Descrição de chapéu Governo Trump

Aliado de Trump afirma ter pressionado Ucrânia por 'ordem expressa' do presidente

Embaixador Sondland implicou alto escalão do governo em relações com Kiev

Washington | Reuters

Na audiência pública mais esperada do inquérito de impeachment de Donald Trump, o embaixador dos EUA para a União Europeia, Gordon Sondland, disse que trabalhou a partir de "ordens expressas" do presidente americano para que pressionasse o líder da Ucrânia a investigar um rival do republicano.

De acordo com o embaixador, os esforços, realizados em colaboração com Rudolph Giuliani, advogado pessoal de Trump, serviriam para forçar a abertura de uma apuração na Ucrânia contra o democrata Joe Biden, possível concorrente na disputa eleitoral de 2020. 

Em troca, Volodimir Zelenski, presidente do país do Leste Europeu, faria uma visita à Casa Branca, o que configuraria, segundo o próprio Sondland, uma troca de favores. 

“Eu sei que os membros desse comitê frequentemente formulam essas questões complicadas na forma de uma pergunta simples: houve toma lá dá cá?”, disse Sondland. “Em relação aos pedidos de telefonema [ao governo] e reunião na Casa Branca, a resposta é sim.”

Um dos principais doadores para a cerimônia de posse do republicano, o embaixador testemunhou nesta quarta-feira (20) no Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados, em Washington, no quarto dia de audiências públicas do processo —anteriormente, os depoimentos eram colhidos a portas fechadas.

Gordon Sondland, embaixador dos EUA para a União Europeia, momentos antes de testemunhar no Congresso, em Washington
Gordon Sondland, embaixador dos EUA para a União Europeia, momentos antes de testemunhar no Congresso, em Washington - Drew Angerer/Getty Images/AFP

Além dele, ainda foram ouvidos Laura Cooper, vice-secretária assistente de Defesa, e David Hale, sub-secretário de Estado para assuntos políticos. 

O inquérito de impeachment, capitaneado pelos democratas, é baseado em um telefonema de 25 de julho no qual Trump pede ajuda a seu par ucraniano para que investigasse o rival democrata.

Ex-vice presidente durante a gestão de Barack Obama, Biden teria agido para demitir um contestado procurador-geral da Ucrânia que investigou a empresa de gás na qual Hunter Biden, filho do democrata, atuou como membro do conselho de administração.

Hunter, porém, nunca foi alvo do inquérito, e as apurações se concentravam no período anterior à sua chegada à companhia. 

A abertura de uma investigação contra os Bidens poderia beneficiar o presidente americano politicamente e também era, soube-se posteriormente, uma condição para que os Estados Unidos liberassem uma verba de quase US$ 400 milhões em ajuda militar para a Ucrânia.

Ainda que tenha negado uma orientação explícita de Trump para condicionar a liberação da verba à abertura das investigações contra Biden, Sondland afirma ter dito ao vice-presidente dos EUA, Mike Pence, no final de agosto, que temia a associação das duas situações. 

"Todos estavam a par. Não era um segredo. Não lembro de ter me deparado com qualquer objeção", afirmou.

Da mesma forma, disse ter informado o secretário de Estado, Mike Pompeo, sobre sua atuação para pressionar a Ucrânia. Pompeo, por sua vez, de acordo com o depoimento, estava ciente e "apoiava totalmente" as ações.

O depoimento lança mais luz sobre o papel do secretário de Estado, que se recusou a defender testemunhas de sua pasta que foram atacadas por Trump por cooperarem com o inquérito de impeachment.

As revelações sugerem que o embaixador decidiu implicar publicamente o alto escalão do governo no caso, incluindo Mick Mulvaney, chefe interino de gabinete da Casa Branca.

De acordo com o relato, eles teriam seguido ordens do presidente. Para isso, forneceu uma série de mensagens de texto e emails para corroborar sua narrativa.

Sondland enfatizou que ele, o secretário de Energia Rick Perry e Kurt Volker, enviado especial para a Ucrânia, relutaram em trabalhar com Giuliani, advogado pessoal de Trump, e só aceitaram após insistência do presidente americano.

“Não queríamos trabalhar com o sr. Giuliani. [Mas] todos entendemos que, se nos recusássemos a trabalhar com ele, perderíamos uma importante oportunidade de consolidar as relações entre os EUA e a Ucrânia. Então, seguimos as ordens do presidente”, disse.

Sondland, que fez fortuna no setor de hotelaria do Oregon, doou US$ 1 milhão para a posse de Trump em janeiro de 2016. Ele não era um diplomata de carreira e ganhou o cargo de embaixador na União Europeia como forma de recompensa pelas suas colaborações.

Assim, tornou-se um dos três aliados de Trump que tomaram a dianteira das relações entre EUA e Ucrânia em maio. Giuliani também desempenhou um papel fundamental, apesar de não ter uma posição oficial no governo. 

Era ele quem, segundo o embaixador, reforçava a importância de que a abertura das investigações contra Biden fosse anunciada publicamente, mesmo que elas não fossem levadas a cabo.

Outra testemunha ouvida na quarta, a vice-secretária assistente de Defesa, Laura Cooper, disse que a Ucrânia sabia do congelamento da ajuda americana no dia do famoso telefonema entre os dois presidentes —e, portanto, muito antes do que se acreditava. 

A questão temporal é crucial porque os republicanos insistem que os ucranianos não sabiam do congelamento até ele vir à tona, em agosto.

Trump sempre defendeu que não fez nada de errado e que não houve troca de favores com a Ucrânia.

Ele acusa os democratas de atacá-lo injustamente, e o inquérito de impeachment, classificado pelo presidente de “caça às bruxas” diversas vezes, seria uma tentativa de reverter o resultado das eleições de 2016. 

A investigação pode levar a Câmara a aprovar acusações formais contra Trump —chamadas de artigos de impeachment.

Estas seriam então enviadas ao Senado, controlado pelos republicanos, para um julgamento sobre a destituição do presidente. Poucos senadores republicanos parecem dispostos a romper com Trump.

Segundo pesquisas da agência de notícias Reuters com o instituto Ipsos, 46% dos americanos apoiam o impeachment, enquanto 41% se opõem.

Durante pausa no depoimento, o democrata Adam Schiff, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, disse que o relato de Sondland “vai direto ao coração da questão de suborno, bem como outros possíveis crimes ou contravenções”.

“Acho um momento muito importante na história dessa investigação”, acrescentou.

Durante o depoimento, Trump se esforçou para se distanciar de Sondland. "Não o conheço muito bem. Não conversei muito com ele", disse a repórteres na Casa Branca antes de ler algumas anotações que carregava, nas quais, segundo ele, ficou claro que ele nunca pediu a seu colega ucraniano para investigar um rival político.

No bloco de papel, em letras garrafais, anotou as frases “eu não quero nada”, “não quero toma lá dá cá”, “diga a Zelenski para fazer a coisa certa” e “esta é a palavra final do presidente dos Estados Unidos”.

Ainda que tenha tentado pintar uma relação fria com o embaixador, pouco mais de um mês atrás o presidente se mostrava menos distante de Sondland, a quem definiu como “um homem bom e um grande americano”.


O caminho do impeachment

25.jul
Telefonema de Trump para o presidente ucraniano

24.set
A democrata e líder da Câmara Nancy Pelosi anuncia a abertura do processo de impeachment

11.out a 2.nov
Testemunhas depõem a portas fechadas

31.out
Democratas votam pela realização de audiências públicas

13 a 28.nov
Audiências públicas de testemunhas que já falaram privadamente —esta é a fase atual

Até o Natal
Comitês redigem e debatem artigos de impeachment para possível votação na Câmara


O que disseram  as testemunhas

13.nov

William Taylor
Embaixador dos EUA na Ucrânia
Afirmou que Trump condicionava ajuda militar à Ucrânia a apurações contra Joe Biden

George Kent
Oficial do Departamento de Estado
Segundo ele, Trump queria que o presidente ucraniano anunciasse publicamente a investigação contra os Biden

15.nov

Marie Yovanovitch
Ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia
Detalhou como Trump e seu advogado pessoal a afastaram de seu cargo no início deste ano

19.nov

Kurt Volker
Ex-enviado especial dos Estados Unidos à Ucrânia
Disse não saber que o pedido de Trump à Ucrânia visava atingir Biden

Tim Morrison
Ex-funcionário do Conselho de Segurança Nacional
Informou que Trump pressionou para a Ucrânia anunciar publicamente as investigações contra Biden

Alexander Vindman
Principal especialista em Ucrânia do Conselho de Segurança Nacional
Ouviu o telefonema de Trump e Zelenski e disse que a ligação era inapropriada

Jennifer Williams
Assessora do vice-presidente Mike Pence para assuntos relacionados à Rússia
Também ouviu a ligação e afirmou que a conversa era inusual

20.nov

Gordon Sondland
Embaixador dos EUA para a UE
Afirmou que trabalhou com Giuliani a partir de ordens expressas de Trump para que ambos pressionassem a Ucrânia a investigar Biden

Próximos depoimentos

21.nov

Fiona Hill
Ex-principal assessora do Conselho de Segurança Nacional para questões russas

David Holmes
Diplomata na embaixada dos EUA na Ucrânia

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