Como o coronavírus levou uma médica autoconfiante ao suicídio nos EUA

Lorna Breen era chefe do departamento de emergências em um hospital de Nova York

Nova York | The New York Times

Numa tarde no início de abril, enquanto Nova York ainda estava mergulhada nos piores dias da pandemia de coronavírus, a médica Lorna Breen se viu sozinha no silêncio de seu apartamento em Manhattan.

Ela pegou o telefone e ligou para sua irmã mais nova, Jennifer Feist.

Com apenas 22 meses de diferença de idade entre elas, as duas desfrutavam o tipo de proximidade garantida por terem dividido um quarto quando crianças e usado roupas que combinavam.

Advogada em Charlottesville, no estado da Virgínia, Feist, 47, estava acostumada a falar com sua irmã quase todos os dias. Nos últimos tempos as conversas delas eram sombrias.

Funcionárias de centro médico no Brooklyn, em Nova York, conversam durante intervalo no expediente - Johannes Eisele - 14.mai.20/ AFP

Breen trabalhava no hospital NewYork-Presbyterian Allen, em Manhattan, onde administrava o departamento de emergências.

A unidade havia se tornado um campo de batalha brutal, com os estoques de materiais e equipamentos se esgotando com rapidez preocupante, enquanto médicos e enfermeiros adoeciam.

Quando Breen ligou para Feist, sua voz estava estranha. Ela parecia distante, como se estivesse em choque. “Não sei o que fazer”, disse ela à irmã. “Não consigo me levantar da cadeira.”

Lorna era o tipo de pessoa que superava as expectativas constantemente, alguém que comandava sua própria vida com autoconfiança enorme.

Depois de se diplomar em medicina, ela insistiu em estudar medicina emergencial e também medicina interna, apesar de isso exigir uma residência médica mais longa.

Adulta, começou a praticar snowboard, tocar violoncelo e dançar salsa.

Uma vez, depois de sentir dificuldade respiratória no início de uma meia-maratona, ela terminou a prova e só então foi ao hospital, onde ela mesma diagnosticou o que sentia: estava com embolia pulmonar. Em outras palavras, coágulos sanguíneos nos pulmões, algo que pode ser fatal.

Além de administrar um setor de emergência hospitalar muito movimentado, Breen estava fazendo dois mestrados na Universidade Cornell.

Ela era talentosa, autoconfiante, inteligente. Calma, imperturbável. Mas a mulher que conversou com Feist naquela tarde estava confusa e hesitante.

Feist rapidamente ligou para duas amigas buscarem sua irmã. As amigas a levaram a Baltimore, onde ela as encontraria para levar Breen à sua família, na Virgínia.

Quando Breen finalmente embarcou no carro de Feist naquela noite, estava quase catatônica, incapaz de responder perguntas simples. Seu cérebro parecia alquebrado, disse sua irmã.

Elas viajaram de carro por algumas horas, indo para o Centro Médico da Universidade da Virgínia. Quando chegaram, Breen foi internada na enfermaria psiquiátrica.

Num momento em que a cidade precisava desesperadamente de heróis, a médica de 49 anos sofrera um colapso nervoso. E achava que sua carreira não sobreviveria a isso.

Seus familiares tentaram convencê-la de que isso não era verdade. Afinal, ela não tinha nenhum histórico aparente de problemas de saúde mental, e o mês anterior havia sido um período de extremos para todos.

Breen estava com dúvidas. Dentro da comunidade médica, há um estigma insidioso em torno de problemas de saúde mental.

“Lorna não parava de dizer ‘acho que todo o mundo sabe que estou tendo dificuldades’”, comentou Feist. “Estava morrendo de vergonha.”

Uma vocação

Estudante motivada e atlética, Lorna Breen estudou microbiologia na Universidade Cornell antes de fazer mestrado em anatomia.

Depois de cursar medicina na Virgínia, decidiu fazer duas especializações em sua residência, porque sabia que os médicos de emergências sofrem alto grau de estresse.

Breen queria ter a medicina interna como opção possível para o futuro.

Em 2004 ela foi trabalhar no grande complexo do NewYork-Presbyterian, primeiro no centro médico da Universidade Columbia e depois no hospital menor, conhecido simplesmente como “the Allen”.

Para desestressar e se afastar de seu trabalho intenso, ela planejava viagens emocionantes. Entrou para um clube de esqui, tocava violoncelo numa orquestra, fazia aulas de salsa e frequentava a igreja Redeemer Presbyterian, que atraía profissionais de alto gabarito.

Em 2011, Breen foi promovida para a chefia do departamento de emergências, no qual, segundo colegas, ela tendia a resolver problemas com precisão sistemática e dava preferência a soluções concretas.

“Ela gostava de estrutura”, contou seu então chefe, o médico James Giglio. “Gostava de trabalhar em um mundo organizado.”

Esse mundo acabaria se distorcendo e desmoronando, mais tarde. No início deste ano o coronavírus estava se esgueirando para dentro de Nova York, indetectado e subestimado.

No final de fevereiro, enquanto políticos eleitos ainda estavam dizendo ao público que o vírus não representava uma ameaça grave, Breen sentou-se ao computador e atualizou um plano de contingência endereçado à sua família.

Ela criara o plano após os ataques terroristas do 11 de setembro e o revira quando o furacão Sandy atingiu o país, em 2012. O plano era sua reação metódica a calamidades. Breen estava convencida de que os hospitais seriam pegos desprevenidos pelo coronavírus.

Uma semana mais tarde ela saiu de férias previamente planejadas com Feist, sua irmã, em Big Sky, Montana. Quando voltou da viagem, um estado de emergência havia sido declarado em Nova York.

Hospital sobrecarregado

Breen se apresentou de volta ao trabalho em 14 de março. Quando chegou, deparou-se com colegas perguntando sobre o estoque de equipamentos de proteção individual do departamento e sobre a distribuição de macacões protetores a funcionários.

Quatro dias mais tarde, Breen manifestou sintomas de Covid-19. Febril e exausta, fez quarentena em casa para se recuperar. Ela dormia 14 horas seguidas, ficava exaurida com tarefas pequenas e perdeu 2,5 quilos. Mas ainda tentava resolver problemas do trabalho, como a escassez de tanques de oxigênio.

No último fim de semana de março, ela saiu para andar na rua e se sentiu acabada. Mas avisou em seu trabalho que voltaria logo. Sabia que o hospital precisava de mais profissionais.

Quando voltou ao trabalho, no dia 1º de abril, Nova York estava prestes a alcançar um marco tenebroso: em pouco tempo as mortes chegariam ao pico, com mais de 800 por dia.

A cena que Breen encontrou no Allen a fez entender algo perturbador: ela e seu departamento de emergências estavam sobrecarregados. Breen telefonou a Feist, sua irmã, aflita com o caos.

Seus colegas de trabalho notaram que ela parecia cansada e que não manifestava a autoconfiança habitual.

Mesmo assim, naquela semana ela conseguiu participar de uma videoconferência com seu grupo de estudos da Bíblia. Breen também telefonou a colegas de seu programa de pós-graduação, preocupada com um trabalho do grupo. Ela estava ansiosa, sentindo que não estava fazendo sua parte.

Ela começou a trabalhar tantas horas que um dia mal havia acabado quando outro já engatava. Em 4 de abril, segundo um colega, Breen passou cerca de 15 horas no trabalho.

No dia seguinte ela parecia estar confusa, comentou o colega, que nunca havia visto Breen nesse estado. Breen escreveu uma mensagem a seu grupo de estudos da Bíblia.

“Neste momento estou me afogando”, digitou. “Acho que vou me afastar por algum tempo.”

Em pouco tempo ela parou completamente de responder as mensagens de seus amigos.

Um grito de socorro

Apesar de frequentemente serem vistos como heróis, os profissionais de medicina sofrem pressões que podem ser paralisantes.

Médicos do setor de emergências são especialmente vulneráveis a estresse pós-traumático –e, ao mesmo tempo, trabalham em uma profissão que os incentiva a agir como se fossem indiferentes às tensões.

A pandemia intensificou tanto a carga de trabalho dos médicos quanto a pressão de suportar essa carga.

Em 9 de abril, quando Breen finalmente telefonou a sua irmã para pedir ajuda, ela soava tão diferente do normal que Feist chegou a especular se o vírus teria de alguma maneira alterado o cérebro de sua irmã.

Embora as pesquisas sobre os efeitos da Covid-19 sobre o cérebro ainda sejam preliminares, há evidências crescentes de que a doença, ou o modo como o corpo reage a ela, pode provocar uma gama de problemas neurológicos.

Feist telefonou à médica Angela Mills, que, como chefe de medicina de emergência do hospital, era a supervisora de Breen.

Quando Mills chegou ao apartamento de Breen, esta tinha a aparência estranha. Estava silenciosa, falando apenas quando alguém lhe fazia uma pergunta. Mesmo então, só dava respostas de uma ou duas palavras. Mills lhe perguntou se ela estava com vontade de se machucar. Breen indicou que sim.

Uma amiga psiquiatra de Breen chegou para buscá-la. Depois de passar algum tempo no carro com Breen, a amiga telefonou a Feist e disse que Breen precisava ir ao hospital.

Breen passou cerca de 11 dias internada na enfermaria psiquiátrica. Enquanto estava internada, bateu papo ao telefone com sua amiga Anna Ochoa. Depois de desligar, Ochoa ficou mais tranquila. Sua amiga lhe pareceu estar bem.

Breen recebeu alta pouco depois e foi passar algum tempo com sua mãe em Charlottesville, onde se mostrou mais próxima do normal, chegando a contar piadas.

Mencionou a ideia de voltar a seus estudos de mestrado. Começou a sair para fazer longas corridas. Seus familiares conversaram sobre a possibilidade de ela voltar a Nova York.

Mas, no dia 26 de abril, Breen se matou.

É impossível saber ao certo por que uma pessoa põe fim à própria vida. E Breen não deixou uma carta para explicar a razão.

Mesmo assim, quando as baixas do coronavírus forem contabilizadas, a família de Breen acha que a médica deve ser incluída na contagem.

Dizem que ela foi destruída pelo número enorme de pessoas que não conseguiu salvar, que ficou devastada pela ideia de que seu histórico profissional teria ficado manchado permanentemente e que se sentia humilhada por ter pedido ajuda em primeiro lugar.

Em comunicado, o hospital NewYork-Presbyterian disse que “a dra. Breen foi uma líder clínica heroica, excepcionalmente hábil, compassiva e dedicada, alguém que se preocupava profundamente com seus pacientes e colegas de trabalho”.

Breen é idolatrada, ao lado de multidões de outros profissionais de saúde que deram tanto de si –talvez até demais.

Mas sua família, arrasada, quer que ela seja saudada também por ter exposto algo que é muito mais difícil reconhecer: a cultura existente dentro da comunidade médica que leva as pessoas a ocultar ou passar por cima do sofrimento, o trauma que médicos não hesitam em diagnosticar mas relutam em revelar quando os atinge pessoalmente.

“Se essa cultura fosse diferente, essa ideia nunca teria passado pela cabeça dela. É por isso que essa cultura precisa mudar”, comentou Feist.

Para Anna Ochoa, a amiga de Lorna Breen, a última conversa que elas tiveram foi especialmente angustiante. Ochoa não consegue parar de ouvir Breen repetir: “Não pude ajudar ninguém. Não consegui fazer nada. Eu só queria ajudar as pessoas, mas não consegui fazer nada”.

Tradução de Clara Allain  

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