Diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

'Protestos demandam que dinheiro da corrupção real espanhola seja doado à saúde pública'

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #5 - Quarta-feira, 18 de março. Cena: finalmente sai o Sol

Ah, as delícias de viver em um país com mil régias novelas, como só uma monarquia parlamentarista pode nos proporcionar.

A realeza espanhola e suas polêmicas, um pouco ofuscadas nestes últimos tempos por conta do pandemônio viral, foram a estrela desta quarta-feira, motivando as duas "caceroladas" (panelaços) populares convocadas para o dia.

Sincronizada por mensagens virais de WhatsApp, a nação saiu às janelas às 12h e às 21h, hora em que estava programado um discurso do rei Felipe 6º em cadeia nacional.

Espanhóis batem panelas na varanda em protesto contra a monarquia
Espanhóis batem panelas na varanda em protesto contra a monarquia - Pau Barrena/AFP

O motivo: demandar que os US$ 100 milhões (R$ 510 milhões) supostamente recebidos por Juan Carlos 1º (pai do monarca) como um "presente" do rei saudita por seu apoio à construção de uma linha de trem de alta velocidade na Arábia Saudita sejam doados para causas sanitárias.

Um consórcio de 12 companhias espanholas é responsável pela linha Meca-Medina, que foi inaugurada no final de 2018 e conecta os quase 500 desérticos quilômetros entre as cidades, centros de peregrinação muçulmana. Don Juan Carlos teria recebido o dinheiro entre 2007 e 2008, quando ainda era o rei em exercício, por uma conta suíça conectada a uma fundação panamenha.

Somando-se a isso, na semana passada vieram a público documentos sobre outra conta suíça de uma fundação em Lichtenstein da qual o patriarca e seu filho figuram como beneficiários. Administrada por Álvaro de Orleans, primo distante de Juan Carlos 1º, a fundação Zagatka teria pago voos privados para este por 11 anos, com finalidades singelas que incluíam encontros secretos entre o então rei e sua então amante, a alemã Corinna Larsen.

O acúmulo de escândalos motivou a divulgação emergencial de um extenso comunicado do rei Felipe 6º no último domingo, em plena instauração do estado de alarme em toda a Espanha, negando qualquer envolvimento com a questão, abrindo mão de sua herança real e cortando o benefício anual do pai de 200 mil euros (R$ 1,1 milhão).

Já são 774 pacientes hospitalizados por coronavírus em todo o país, um aumento de 37,4% em 24 horas, e um total de quase 14 mil casos oficiais. “Todos devemos contribuir a esse esforço coletivo [de contenção do vírus] com nossas atitudes e ações, por pequenas que sejam”, disse o rei, enquanto lá fora soavam as panelas. “Espanha recuperará seu pulso, sua vitalidade, sua força.”

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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