Descrição de chapéu The New York Times machismo

A força de 22 anos por trás do crescente movimento Me Too no Egito

Estudante de filosofia Nadeen Ashraf criou página que denuncia crimes contra mulheres

The New York Times

Nadeen Ashraf tinha um segredo ardente. No início deste verão, uma página anônima no Instagram que denunciava e envergonhava um homem, acusando-o de ser um notório assediador sexual na universidade mais prestigiosa do Egito, causava sensação entre suas amigas.

Sem que elas soubessem, era Ashraf quem a publicava.

O experimento começou, em um lampejo de fúria, na calada da noite. Em 1º de julho, Ashraf, uma estudante de filosofia de 22 anos, ficou acordada até tarde estudando para uma prova na manhã seguinte, quando ficou preocupada com o destino de uma postagem no Facebook que tinha desaparecido misteriosamente.

Nadeen Ashraf, em sua casa, no Cairo
Nadeen Ashraf, em sua casa, no Cairo - Sima Diab - 14.set.20/The New York Times

Dias antes, uma colega estudante na Universidade Americana do Cairo tinha postado um alerta no Facebook sobre um homem que ela dizia ser um predador sexual —um rapaz de família rica, impetuoso e manipulador, que estaria perseguindo e chantageando mulheres no campus. Agora, Ashraf percebeu enquanto olhava para o laptop, a postagem tinha sido excluída sem explicação.

Furiosa, ela deixou de lado seus livros e criou uma página no Instagram sob um pseudônimo —@assaultpolice— que identificava o homem, Ahmed Bassam Zaki, ao lado de sua foto e uma lista de acusações de crimes contra mulheres.

"Esse cara vinha se safando desde o 10º ano", disse ela. "Cada vez que uma mulher abria a boca, alguém a fechava com fita adesiva. Eu queria parar com isso."

Depois de criar a página, Ashraf se jogou na cama às 6h e dormiu na hora do exame. Quando acordou, encontrou centenas de notificações de pessoas que aplaudiram sua postagem e cerca de 30 mensagens de mulheres confidenciando que também tinham sido atacadas por Zaki.

Algumas disseram que foram estupradas. Nascia um movimento #MeToo egípcio.

Em uma semana, Zaki foi preso, a conta da @assaultpolice acumulava 70 mil seguidores e a página provocou uma enxurrada de depoimentos de outras mulheres egípcias, fartas de serem humilhadas e violadas.

A agressão sexual é endêmica no Egito —um estudo das Nações Unidas em 2013 descobriu que 99% das mulheres sofreram assédio ou violência—, mas denunciá-la é notoriamente difícil.

Os policiais relutam em registrar casos de agressão. Instituições poderosas preferem varrer as acusações para baixo do tapete. Mesmo as famílias das vítimas, preocupadas com o escândalo ou com um sentimento inadequado de vergonha, tendem a abafá-las.

A página audaciosa de Ashraf ofereceu uma nova maneira.

"Foi tão maravilhoso", lembra ela, sentada na casa de sua família. "Muitas das meninas que entraram em contato disseram: 'Não acredito que finalmente estou sendo ouvida'. Mesmo que fosse um tempo sombrio, ali elas estavam falando abertamente. Houve uma sensação de fortalecimento, de alívio."

Em 1º de setembro, as autoridades acusaram Zaki, 21, em três casos de agressão sexual contra mulheres menores de idade, além de várias acusações de chantagem e assédio. Ele permanece detido, aguardando julgamento.

Mas então um segundo caso de destaque veio à tona, também por meio da página de Ashraf no Instagram, que complicou as coisas. Prometia ser ainda mais sensacional —um relato de estupro coletivo por cinco jovens em um hotel cinco estrelas com vista para o Nilo.

Nas últimas semanas, no entanto, o caso foi nublado por uma nuvem de contra-acusações e imagens que vazaram, ameaçando ofuscar o progresso feito por Ashraf— e possivelmente até mesmo revertê-lo.

"É muito preocupante", disse ela.

Ashraf não é uma rebelde egípcia típica. Ela vem de uma família apolítica que vive em um condomínio fechado no leste do Cairo —um lugar com gramados bem cuidados e ruas silenciosas repletas de veículos de luxo, onde o apoio ao líder autoritário do Egito, o presidente Abdel-Fattah el-Sissi, é relativamente alto.

Seu pai é dono de uma empresa de software, sua mãe é nutricionista e sua família ficou nos subúrbios durante a revolta de 2011 que derrubou o antigo governante do Egito, Hosni Mubarak, e os protestos de 2013 que deram início à tomada militar e ao governo de el-Sissi.

Ashraf inicialmente escondeu seu ativismo dos pais, que pensaram que ela se trancasse no quarto para estudar. Quando ela finalmente confessou a seu pai, semanas depois, ele ficou alarmado.

"Ele ficou em silêncio por três minutos", lembrou ela. "Então disse: 'Você não pode contar para ninguém.'"
Ashraf disse que era um pouco tarde para isso.

No final de julho, ela postou no Instagram cerca de cinco homens na casa dos 20 anos, de famílias ricas, que teriam estuprado uma adolescente em uma suíte no hotel Fairmont Nile City após uma festa em 2014. Um vídeo do ataque, feito por um sexto homem, tinha sido distribuído a seus amigos.

A acusação causou sensação. Embora Ashraf não tenha identificado os homens acusados, surgiram no Instagram contas semelhantes que o fizeram. Um é filho de um proeminente magnata do aço; outro é filho de um conhecido treinador de futebol.

Em uma semana, a vítima, que disse que sua bebida tinha sido alterada pelos agressores, procurou a polícia e apresentou queixa. No final de agosto, o procurador-geral do Egito anunciou cinco detenções —dois homens no Egito e três no Líbano, que já foram extraditados para o Egito.

Pelo menos três outros estão sendo procurados.

Mas a investigação ficou turva depois que os investigadores agiram contra várias pessoas que se apresentaram em conexão com o caso. Dois homens foram acusados de "devassidão" —código para homossexualidade—, com base em fotos encontradas em seus telefones que posteriormente vazaram para a mídia.

Eles foram detidos, assim como uma mulher —ex-companheira de um dos acusados de estupro— cujas fotos íntimas vazaram na internet.

Não se sabe exatamente quem vazou essas fotos, e espera-se que os casos cheguem aos tribunais nas próximas semanas. Mas eles já causaram arrepios nas fileiras das mulheres egípcias que esperavam que fosse mais seguro denunciar a violência sexual.

"Fairmont se tornou nosso caso do século", disse Ashraf. "Mas não deve ser um precedente para casos de agressão. Há tantas outras coisas surgindo que provam que estamos do lado das meninas."

Após ameaças à sua segurança, Ashraf suspendeu sua página do Instagram durante dez dias em agosto. Agora está funcionando novamente, mas com foco na educação das mulheres sobre seus direitos.

"Você usa a palavra 'consentimento' o tempo todo em inglês", disse ela. "Mas nunca ouvi seu equivalente em árabe: 'taraadi'. Então, tentamos traduzir esses conceitos, analisar, explicar."

O único nome que ela divulgou ultimamente é o seu próprio. Percebendo que sua identidade estava vazando e temendo retaliação dos homens que foram ameaçados pela página, Ashraf decidiu que era mais seguro acabar com seu anonimato.

"Achei que, se os bandidos sabiam quem eu era, as pessoas boas também deveriam saber", afirmou. "Isso dá proteção."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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