Países precisam escolher entre tirania e liberdade, dizem EUA sobre a China

Secretário Pompeo diz que abertura a Pequim criou 'Frankenstein', em duro discurso contra chineses

São Paulo

Em mais um degrau na confrontação entre Estados Unidos e China, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse nesta quinta (23) esperar que seus aliados escolham "entre a tirania e a liberdade".

Pompeo fez um agressivo discurso contra o que chamou de busca chinesa pela hegemonia mundial, um evidente exagero dadas as evidências empíricas disponíveis, mas que traduz o espírito da chamada Guerra Fria 2.0 em curso.

Se antes havia o Império do Mal, como a União Soviética era definida pelo presidente Ronald Reagan (1980-89), agora há a "opressão e o desejo de hegemonia do Partido Comunista Chinês", nas palavras de Pompeo, que se apresentou como defensor do "mundo livre", como líderes americanos do passado anticomunista.

Pompeo discursa sobre China na biblioteca presidencial Richard Nixon, na Califórnia
Pompeo discursa sobre China na biblioteca presidencial Richard Nixon, na Califórnia - Ashley Landis/Pool via Reuters

Pompeo escolheu a biblioteca presidencial Richard Nixon, em Yorba Linda (Califórnia), para divulgar online seu pronunciamento. Simbolismo puro: Nixon foi o presidente que, com uma histórica visita a Pequim em 1972, iniciou a aproximação entre os EUA e a China.

O contexto soa farsesco pelos participantes, mas o embate é real. Donald Trump iniciou sua versão 2.0 da Guerra Fria, desta vez não contra soviéticos, mas com os últimos comunistas com peso no bloco, os chineses.

O conflito vai da guerra tarifária à soberania sobre o mar do Sul da China, passando pela questão da autonomia presumida de Hong Kong, a adoção do 5G e o manejo da pandemia da Covid-19.

Na terça (21), os EUA determinaram o fechamento do primeiro consulado chinês em seu território, em Houston (Texas), acusando a representação de centralizar espionagem sobre tratamentos para a pandemia. A China rejeitou a acusação como absurda.

O secretário lembrou de George Marshall, um antecessor seu no começo da Guerra Fria, que em 1947 disse que os países do mundo precisavam "escolher seu lado".

"Xi [Jinping, o líder chinês] é um verdadeiro devoto do marxismo-leninismo, de um totalitarismo falido", afirmou Pompeo, ecoando Reagan e presidentes americanos da Guerra Fria.

O fato de que Pequim expande braços econômicos, mas até aqui só usa sua ideologia estatal dentro de suas fronteiras, ao contrário do antigo Kremlin, ficou de lado.

Numa fala recheada de citações a Nixon, ele lembrou que o presidente morto em 1994 havia dito que os EUA haviam criado "um Frankenstein" (a tradicional confusão entre monstro e criador) ao se aproximar e apoiar o avanço econômico chinês.

"A verdade é que nossas políticas, e aquelas de outras nações livres, fizeram ressurgir a economia falimentar da China, só para ver Pequim morder a mão internacional que a estava alimentando", afirmou.

As vantagens auferidas pelos EUA, com a mão de obra barata chinesa, ficaram de fora, naturalmente.

Os chineses, disse, "vêm roubar nossa propriedade intelectual e sugar nossas cadeias de suprimento com trabalho escravo". Ele ainda adicionou o tema da Covid-19, em que os EUA estão fracassando fragorosamente no combate à disseminação do vírus, ecoando as críticas de seu chefe Trump.

"Se estamos usando máscaras, é pelo fracasso do Partido Comunista Chinês", afirmou, sem máscara. A frase remete à acusação americana de que Pequim tentou acobertar a gravidade da então epidemia surgida em Wuhan, algo descartado pelo regime chinês como propaganda preconceituosa.

O Departamento de Estado tratou de dar às palavras a ideia de um divisor de águas.

Não é bem o caso, já que discursos cada vez mais duros são especialidade da adminstração Trump recentemente. A proximidade da eleição presidencial, com o incumbente em baixa nas pesquisas, é fator central para o bater de tambores diplomáticos e bélicos.

Mas ações concretas, como um incremento na atividade americana no mar do Sul da China, considerado quintal por Pequim, e mesmo o fechamento do consulado chinês em Houston, tendem a trazer o conflito para um terreno desconhecido e propenso a erros mútuos.

Respondendo a perguntas após a fala, Pompeo foi claro sobre isso. "O verdadeiro perigo está na má comunicação", disse, ecoando temores de um confronto acidental nas disputadas regiões do mar do Sul da China ou do estreito de Taiwan.

Em relação à China, disse, os EUA precisam "desconfiar e verificar" todo compromisso assumido por Pequim. Na plateia, estavam dissidentes chineses.

A agressividade de Pompeo não é novidade. Na terça, o secretário Mark Esper (Defesa) havia delineado a questão militar claramente, dizendo que no futuro os EUA poderão ter de enfrentar forças chinesas.

Na fala do secretário de Estado, sobrou para o público interno. Segundo ele, Hollywood exerce "autocensura sobre a China", por temer perder mercado para seus filmes. "Deve ser difícil dormir aceitando limites impostos pelo Partido Comunista Chinês", afirmou.

A pressão sobre países amigos não é recente. Aliados antes céticos em relação aos EUA e à política de pouco engajamento de Trump têm dado sinais de apoio a uma coalizão anti-Pequim.

A repressão do Partido Comunista Chinês a Hong Kong foi um dos fatores importantes para que Londres vetasse a participação da gigante chinesa Huawei nas redes de 5G britânicas —assim como, por outro lado, o fato de os EUA terem limitado o fornecimento de chips para a empresa rival do Ocidente.

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