Equipe de Trump empurra relações EUA-China para ponto sem volta

Estado de concorrência ampla e intensa é objetivo final dos assessores linha-dura do presidente

Edward Wong Steven Lee Myers
Washington | The New York Times

Estados Unidos e China estão desmontando passo a passo décadas de engajamento político, econômico e social, preparando o cenário para uma nova era de confronto moldada pelas posições das vozes mais intransigentes de ambos os lados.

Com o presidente Donald Trump perdendo pontos nas sondagens enquanto a eleição presidencial se aproxima, seus representantes de segurança nacional vêm intensificando ataques à China nas últimas semanas, tendo como alvos diplomatas, funcionários e executivos chineses.

A estratégia enfatiza uma mensagem chave da campanha de Trump, mas alguns funcionários americanos, com receio de que Trump possa perder a eleição, também estão tentando arquitetar mudanças que serão irreversíveis, segundo pessoas que estão a par do pensamento da administração.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante encontro com Xi Jinping, dirigente chinês, em reunião do G20 em Osaka, no Japão - Kevin Lamarque - 29.jun.19/Reuters

O líder chinês, Xi Jinping, vem inflamando o enfrentamento, ignorando preocupações internacionais com o autoritarismo crescente de seu país para consolidar seu poder político próprio e reprimir liberdades fundamentais, de Xinjiang a Hong Kong.

Assim, ele vem endurecendo as atitudes em Washington, alimentando um choque que pelo menos alguns setores na China creem que possa ser perigoso para os interesses do país.

O efeito conjunto pode acabar sendo o legado mais importante de Trump em matéria de política externa, embora não seja um pelo qual ele tenha trabalhado consistentemente: o endurecimento de um confronto estratégico e ideológico fundamental entre as duas maiores economias do mundo.

Um estado de concorrência ampla e intensa é o objetivo final dos assessores linha-dura do presidente.

Na visão deles, confronto e coerção, agressão e antagonismo devem ser o status quo entre os EUA e o Partido Comunista chinês, independentemente de quem venha a liderar os EUA em 2021. É o que eles chamam de “reciprocidade”.

Discursando na quinta-feira (23), o secretário de Estado, Mike Pompeo, declarou que o relacionamento EUA-China deve ser baseado no princípio de “desconfiar e verificar”, dizendo que a abertura diplomática orquestrada pelo presidente Richard Nixon quase meio século atrás acabou por prejudicar os interesses americanos.

“Precisamos admitir uma verdade dura que deve nos guiar nos anos e décadas vindouros: que, se quisermos um século 21 de liberdade, e não o século chinês com o qual sonha Xi Jinping, o velho paradigma de engajamento cego com a China simplesmente não fará isso acontecer”, disse Pompeo.

“Não devemos continuá-lo e não devemos retornar a ele.”

Os acontecimentos da semana passada puxaram as relações entre os dois países para um novo ponto baixo, acelerando a espiral descendente.

Na terça-feira (21), o Departamento de Estado ordenou à China que fechasse seu consulado em Houston, levando diplomatas do consulado a queimar documentos em um pátio.

Na sexta-feira (24), a China, em retaliação, mandou os EUA fecharem seu consulado em Chengdu, no sudoeste do país. No dia seguinte, o Ministério do Exterior chinês denunciou o que descreveu como a “entrada à força” de agentes policiais americanos no consulado em Houston na tarde da sexta-feira.

No ínterim entre os dois fatos, o Departamento de Estado acusou criminalmente quatro membros do Exército de Libertação Popular de mentir em relação a seu status para poderem operar como agentes de inteligência ocultos nos Estados Unidos. Os quatro foram detidos.

Uma dos quatro, Tang Juan, que estava estudando na Universidade da Califórnia em Davis, desencadeou um impasse diplomático quando tentou refugiar-se no consulado da China em San Francisco, mas acabou sendo detida na noite de quinta-feira.

Tudo isso ocorre depois de um mês no qual a administração Trump anunciou sanções contra altos funcionários chineses, incluindo um membro do Politburo (comitê executivo do Partido Comunista), devido à detenção em massa de muçulmanos, revogou o status especial de Hong Kong em relações diplomáticas e comerciais e declarou ilegais as reivindicações de soberania chinesa sobre grandes extensões do mar do Sul da China.

A administração também proibiu a entrada no país de estudantes chineses a partir do nível de pós-graduação que tenham vínculos com instituições militares na China.

As autoridades discutem a possibilidade de fazer o mesmo com membros do Partido Comunista chinês e seus familiares. Seria uma iniciativa de grande abrangência, que poderia colocar 270 milhões de pessoas em uma lista negra.

“Abaixo do presidente, o secretário de Estado Mike Pompeo e outros membros da administração parecem ter metas mais amplas”, comentou Ryan Hass, diretor para a China do Conselho de Segurança Nacional na administração de Barack Obama e hoje membro do Brookings Institution.

“Eles querem redirecionar o relacionamento EUA-China para uma rivalidade sistêmica abrangente que não possa ser revertida pelo resultado da eleição americana próxima”, disse ele.

“Acreditam que esse redirecionamento é necessário para colocar os Estados Unidos em posição competitiva contra seu rival geoestratégico no século 21.”

Trump prometeu desde o início transformar a relação dos EUA com a China, mas principalmente no que diz respeito ao comércio.

No início deste ano, a trégua negociada na guerra comercial entre os dois países foi saudada por alguns de seus assessores como uma conquista importante de sua administração.

O acordo ainda está em vigor, mas está pendurado por um fio, ofuscado pelo clima mais amplo de hostilidade.

Tirando a China, poucas das metas de política externa da administração foram alcançadas plenamente. A diplomacia pessoal empreendida por Trump com o líder norte-coreano Kim Jong-un não realizou nada em termos de acabar com o programa norte-coreano de armas nucleares.

Sua retirada do acordo nuclear com o Irã distanciou ainda mais os aliados dos EUA e intensificou a beligerância dos líderes iranianos. Seu esforço para mudar o governo da Venezuela não deu em nada. Sua retirada prometida de todas as tropas americanas do Afeganistão ainda não se concretizou.

Alguns funcionários e analistas em Pequim descartam publicamente muitas das iniciativas da administração Trump, qualificando-as como manobras de campanha, acusando Pompeo e outros de promover uma mentalidade de Guerra Fria para marcar pontos na disputa árdua pela reeleição do presidente. Mas há um reconhecimento crescente de que as raízes do conflito são mais profundas que isso.

A amplitude da campanha da administração americana confirmou as suspeitas daqueles na China, possivelmente do próprio Xi Jinping, que há muito tempo pensam que os Estados Unidos jamais vão aceitar o poderio econômico e militar crescente da China nem seu sistema político autoritário.

“Não são apenas considerações eleitorais”, opinou Cheng Xiaohe, professor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Renmin, em Pequim. “É também uma escalada natural e um resultado das contradições inerentes entre a China e os Estados Unidos.”

Já sobrecarregadas pela pandemia do coronavírus, algumas autoridades chinesas vêm tentando evitar entrar em conflito aberto com os Estados Unidos.

Elas têm exortado a administração Trump a reconsiderar cada uma de suas ações e pedido cooperação, não confronto, se bem que não tenham oferecido concessões significativas próprias.

“Com o sentimento antiChina global no nível mais alto em décadas, as autoridades chinesas indicaram um interesse em explorar possíveis saídas da atual espiral de morte nas relações EUA-China”, disse Jessica Chen Weiss, cientista política na Universidade Cornell e estudiosa da política externa e opinião pública chinesa.

“Pequim não deseja um confronto direto com os Estados Unidos, mas o governo chinês vai no mínimo retaliar para mostrar ao mundo —e a uma possível administração Biden— que a China não se deixará intimidar ou pressionar.”

Trump muda sua linguagem em relação a China totalmente de um momento para outro. Ele já descreveu Xi como “um muito bom amigo” e, segundo livro lançado recentemente pelo ex-assessor de segurança nacional John Bolton, chegou a encorajá-lo, falando reservadamente, a continuar a construir grandes campos de detenção de muçulmanos e a lidar à sua maneira com os manifestantes pró-democracia em Hong Kong.

Na última vez em que falou com Xi, expressou “muito respeito” no Twitter.

Com a eleição cada vez mais próxima, o tom de Trump mudou. Ele voltou a atacar a China, como fez em 2016, culpando Pequim pela pandemia e chegando a se referir ao coronavírus com o epíteto racista de “kung flu”.

Seus assessores de campanha têm feito da retórica agressiva sobre a China uma das bases de sua estratégia, acreditando que ela possa energizar os eleitores.

A linguagem acalorada, somada às ações políticas da administração, podem, na realidade, estar tendo um efeito dinamizador sobre cidadãos chineses, dizem alguns analistas e figuras políticas em Pequim.

“Exorto o povo americano a reeleger Trump, porque a equipe dele possui muitos membros ensandecidos como Pompeo”, escreveu no Twitter, na sexta-feira (24), o editor do jornal nacionalista Global Times, Hu Xijin.

“Eles ajudam a China a fortalecer a solidariedade e coesão de uma maneira especial.”

Tradução de Clara Allain

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