Bolsonaro critica Evo Morales e diz que maiores incêndios florestais ocorrem na Bolívia

Líderes latinos, exceto o brasileiro, se reuniram na Colômbia para discutir queimadas na Amazônia

Ricardo Della Coletta Gustavo Uribe
Brasília

Estremecendo uma relação marcada por elogios, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) criticou nesta sexta-feira (6) o presidente da Bolívia, Evo Morales, e disse que é no país vizinho onde estão ocorrendo os maiores incêndios florestais. 

“Agora há pouco, na conferência de Leticia [cidade na Colômbia onde ocorre uma cúpula sobre preservação na Amazônia], vi que tinha um ali [presidente] que não estava muito a favor das propostas dos demais. Parece que não estava integrado a nós”, disse Bolsonaro, referindo-se a Evo, sem citá-lo nominalmente. 

"Ele disse que o capitalismo está destruindo a Amazônia. Como se no país dele não tivesse ocorrido as maiores queimadas", complementou o presidente.

O presidente boliviano, Evo Morales, à dir., cumprimenta o líder do Peru, Martín Vizcarra, à esq., observado pelo chanceler do Brasil, Ernesto Araújo, durante encontro em Leticia
O presidente boliviano, Evo Morales, à dir., cumprimenta o líder do Peru, Martín Vizcarra, à esq., observados pelo chanceler do Brasil, Ernesto Araújo, durante encontro em Leticia - Luisa Gonzalez/Reuters

As declarações foram dadas durante evento no Palácio do Planalto. Minutos antes, Bolsonaro fez rápido pronunciamento por videoconferência na reunião em Leticia.

Ele não viajou à Colômbia por recomendações médicas, já que deve se submeter a uma nova cirurgia neste fim de semana

Além de Evo, participaram do encontro os presidentes de Colômbia (Iván Duque), Peru (Martín Vizcarra) e Equador (Lenín Moreno). Também estiveram presentes autoridades da Guiana e do Suriname.

A cúpula foi convocada por Duque e Vizcarra para coordenar uma resposta dos países que têm selva amazônica em seus territórios frente à onda de queimadas na região

Brasil e Bolívia são os mais afetados pelas chamas. 

Foram dois os pontos da intervenção de Evo na cúpula que irritaram Bolsonaro. 

O boliviano de fato disse que o capitalismo era responsável pela destruição do meio ambiente, num contexto de crítica ao consumismo. 

Em outro momento, Evo se queixou da ausência do ditador venezuelano Nicolás Maduro.

Embora a Venezuela seja membro da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, Maduro não foi convidado à cúpula por não ser reconhecido como presidente por quase todos os países presentes. 

Evo disse que questões ideológicas não deveriam interferir num esforço de cooperação para preservação ambiental, o que motivou novos ataques de Bolsonaro na cerimônia de lançamento da carteira de identidade estudantil.

"Esse presidente saudando o socialismo e dizendo que faltava um presidente ali [Maduro], que eu vetei. Um presidente que estava maduro demais, por isso que eu vetei", queixou-se Bolsonaro. 

A investida de Bolsonaro contra Evo destoa da história da relação entre os dois, que até então era marcada por afagos do brasileiro ao boliviano. 

Bolsonaro já elogiou Evo pela rápida devolução por parte das autoridades de La Paz do terrorista italiano Cesare Battisti.

Também saudou o fato de o presidente do país vizinho não ter participado de uma reunião do Foro de São Paulo, grupo que reúne os principais partidos de esquerda na América Latina.

Apesar das trocas de afagos, o presidente boliviano criticou recentemente, em entrevista à Folha, a política de armas do governo Bolsonaro e disse que jamais adotaria políticas semelhantes em seu país. 

A fala de Bolsonaro transmitida por videoconferência na cúpula de Leticia foi rápida e fugiu do tom comedido adotado pelos demais mandatários.

O presidente se queixou no vídeo do que chamou de “indústria de demarcação de terras indígenas” no Brasil. 

"No Brasil isso aconteceu há 30 anos, o que chamamos indústria de demarcações de terras indígenas, sobretudo na região amazônica. [Feita por] governos de esquerda no Brasil, socialistas, que não acreditavam no capitalismo na propriedade privada. Hoje temos sim a nossa região ameaçada”, declarou o presidente. 

Em sua fala, Bolsonaro disse que “ainda está em jogo” um plano para “tornar a Amazônia um patrimônio mundial”.

O brasileiro se referiu às declarações do presidente francês, Emmanuel Macron, que na cúpula do G7 defendeu que se discutisse um estatuto internacional para a floresta.

“A questão das queimadas é quase que uma cultura em muitas regiões do Brasil e também nos países de vocês”, disse o presidente brasileiro na transmissão.

“As queimadas estão abaixo da médias dos últimos anos. Logicamente devemos evitá-las, mas esse furor internacional nada mais serve a não ser para que Macron atacasse o Brasil e colocasse em risco a nossa soberania. Por mais uma vez ele disse que a soberania [da Amazônia] estava em aberta. Entendo que recado semelhante foi dado aos países de vocês”, acrescentou o mandatário.

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