Descrição de chapéu RFI Venezuela

Grupo de 31 países, incluindo Brasil e EUA, pede eleições livres na Venezuela

Chanceler venezuelano diz que declaração é absurda e chama signatários de 'satélite' dos EUA

Washington | RFI

Um grupo de 31 países, incluindo Brasil e Estados Unidos, membros do Grupo de Lima e da União Europeia, além de outros como Israel e Coreia do Sul, divulgou uma declaração conjunta nesta sexta-feira (14) pedindo eleições livres na Venezuela.

O documento conclama "todos os venezuelanos, de todas as tendências ideológicas, civis ou militares", a se comprometerem "com urgência" no apoio a um processo de estabelecimento de um governo de transição inclusivo "que leve o país a eleições presidenciais livres e justas no curto prazo".

"A atual pandemia e o sobrecarregado sistema de saúde pública da Venezuela tornaram ainda mais urgente a necessidade de dar fim ao status quo", diz o documento.

O ditador venezuelano Nicolás Maduro mostra seu voto durante as eleições municipais de 2017 - Presidência da Venezuela - 10.dez.2017/Xinhua

A declaração afirma que este processo deverá permitir à Assembleia Nacional cumprir plenamente as suas funções, assim como restaurar a independência do Tribunal Supremo de Justiça e do Conselho Nacional Eleitoral do país.

Ao mesmo tempo, exige "o fim de todas as perseguições políticas e atos de repressão" contra defensores dos direitos humanos, trabalhadores da saúde, jornalistas, membros de comunidades indígenas e membros da Assembleia Nacional sob a liderança de Juan Guaidó.

Também reitera a "disposição de todos os países que mantêm sanções econômicas de discutir o abrandamento destas no contexto de progressos na área política".

"Uma transição rápida e pacífica para a democracia é o caminho mais eficaz e viável para a estabilidade, recuperação e prosperidade da Venezuela. Continuamos comprometidos em ajudar o povo venezuelano a alcançar um futuro pacífico, próspero e democrático", conclui a nota.

Caracas é alvo de uma série de medidas punitivas de Washington, que considera o governo de Nicolás Maduro ilegítimo.

Numa rara decisão contra um líder de Estado, os EUA anunciaram neste ano uma recompensa por informações sobre o próprio Maduro —o valor pode chegar a US$ 15 milhões (R$ 77 milhões).

Washington ofereceu ainda US$ 10 milhões (R$ 52 milhões) por informações sobre o número dois do regime, Diosdado Cabello, e sobre Tareck El Aissami, ministro do Petróleo.

Os parlamentares chavistas Luís Parra, Jose Noriega, Franklyn Duarte, José Brito, Conrado Perez, Adolfo Superlano e Negal Morales também se tornaram alvos de sanções americanas.

Mais de 50 países, incluindo Brasil e EUA, consideram Guaidó o líder legítimo da Venezuela desde janeiro de 2019, quando ele se proclamou presidente acusando Maduro de ter fraudado as eleições de 2018.

Na ocasião, a oposição argumentou que o ditador e o restante da cúpula do Executivo não tinham legitimidade para comandar o país por causa das fraudes no pleito.

Assim, pela linha sucessória, Guaidó, até então presidente da Assembleia Nacional, deveria assumir a cadeira de presidente da Venezuela de maneira interina, até que novas eleições livres fossem realizadas.

Mesmo com a pressão internacional, o ditador venezuelano permanece no poder, apoiado pelas Forças Armadas e por Rússia, China, Cuba e Irã.

De Caracas, o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, considerou o comunicado "extravagante", "absurdo", "ingerencista" e acusou o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, de ordenar "um grupo de governos satélites" a assiná-lo.

"Eles não acreditam em democracia. Farsantes!", tuitou Arreaza ao rejeitar o documento, que, segundo o chanceler venezuelano, tem a "intenção de sabotar as eleições parlamentares na Venezuela" no "desespero eleitoral" de Pompeo diante dos comícios de novembro em que Trump buscará a reeleição.

Os países signatários do texto são Albânia, Austrália, Bahamas, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Costa Rica, Equador, El Salvador, Estados Unidos, Estônia, Geórgia, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Hungria, Israel, Kosovo, Letônia, Lituânia, Panamá, Paraguai, Peru, Reino Unido, República Dominicana, Santa Lúcia e Ucrânia.

A Argentina se dissociou expressamente da iniciativa e questionou os opositores venezuelanos que convocaram a abstenção nas eleições parlamentares marcadas para dezembro.

O presidente Alberto Fernández também criticou o bloqueio econômico imposto à Venezuela, classificando-o como uma punição à população e disse que ninguém deve dizer aos venezuelanos o que devem fazer, senão eles mesmos.

"A Argentina ratificou sua decisão de preservar os direitos humanos em qualquer esfera e governo e expressou preocupação com o bloqueio, porque é uma punição que o povo venezuelano não merece", disse Fernández à Rádio AM 750.

O presidente argentino lembrou também que, embora veja "com preocupação coisas que acontecem não apenas na Venezuela, mas também no Equador e na Bolívia, isso não significa que apoiamos a ideia de que se deve intervir na Venezuela para fazer uma democracia na medida de outros".

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