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The Washington Post

Por que qualquer governo italiano colapsa?

Histórico mostra que premiê que suceder Giuseppe Conte também não deverá durar muito no cargo

Adam Taylor
The Washington Post

Nas três últimas décadas, o país teve 13 primeiros-ministros diferentes. Agora, com a renúncia do premiê Giuseppe Conte nesta terça-feira (20), depois de pouco mais de um ano no posto, a Itália acrescentou mais um nome a essa lista. 

Mas a próxima administração vai durar mais? Dado o histórico da Itália e a atual situação política, as probabilidades não parecem boas.

Mesmo os períodos de relativa estabilidade italiana foram complicados. O único primeiro-ministro a servir seu mandato integral de cinco anos de 1989 para cá foi Silvio Berlusconi, o bilionário falastrão cujo nome se tornou sinônimo de escândalo.

O nível de fricção na política italiana é incomum para uma economia avançada. Entre os vizinhos da Itália na Europa Ocidental, a Alemanha teve três chanceleres (equivalente ao cargo de primeiro-ministro), a França teve cinco presidentes e o Reino Unido teve sete primeiros-ministros, ao longo do tempo em que a Itália teve 13 chefes de governo.

Mesmo a Austrália, notória por sua dificuldade em manter um governo nos últimos anos, teve apenas nove primeiros-ministros de 1989 para cá.

O anúncio de Conte nesta semana é incomum, de algumas maneiras, mas típico, de outras.

No poder desde junho de 2018, o professor de direito era o líder independente do primeiro governo realmente populista da Europa Ocidental, liderando uma coalizão que incluía o Movimento 5 Estrelas, de oposição à elite política, e a Liga, de ultradireita.

A aliança logo se tornou conflituosa. Matteo Salvini, o vice primeiro-ministro e líder da Liga, retirou o apoio de seu partido ao governo neste mês e pressionou por eleições antecipadas, na esperança de aproveitar uma onda de apoio nas urnas.

O anúncio de Conte na terça-feira foi uma indicação de que ele provavelmente não conseguiria obter um voto de confiança do Legislativo.

O primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte após seu discurso no Parlamento no qual anunciou que iria renunciar ao cargo
O primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte após seu discurso no Parlamento no qual anunciou que iria renunciar ao cargo - Andreas Solaro/AFP

Mas agora parece que a aposta de Salvini tampouco dará resultado. Buscando evitar uma nova eleição, o Movimento 5 Estrelas pode unir forças ao Partido Democrático, de centro-esquerda, ou mesmo ao Força Itália, um partido decadente de centro-direita liderado por Berlusconi, 82, dizem analistas.

Essa aliança poderia reconduzir Conte ao posto de primeiro-ministro, mas na liderança de uma nova coalizão governamental. No sistema político relativamente complicado da Itália, essa espécie de aritmética legislativa é um problema persistente.

A Itália adotou um sistema eleitoral puramente proporcional —o que significava que os partidos recebiam assentos no Legislativo de acordo com a proporção dos votos que conquistavam— depois da Segunda Guerra Mundial. Isso resultou em grande número de pequenos partidos e em governos de coalizão frequentes, além de impasses políticos.

Em 1994, depois de um escândalo grave de corrupção, o sistema eleitoral foi reformado, e os poucos elementos de estabilidade política na Itália —em particular o persistentemente popular Partido Democrata Cristão— foram varridos do mapa. De lá para cá, houve diversas tentativas de reforma, com o objetivo de criar maior estabilidade política no país.

Um governo de centro-esquerda liderado por Matteo Renzi, do Partido Democrático, foi derrotado em um referendo que teria mudado a Constituição da Itália, em 2016, e dado mais poder ao primeiro-ministro.

Uma reforma separada criou um sistema de voto misto para o Legislativo, no ano seguinte; dois terços dos legisladores passaram a ser eleitos proporcionalmente e o terço restante por voto distrital direto.

Mas os resultados da eleição de março de 2018 indicaram que o novo sistema pouco havia feito para criar estabilidade.

Partidos antes nanicos como o 5 Estrelas e a Liga ganharam muito apoio, superando os partidos tradicionais. A fragmentação política vista em diversos países europeus nos últimos anos foi especialmente pronunciada no sistema italiano.

​Depois que os resultados foram anunciados, o jornal La Stampa publicou uma manchete sombria: "Itália ingovernável".

Conte, que não tinha experiência política, foi convidado a liderar um governo em junho, depois que ficou claro que a eleição não tinha resultado em um vencedor claro.

Mas com o avanço do apoio à Liga nas pesquisas eleitorais, neste ano, e o colapso do 5 Estrelas, Salvini decidiu que era hora de agir. Quando anunciou seu plano de renunciar na terça-feira, Conte retaliou.

O primeiro-ministro que está deixando o posto disse que as manobras de Salvini eram "uma séria irresponsabilidade institucional que acima de tudo mostra desrespeito ao Parlamento e pode conduzir o país a uma espiral de incerteza política e instabilidade financeira".

Dado o histórico da Itália, essa previsão parece uma aposta segura.

Tradução de Paulo Migliacci

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