Diário de confinamento em Barcelona: 'A vida vista de cima'

'A sacada é o novo espaço de confraternização do confinado'

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #4 - Terça, 17 de março. Cena: um mar de prédios. Silêncio

Sacada de casa, 10 horas da manhã. Fecho os olhos para minha meditação diária (meditar, agora mesmo, é um santo remédio contra a ansiedade da clausura) quando algo na sinfonia urbana de ruídos me chama a atenção. O que é? Escuto. Um caminhão aqui, uma voz do outro lado da avenida, um carrinho de compras sendo arrastado no asfalto. E passarinhos —pela primeira vez, ouço em toda sua glória a fauna da árvore em frente ao meu prédio.

Algo parece essencialmente diferente.

E eu percebo que é a continuidade dos sons da cidade.

Agora são discerníveis, individualizáveis. A cidade confinada deixou um pouco de lado o caos, deixou de ser ruído branco.

Monumento na Praça Catalunha durante estado de emergência em Barcelona
Monumento na Praça Catalunha durante estado de emergência em Barcelona - Nacho Doce/Reuters

Aqui de cima, vejo principalmente idosos na rua indo presumivelmente às compras. Uma pessoa com patinete elétrica passa pela ciclovia (o serviço público de bicicletas foi suspenso na segunda-feira). Um ônibus totalmente vazio, uns poucos carros, uma serra elétrica ao longe. Parada, Barcelona não está.

Já os eventos sociais foram transferidos para as redes —e para as sacadas dos apartamentos. A sacada é o novo espaço de confraternização do confinado. De repente, pululam por toda parte vídeos e lives estrelando ciudadanos em sacadas oferecendo a seu público (literalmente) cativo árias de ópera, espetáculos teatrais infantis, concertos improvisados.

Um dos mais populares mostra um dueto improvisado entre um tecladista e um saxofonista vizinhos tocando Titanic e outros temas lacrimosos, para alegria dos que saíram à janela no bairro de Sagrada Família, com o famoso cartão-postal de Gaudí de fundo. Em dois dias, foi compartilhado quase 400 mil vezes no Facebook. Noutro vídeo, vizinhos aparecem jogando bingo à distância, gritando números na escuridão da noite. Viva a inventividade do confinado.

Amenidades à parte, vocês não têm ideia de como está a situação aqui –é o que venho repetindo a todos os meus amigos do Brasil, onde o status da coisa é um pouco, mas muito pouco, anterior ao nosso.

Há apenas uma semana, eu me encontrava em uma bela "masía" (restaurante rural) celebrando a temporada de "calçots" (uma espécie de cebola típica daqui, servida com salsa romesco e um "porrón" de bom vinho, e que recomendo profusamente) com a família do meu namorado. Entre nós, as preocupações eram reais, mas, como direi?, não prementes. O decreto do estado de alarme, no último sábado, veio como um tsunami.

O confinamento está só começando, e a previsão é de que se estenda por semanas ainda indefinidas. Os números oficiais de contágio saltaram para mais de 11 mil, quase 2.000 a mais que o dia anterior, com 500 mortos (e esse número, no momento em que você estiver lendo, já será muito maior).

A mídia local discute aspectos do infradiagnóstico, e chega-se a especular que o total real de infectados pode chegar a 25 mil. Estima-se que a estabilização dos contágios pode começar dentro de 3 a 10 dias. Enquanto isso, que cantemos e meditemos –profundamente– em nossas sacadas.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


Leia a parte 1 do diário de confinamento em Barcelona: 'Não estamos de férias, mas em estado de alarme'

Leia a parte 2 do diário de confinamento em Barcelona: 'Teste, só para pacientes internados'

​Leia a parte 4 do diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

​Leia a parte 5 do diário de confinamento em Barcelona: 'O perigo mora em casa'

Leia a parte 6 do diário de confinamento em Barcelona: 'Solidariedade em tempos de vírus'

Leia a parte 7 do diário de confinamento em Barcelona: 'O lado utópico da crise'

Leia a parte 8 do diário de confinamento em Barcelona: 'O canto dos pássaros urbanos'

Leia a parte 9 do diário de confinamento em Barcelona: 'Os de baixo ficam sem banquete'

Leia a parte 10 do diário de confinamento em Barcelona: 'Essa desproteção vai cobrar fatura'

Leia a parte 11 do diário de confinamento em Barcelona: 'Se não estamos no pico, estamos muito próximos'​​

Leia a parte 12 do diário de confinamento em Barcelona: 'Tensão cresce em diferentes setores'

Leia a parte 13 do diário de confinamento em Barcelona: 'Único tratamento agora é a disciplina'

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.