Descrição de chapéu The New York Times

Quem é o 'Che Guevara' de 28 anos de Hong Kong?

Ativista detido ajudou a criar ideologia que norteia protestos na região chinesa

Hong Kong | The New York Times

Ele está encarcerado há mais de um ano numa cadeia isolada em uma ilha, mas o detento Edward Leung, 28, é o que mais aproxima os protestos tumultuados e sem líderes de Hong Kong de um guia.

Ele cunhou o slogan mais reiterado pelos manifestantes, aquele que a China vê como mais subversivo; ele lançou algumas das táticas agitadoras do movimento, e deu voz à política de identidade que está no coração da luta de Hong Kong, travada há dez semanas, para não se converter em apenas mais uma cidade chinesa comandada pelo Partido Comunista.

Edward Leung, em foto de 2016, antes de ser preso
Edward Leung, em foto de 2016, antes de ser preso - An Rong Xu/The New York Times

Os protestos foram desencadeados em junho pelo sentimento de revolta diante dos planos do governo de Hong Kong de permitir que honcongueses fossem extraditados da ex-colônia britânica para a China continental.

E ganharam força desde então com uma enxurrada de outras queixas em torno dos preços da moradia, eleições injustas e alegada brutalidade policial.

À raiz do movimento, porém, está uma mudança dramática na identidade de Hong Kong desde que o Reino Unido se retirou, em 1997, o que deixou a grande maioria da geração de Leung rejeitando os laços da cidade com a China continental e afirmando o que ela enxerga como sua identidade própria, distinta e separada.

“Sou honconguesa, não chinesa”, disse Kapo Chen, 20, estudante que participou dos protestos no aeroporto da cidade. “Meu sangue é chinês, é claro, mas isso é algo que está fora do meu controle.”

Um papel preso às suas costas com alfinete trazia a maior contribuição que Leung fez ao movimento de protesto: um slogan que está pichado em muros em toda a cidade, que foi gritado pelos manifestantes de preto que mergulharam o aeroporto no caos na terça-feira (15) e é repetido em manifestações mais ordeiras em toda a cidade.

Leung cunhou o slogan “retomar Hong Kong, a revolução do nosso tempo” em 2016, pouco antes de ser preso por sua participação numa briga de rua com policiais. Na época, ele era candidato a um cargo na legislatura de Hong Kong.

Mas as interpretações radicalmente distintas do significado de suas palavras –um chamado incendiário à fragmentação da China ou um simples apelo à defesa dos valores fundamentais de Hong Kong— iluminam um abismo que se abriu na antiga colônia britânica.

Apoiado por Pequim, o governo da cidade luta contra seus adversários não apenas pelo controle das ruas, mas para determinar o significado de Hong Kong como lugar, cultura e entidade política.

A executiva-chefe de Hong Kong, Carrie Lam, e autoridades de Pequim criticam o slogan de Leung, que qualificam como uma traição, um chamado para a cidade se separar da China e rejeitar a fórmula de “um país, dois sistemas” sob a qual Hong Kong foi devolvida ao controle chinês.

Mas os jovens manifestantes e aqueles que os apoiam destacam que a palavra que estão usando para dizer “retomar”, em chinês, significa literalmente “devolver à luz”.

Eles insistem que o slogan é um apelo para Hong Kong recuperar as liberdades e o sistema de justiça imparcial que estariam sendo perdidas.

​Chu Hoi-dick, membro eleito da assembleia legislativa da cidade e participante dos protestos, já visitou Leung na prisão várias vezes e disse que o ativista nunca foi um militante insensato, como é retratado pela máquina chinesa de propaganda política. Além disso, ele teria moderado algumas de suas posições mais radicais desde que foi encarcerado.

Mesmo assim, ele descreveu Leung como “o Che Guevara da revolução de Hong Kong”, acrescentando: “Ele tem uma certa aura, e os jovens o veem como ícone”.

Chu, também conhecido como Eddie Chu, tem 41 anos e foi um dos primeiros representantes do movimento dito “localista” de Hong Kong, voltado a preservar o senso de identidade própria da cidade.

Ele nunca concordou com as táticas propostas por Leung, que em alguns casos descambavam para a violência, mas compartilha a visão de que Hong Kong precisa conservar sua identidade diferenciada, baseada no Estado de direito, nas liberdades amplas e nas tradições locais.

A visão de que os moradores de Hong Kong não são chineses assusta não apenas o Partido Comunista, mas também alguns de seus críticos, que se reúnem anualmente em Hong Kong numa vigília à luz de velas para lembrar o massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim, em 1989.

Nos últimos anos, várias entidades estudantis votaram por manter distância da vigília, dizendo que “não querem ter absolutamente nada a ver com a China continental” e que elas “enfocam apenas sua própria política de identidade”, disse Bao Pu, editor honconguês que é filho de um funcionário sênior de Pequim, de mentalidade liberal, expurgado em 1989.

Após um aumento breve de sentimento patriótico durante os Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, o afeto e mesmo o interesse pela China continental diminuíram muito em Hong Kong, especialmente desde que Xi Jinping se tornou o líder máximo da China, em 2012.

A repressão brutal da China contra os uigures e outras minorias muçulmanas na região ocidental de Xinjiang, nominalmente autônoma, intensifica os presságios sombrios de muitos jovens de Hong Kong.

“Está claro que desde que Xi chegou ao poder a China vem se afastando mais e mais de qualquer ideia de democracia liberal”, disse o antropólogo Alan Tse, da Universidade Chinesa de Hong Kong e estudioso do movimento dito “localista”.

“Os honcongueses sabem disso. Sabem que é muito pouco provável que surja uma democracia genuína. Por isso mesmo, há um sentimento amplo de desesperança entre os jovens.”

Mas até Pequim adotar a posição firme de não fazer concessões aos manifestantes, o chamado de Leung pela “retomada de Hong Kong” era “o slogan de uma minoria irrelevante e infinitésima”, segundo Geremie Barmé, editor do periódico “China Heritage”, dedicado à cultura chinesa.

Segundo ele, “a intransigência da linha dura de Hong Kong e de Pequim o converteu na palavra de ordem de uma geração”.

Enquanto Pequim e seus aliados em Hong Kong reativaram um discurso intransigente usado pela última vez nos protestos da praça da Paz Celestial, em 1989, denunciando os manifestantes como “um punhado minúsculo de malfeitores” que precisam ser “barrados resolutamente”, os jovens ativistas vêm seguindo o conselho de Bruce Lee, o nome legendário das artes marciais de Hong Kong —“seja água, meu amigo”—, modificando suas táticas e mensagens constantemente.

Em consonância com chamados lançados desde 1997 para que os honcongueses aceitem seus novos governantes em Pequim, as autoridades de Hong Kong vincularam a cidade cada vez mais estreitamente à China, por meio de projetos infraestruturais.

Mas o fluxo aumentado de bens e pessoas que atravessam a fronteira apenas serviu para afastar os dois lados ainda mais.

Chu, o legislador e ativista “localista”, liderou uma série de campanhas fracassadas para barrar projetos que visavam aumentar a integração física de Hong Kong com a China, incluindo um trem-bala para a cidade chinesa de Guangzhou, inaugurado no ano passado.

As novas conexões de transportes trouxeram a Hong Kong grandes multidões de visitantes chineses –51 milhões no ano passado—, muitos dos quais falam mandarim e não cantonês, a língua principal de Hong Kong.

Eles irritaram muitos honcongueses ao comprar todos os estoques de fórmula para bebê e outros produtos, porque não confiam na qualidade das mercadorias vendidas na China continental.

Uma entidade chamada Hong Kong Indígena, da qual Leung era um dos principais ativistas, começou a assediar chineses que faziam compras em Hong Kong, em ações que batizou de “retomadas”.

A bandeira honconguesa da era colonial virou uma bandeira de resistência numa campanha às vezes xenofóbica contra os chineses continentais, que alguns honcongueses desumanizavam, chamando-os de “gafanhotos”.

Alguns ativistas pró-China responderam no mesmo tom –nesta semana, um grupo pulverizou repelente anti-insetos sobre panfletos de protesto perto do píer Star Ferry, em Hong Kong.

A proposta de declarar Hong Kong um país independente permanece como uma causa minúscula, marginal. Ela existe em grande medida apenas como elemento da propaganda comunista, que a utiliza para tachar manifestantes de traidores à pátria e limitar qualquer solidariedade que os chineses do continente possam sentir com os manifestantes.

Lembrando mais um contador jovem e sério que um revolucionário incendiário, Leung consolidou sua imagem de ícone dos jovens durante seu julgamento, no ano passado.

Ele ganhou o apoio de muitos quando o tribunal o condenou a seis anos de prisão, uma sentença vista por muitos como injustamente pesada, por sua participação naquela que ficou conhecida como a “revolução dos bolinhos de peixe”.

A revolta começou como um enfrentamento entre donos de barracas de comida e policiais que tentavam implementar uma política nova e intransigente de repressão a camelôs sem alvará e acabou ganhando força e virando um enfrentamento violento.

Manifestante segura foto do líder encarcerado Edward Leung - Tyrone Siu/Reuters

Em vez de negar qualquer envolvimento, Leung admitiu ter jogado objetos contra policiais e pediu desculpas, dizendo que só quis ajudar os camelôs, mas que não conseguiu controlar sua raiva. Muitos jovens viram essa admissão como uma atitude honesta e corajosa.

Sua organização, a Hong Kong Indigenous, nunca chegou a angariar muito apoio exceto em uma minoria de jovens radicais insatisfeitos.

Mas o aviso que ela lançou, de que Hong Kong estava perdendo sua identidade especial e precisava resistir contra isso, agora encontrou eco muito mais amplo, na medida em que a reação muitas vezes insensível das autoridades aos distúrbios vem inflamando o ânimo da população.

“Este movimento não busca a independência. Ele quer fazer Hong Kong voltar a ser um lugar livre”, disse Emma Chan, 20, manifestante que participou dos protestos no aeroporto.

Para ela, Leung “não é um herói, mas inspirou muitos de nós a nos interessarmos pela política”. “Muitos pensavam que política não tem importância”, disse. “Mas tem, sim.”

Tradução de Clara Allain

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