Descrição de chapéu The New York Times

EUA debatem proibir vagões de metrô da China por medo de espionagem e sabotagem

Há temor de que os trens poderiam vir com sensores escondidos para captar dados dos passageiros

Ana Swanson
Chicago | The New York Times

A próxima disputa dos Estados Unidos com a China está se desenrolando numa fábrica nova em folha em Chicago que está vazia, exceto pelas estruturas externas de dois vagões de metrô e o espaço para operações futuras que dificilmente vão se concretizar.

Uma estatal chinesa chamada CRRC Corp., a maior fabricante mundial de trens, completou este ano a construção da fábrica, de US$ 100 milhões, na esperança de conseguir contratos para construir vagões de metrô e outros trens de passageiros para cidades americanas como Chicago e Washington.

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Vagão em fábrica da CRRC em Chicago - Alyssa Schukar/The New York Times

Mas os temores crescentes em torno das ambições econômicas da China e seu potencial de espionar americanos estão prestes a jogar esses planos por terra. A expectativa é que dentro em breve o Congresso aprove uma legislação que, na prática, impedirá a empresa de competir por novos contratos nos Estados Unidos, citando preocupações econômicas e de segurança nacional. A Casa Branca já manifestou seu apoio pelo esforço.

A tentativa de Washington de impedir uma empresa chinesa de vender vagões de trem na América representa a escalada mais recente de uma guerra comercial que vem crescendo rapidamente, passando de uma disputa sobre tarifas e propriedade intelectual para uma luta mais ampla em torno da segurança econômica e nacional.

O presidente Donald Trump e parlamentares de ambos os partidos estão cada vez mais ansiosos com as ambições econômicas e tecnológicas da China, que construiu indústrias globais de ponta, incluindo as que produzem tecnologia avançada de espionagem. Esses receios levaram Washington a adotar uma visão ampla dos riscos potenciais, não se limitando a apenas tentar restringir as importações da China.

Além de impor tarifas sobre produtos chineses no valor de US$ 360 bilhões, a administração proibiu companhias chinesas como a gigante das telecomunicações Huawei de adquirir tecnologia americana sensível. Ela está tomando medidas para limitar a capacidade de empresas exportarem dos EUA à China tecnologias como inteligência artificial e computação quântica. E o Congresso conferiu à administração amplos poderes para bloquear investimentos chineses por razões de segurança nacional.

Parlamentares acabam de acrescentar um dispositivo a uma lei de gastos militares que impediria o uso de subsídios federais para a aquisição de vagões de metrô produzidos por empresas estatais ou sob controle estatal. A medida bloquearia concretamente a atuação da CRRC.

A lei recebeu apoio de parlamentares tanto republicanos quanto democratas, para os quais empresas como a CRRC constituem uma ameaça aos EUA. A preocupação é em parte de natureza econômica: com dinheiro em caixa devido a seu crescimento acelerado, a China vem injetando recursos na construção de negócios globalmente competitivos, em muitos casos criando excesso de capacidade em mercados como o aço, painéis solares e trens.

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Interior da fábrica de trens da CRRC em Chicago - Alyssa Schukar/The New York Times

Isso reduziu os preços para os consumidores –incluindo os contribuintes americanos que pagam por vagões de metrô. Embora um vagão de metrô não tenha sido fabricado exclusivamente por uma empresa americana há décadas, os preços baixos cobrados pela CRRC geram preocupações entre empresas americanas de trens de carga. Elas temem que a CRRC possa invadir sua área de atuação e acabar demolindo seus negócios.

A CRRC vem constantemente cobrando menos que seus concorrentes, conquistando a adesão de agências de transportes urbanos que precisam lidar com infraestrutura envelhecida e orçamentos apertados. No caso do metrô de Chicago, a subsidiária da CRRC em Chicago ofereceu produzir cada vagão por US$ 1,55 milhão, contra US$ 1,82 milhão proposto pela canadense Bombardier. E a CRRC também se propôs a construir a fábrica em Chicago e criar 170 empregos.

Legisladores argumentam que as estatais chinesas não buscam lucro, mas visam promover os objetivos do governo chinês de dominar indústrias globais chaves como as dos carros elétricos, robótica e ferroviária.

“Quando você pode subsidiar, quando você pode ser proprietário único de uma empresa, como faz a China, consegue criar um campo de jogo totalmente desigual”, comentou a senadora democrata do Wisconsin Tammy Baldwin, corresponsável pela lei. “Estamos acostumados com a existência dessas condições desiguais entre os EUA e a China, mas agora elas estão surgindo em nosso próprio quintal.”

Há outra preocupação mais nefanda em questão também. Os parlamentares, assim como os concorrentes da CRRC, dizem estar preocupados com a possibilidade de que vagões de metrô fabricados pela empresa chinesa facilitassem a espionagem de americanos por Pequim e criassem um risco de sabotagem à infraestrutura americana, apesar de a CRRC dizer que entrega o controle de toda a tecnologia de seus vagões aos compradores.

Mesmo assim, críticos especulam que a empresa chinesa poderia incorporar tecnologia aos vagões que possibilitasse à CRRC –e ao governo chinês— monitorar os rostos, movimentos, conversas ou telefonemas dos passageiros através das câmeras ou do wifi dos trens.

Scott Paul, presidente da Aliança para a Manufatura Americana, que representa empresas manufatureiras e o sindicato de metalúrgicos United Steelworkers, disse que não se devem subestimar os riscos de se entregar a uma empresa chinesa a capacidade de monitorar ou controlar a infraestrutura dos EUA, em vista das leis recentes que obrigam empresas chinesas a entregar informações a Pequim quando isso é pedido.

“Acho que seria irresponsável supor que o governo chinês, ao qual esta firma terá que se reportar, seria um parceiro confiável em matéria de segurança, em vista de seu histórico de atuação fartamente documentado”, disse Paul.

Ainda não se sabe se esses receios são justificados. Proponentes da lei não deixaram claro de que modo vagões de metrô produzidos por uma empresa chinesa criariam um risco de espionagem maior do que todo o resto do que a China fabrica e vende nos Estados Unidos, incluindo laptops, telefones e eletrodomésticos.

Dave Smolensky, porta-voz da CRRC, disse que a empresa está sendo atacada injustamente por companhias que utilizam o argumento da segurança nacional para tentar eliminar um concorrente. Ele disse que a CRRC é vítima de “uma campanha agressiva e multimilionária de desinformação”, paga principalmente por empresas domésticas de trens de carga e que procura jogar com os receios populares provocados pela ascensão da China.

Funcionários da fábrica em Chicago também rejeitaram os receios, dizendo não terem visto nenhum indício de que estavam trabalhando para construir “trens espiões”.

“Ainda não vi nenhuma fiação secreta”, comentou Perry Nobles, eletricista da CRRC que estava colocando fiações nos trens. “Com o mundo cheio de celulares e computadores, acho que existem jeitos mais fáceis de obter informações.”

O medo crescente em Washington em relação às ambições da China leva as autoridades a adotar uma visão intransigente, com políticos e autoridades de segurança nacional avisando governos domésticos e estrangeiros e não confiar em equipamentos chineses.

As autoridades americanas estão travando uma ofensiva global contra a Huawei, dizendo a outros países que deixar uma companhia chinesa construir a próxima geração de redes sem fio do mundo seria comparável a entregar segredos nacionais de mão beijada a um agente estrangeiro.

Como ocorre com a CRRC, o medo que cerca a Huawei se baseia em grande medida na preocupação com a hegemonia tecnológica do governo autoritário chinês. Ninguém até agora revelou ter encontrado uma “porta dos fundos” nos produtos da Huawei que permitiria à empresa realizar espionagem. Mas autoridades dizem que, quando ela for descoberta, talvez já seja tarde demais.

“Os chineses querem inserir seus sistemas em redes de todo o mundo para que possam roubar suas informações e as minhas”, disse o secretário de Estado Mike Pompeo em entrevista em maio. “Esta administração está preparada para lutar contra isso.”

Quando o senador republicano John Cornyn, do Texas, apresentou a medida legal em março, ele disse: “A China representa um perigo inequívoco e atual à nossa segurança nacional e já infiltrou nossas redes de manufatura de trens e ônibus”.

O deputado republicano Kevin McCarthy, da Califórnia, cujo distrito abriga uma empresa chinesa fabricante de ônibus, a BYD, havia se oposto a uma versão da medida que se aplicaria a ônibus, além de trens. Os deputados abriram mão da parte relativa a ônibus, mas a lei discutida pelo Senado se aplicará a trens e também ônibus. O Congresso vai retomar a questão novamente nas próximas semanas, como parte da discussão de uma lei anual de defesa.

A legislação não afetará os milhares de vagões de metrô americanos que a CRRC ganhou licitações anteriores para construir, incluindo um pedido de 846 vagões para o metrô de Chicago. Mas impedirá a empresa de fechar contratos futuros, como os que estão sob consideração pelo Chicago Metra e o metrô de Washington.

A fábrica em Chicago é a segunda da CRRC nos Estados Unidos. Uma fábrica no Massachusetts que emprega mais de 150 pessoas já está construindo trens para Boston, Los Angeles e Filadélfia, levando ao receio de que a empresa pretende se expandir nos EUA tão rapidamente quanto já fez em outros mercados externos.

Como muitas estatais chinesas, a CRRC se guia pelo plano de Pequim Made in China 2025, que apresenta uma agenda para a dominação chinesa de indústrias chaves.

Em seu relatório anual de 2018, Liu Hualong, presidente da empresa e secretário do Partido Comunista, prometeu promover as metas duplas da “construção do partido e também de converter [a CRRC] em uma empresa líder mundial, dotada de competitividade global”.

“Seguimos conscienciosamente as importantes instruções do secretário-geral Xi Jinping”, dizia o relatório, aludindo ao presidente da China e líder do Partido Comunista.

A última firma americana a fabricar vagões ferroviários de passageiros, a Pullman Co., produziu seu último vagão em 1981. Desde então, as grandes cidades americanas compraram vagões de metrô da Bombardier e de empresas japonesas como Kawasaki, Hyundai e Hitachi.

Mas fabricantes americanas de vagões de trens de carga, incluindo a Greenbrier Cos. e a TrinityRail, dizem que a CRRC pode aproveitar a posição que tem nos EUA para roubar os negócios deles. Juntamente com sindicatos e outros, elas montaram uma campanha de lobby contra a CRRC sob a égide de um grupo mais amplo conhecido como Rail Security Alliance.

Esse grupo diz que os dólares dos contribuintes americanos não devem ser gastos na China, onde os vagões vazios são fabricados antes de ser transportados aos EUA para passarem por mais retoques nas instalações da empresa no Illinois ou no Massachusetts.

“Achamos que esses dólares deveriam permanecer aqui”, disse Erik Olson, vice-presidente da Rail Security Alliance.

De sua sede gigantesca em Qingdao, China, a CRRC envia especialistas para suas fábricas em outros países. Em Chicago, os funcionários americanos chamam esses cidadãos chineses de “shifu”, um termo cortês que significa “mestre” ou “professor” e é usado para aludir a um profissional especializado.

Num dia ensolarado de julho, a sala de recreio da empresa estava dividido entre shifus, usando macacões brancos e comendo pãezinhos recheados, e trabalhadores americanos, muitos dos quais haviam entrado para a empresa nos meses anteriores. O chão da fábrica, de concreto limpíssimo, estava quase vazio, exceto por algumas dezenas de pessoas que instalavam fiações, dutos de ar e outros componentes nas armações vazias de dois vagões de metrô.

“Estamos um pouco preocupados, porque esse é nosso meio de subsistência”, disse Nobles, contratado em março passado. Antes disso, ele trabalhava em outra fábrica produzindo chassis para o Ford Explorer.

Neste verão americano a CRRC substituiu a bandeira chinesa hasteada do lado de fora da fábrica por uma bandeira de Chicago. E a empresa contratou duas firmas de lobby em Washington, a Squire Patton Boggs e a Crossroads Strategies, para defender seus interesses junto ao Congresso.

É possível que já seja tarde demais. O senador democrata Sherrod Brown, do Ohio, disse que ajudou a promover a lei para impedir o sistema de transportes públicos americano de ser “controlado por um país estrangeiro que não é especialmente amigo nosso”.

“Eles explicam em preto e branco que vão usar o investimento estrangeiro como arma, e nós estamos tomando medidas para nos defender”, disse Brown.

Tradução de Clara Allain

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