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Governo Trump

Impeachment de Trump pode seguir script de Clinton e se voltar contra democratas

Esperança da oposição era que a ação desgastasse o presidente, mas até agora isso não ocorreu

São Paulo

Os democratas iniciaram o processo de impeachment do presidente republicano Donald Trump na esperança de que chegariam a um desfecho semelhante ao do pedido de afastamento do ex-presidente republicano Richard Nixon, em 1974.

Pressionado por revelações devastadoras do famoso caso Watergate, sobre uma operação de espionagem contra os democratas, Nixon acabou renunciando antes mesmo de as acusações de obstrução de Justiça e abuso de poder serem julgadas. 

O presidente Donald Trump participa de comício em Michigan durante a votação do impeachment na Câmara
O presidente Donald Trump participa de comício em Michigan durante a votação do impeachment na Câmara - Leah Millis - 18.dez.19/Reuters

No entanto, existe o risco de os democratas acabarem com um resultado bem mais parecido com o do processo de impeachment do ex-presidente democrata Bill Clinton, em 1998.

 

Na época, a Câmara liderada pelos republicanos aprovou o impeachment de Clinton, acusado de perjúrio e obstrução de Justiça ao mentir sobre seu caso com a estagiária Monica Lewinsky.

No entanto, na guerra da opinião pública, Clinton conseguiu convencer os eleitores de que era alvo de uma perseguição injusta. O Senado votou contra o afastamento, e o impeachment acabou saindo pela culatra, com republicanos punidos nas urnas nas eleições legislativas e o líder republicano na Câmara, Newt Gingrich, renunciando.

Clinton terminou o mandato com aprovação de 70% do eleitorado.

Para grande parte dos observadores, há uma enorme chance de prevalecer a narrativa de Donald Trump —de que o impeachment é um golpe de Estado contra ele e que os democratas passam seus dias tentando arrumar alguma coisa que anule o resultado da eleição de 2016 .

Se a história colar, o risco é que parcela do eleitorado se irrite e acabe não votando em candidatos democratas (ou não saindo de casa para votar) no ano que vem, na eleição presidencial.

Justamente por isso, a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi resistiu tanto a iniciar um processo de impeachment.

Desde que Trump assumiu, em 2017, integrantes das alas mais à esquerda do partido pediam que fosse iniciado um processo, seja pela interferência da Rússia na eleição e suposta conivência da campanha de Trump, seja por obstrução do Congresso nas investigações do caso, seja pelo uso do cargo para obter benefícios pessoais e receber presentes, que seriam configurados no uso dos hotéis Trump por governos estrangeiros.

Pelosi só iniciou o processo quando chegou à conclusão de que era inevitável, que a tentativa de pressionar o governo ucraniano a investigar o democrata Joe Biden era absolutamente inadmissível e clara o suficiente para que o público americano entendesse.

A esperança dos democratas era que as audiências na Câmara seguissem o script do impeachment de Nixon. Em 1974, ele foi ficando tão desgastado com as revelações sobre os grampos, que perdeu apoio até dos republicanos e resolveu renunciar antes que fosse afastado do cargo.

No caso de Trump, os democratas sabiam que não conseguiriam nunca os votos necessários no Senado para aprovar o afastamento, mesmo que o impeachment fosse aprovado na Câmara. Seriam necessários 67 votos, sendo que os republicanos detêm 53 das 100 cadeiras.

Mas apostavam que haveria revelações tão revoltantes durante as audiências que Trump perderia um número considerável de votos na eleição de 2020. Esse resultado ainda está em aberto.

É fato que os testemunhos corroboram a queixa inicial do denunciante anônimo e a possível obstrução do Congresso. Mas em um impeachment, fatos contam muito menos do que o contexto político.

Não basta provar que se trata de um crime passível de impeachment. É preciso ser um crime horrível o suficiente para fazer seus apoiadores mudarem de lado. E, por enquanto, não houve revelação bombástica a ponto de fazer deputados republicanos mudarem de voto, que dizer de senadores ou eleitores republicanos.

Após algumas semanas de processo na Câmara, ninguém parece ter mudado de posição, mostra pesquisa do jornal Washington Post de 15 de dezembro –85% dos democratas apoiam o impeachment e 86% dos republicanos são contra. 

Os independentes, supostamente persuasíveis, estão completamente divididos – 47% querem impeachment e afastamento, 46% são contra.   

Com o país mais polarizado do que nunca, é baixa a chance de as pessoas mudarem de ideia.

Portanto, caso a economia continue saudável e com pleno emprego, Trump entra com vantagem para a corrida eleitoral de 2020. Historicamente, os ocupantes do cargo são favoritos: dos 45 presidentes que já governaram os EUA, apenas 11 não conseguiram se reeleger, ou seja, 24,5%.


Contagem dos votos

Eram necessários 216 votos contra Trump em qualquer um dos artigos para aprovar o impeachment

Artigo 1: abuso de poder
O presidente é acusado de abusar de seu poder ao pressionar a Ucrânia a investigar Joe Biden, seu principal adversário na eleição de 2020

230
deputados votaram a favor

197
deputados votaram contra, incluindo dois democratas

Artigo 2: obstrução do Congresso
O presidente é acusado de interferir nos poderes de investigação do Congresso enquanto este conduzia o inquérito sobre a denúncia de abuso de poder

229
deputados votaram a favor

198
deputados votaram contra, incluindo três democratas

Três deputados não votaram. 
A pré-candidata democrata Tulsi Gabbard votou ‘presente’ —nem a favor, nem contra

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