fosse tirada do ar. E Brennan, que no ano passado deixou de trabalhar com o dono atual do site, pediu que o 8chan seja tirado do ar antes que conduza a mais violência.

“É preciso fechar o site”, disse Brennan, em entrevista no domingo (4). “Ele não está fazendo bem ao mundo. É uma negação absoluta para todos menos seus usuários. E sabe de uma coisa? É uma negação para eles também. Só que eles não se dão conta disso.”

Brennan, que alega ter tido a ideia de criar o 8chan quando estava sob o efeito de cogumelos psicodélicos, se propôs a criar algo que descreveu como uma alternativa de livre expressão ao 4chan, um fórum de discussões online mais conhecido. Ele achava que o 4chan se tornara restritivo demais. Visualizava um site onde qualquer tipo de expressão legal seria bem-vinda, por mais tóxica pudesse ser.

O site permaneceu às margens do mainstream até 2014, quando alguns defensores do GamerGate –um coletivo reacionário de jogadores e criadores de videogames antifeministas— debandaram para o 8chan depois de serem expulsos do 4chan.

Desde o GamerGate, o 8chan virou um site aberto a comunidades baseadas na internet cujo comportamento as leva a ser expulsas de sites mais mainstream. O site abriga um dos maiores coletivos de seguidores do QAnon, para quem existe uma burocracia internacional que conspira contra a administração Trump. E ele tem sido o lar online dos chamados “incels”, homens que lamentam ser “celibatários involuntários”, além de outros movimentos marginais.

“O 8chan é quase como um mural online onde os piores transgressores vão compartilhar suas ideias terríveis”, explicou Jonathan Greenblatt, executivo-chefe da Liga Antidifamação (ONG que combate o antissemitismo). “O site virou uma caixa de ressonância onde as pessoas compartilham ideias e onde ideologias desse tipo são difundidas e amplificadas. Em última análise, as pessoas são radicalizadas por conta disso.”

Desde 2015, quando Brennan abriu mão do controle do site, o 8chan é comandado a partir das Filipinas por Jim Watkins, veterano do Exército americano.

O site continua quase totalmente sem moderação, e seu compromisso em continuar a permitir a circulação dos discursos mais violentos fez dele um espaço onde extremistas podem testar suas ideias, compartilhar textos agressuvis e aplaudir os perpetradores de chacinas.

Os usuários do 8chan frequentemente louvam os atiradores em massa usando gírias cômicas da internet, aludindo ao número de mortos que fazem como suas “pontuações altas” e criando memes para elogiar os matadores.

Brennan, que tem a doença osteogênese imperfeita e se locomove em cadeira de rodas, vem procurando distanciar-se do 8chan e seus donos atuais. Em entrevista ao Wall Street Journal em março, disse que lamenta seu papel na criação do site e avisou que a cultura violenta que deitou raízes nos murais de discussão do 8chan pode levar a mais massacres.

Depois do massacre em El Paso, Brennan pareceu resignado ao fato de que isso já acontecera.

“Mais uma chacina ligada ao 8chan?” ele escreveu no Twitter no sábado. “Será que algum dia vou poder seguir adiante com minha vida?”

Jim Watkins, que dirige o 8chan com seu filho Ronald, desafia as críticas e resiste aos chamados para moderar ou fechar o site. No domingo um banner no alto da homepage do 8chan dizia “bem-vindos ao 8chan, os confins mais tenebrosos da internet”.

“Já tentei tantas vezes entender por que ele mantém o site funcionando. Não entendo”, disse Brennan. “Depois de Christchurch, depois do massacre na sinagoga em Pittsburgh, e agora depois deste massacre, eles ainda acham tudo isso engraçadíssimo.”

​Watkins não respondeu a vários pedidos de declarações.

No fim de semana os críticos do 8chan tentaram outros métodos para fechar o site, pressionando seus provedores de internet, incluindo seu hospedeiro, a negar acesso a Watkins.

Um desses provedores, Cloudflare, produz softwares que protegem sites —incluindo o 8chan—  contra ciberataques. Em 2017 o Cloudflare cortou o acesso do site de ódio neonazista Daily Stormer após o comício nacionalista branco em Charlottesville, na Virginia. Após essa decisão, o executivo-chefe do Cloudflare, Matthew Prince, expressou reservas quanto a revogar as proteções do site, dizendo que isso criava um precedente perigoso.

Prince disse no domingo que passou horas desde a chacina em El Paso refletindo sobre o que fazer em relação ao 8chan. Disse que desabilitar as proteções dadas pelo Clouldflare ao site pode prejudicar as investigações policiais, ao tirar de seu alcance uma fonte de informações sobre transgressores.

“Se expulsássemos o 8chan de nossa rede, o público aplaudiria, e de repente nós não estaríamos mais envolvidos nesta tragédia horrível”, disse Prince. “Mas a polícia teria menos possibilidade de visualizar o que está acontecendo.”

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