Coronavírus de Trump contamina debate entre candidatos a vice

Mike Pence e Kamala Harris serão separados por barreira de acrílico a pedido de campanha democrata

São Paulo

De um lado, o atual vice-presidente dos EUA, o republicano Mike Pence. Do outro, a senadora Kamala Harris, candidata a vice na chapa do democrata Joe Biden. Entre eles, uma barreira de acrílico.

O intruso no palco do debate entre os concorrentes a vice, nesta quarta-feira (7), lembra qual será o principal assunto do evento: o infectado Donald Trump, que levou para dentro da Casa Branca o vírus que minimiza há meses, como se a Covid-19 não tivesse matado mais de 210 mil pessoas no país.

Ainda que os exames de coronavírus de Kamala e de Pence tenham dado resultados negativos, a democrata exigiu que uma proteção fosse instalada entre eles, já que, além de Trump, ao menos outras 11 pessoas da cúpula da Casa Branca e da campanha republicana foram contaminadas pela Covid-19.

Palco onde será realizado o debate entre Mike Pence e Kamala Harris na Universidade de Utah, em South Lake City
Palco onde será realizado o debate entre Mike Pence e Kamala Harris na Universidade de Utah, em South Lake City - Jim Bourg/Reuters

Segundo a CNN, Pence não será obrigado a usar o acrílico ao redor de si —mas Kamala e o moderador poderão erguer barreiras para separá-los do vice-presidente.

Pence e Kamala ficarão posicionados a quase 4 metros de distância, e todos os participantes do debate, incluindo jornalistas, deverão fazer o teste de detecção do coronavírus. A comissão que organiza o evento afirmou ainda que o uso de máscaras será obrigatório, regra que também foi imposta para o encontro entre Trump e Biden em Cleveland, mas que familiares do republicano não respeitaram.

Em geral, debates entre concorrentes a vice são um evento secundário, visto por poucos espectadores e quase irrelevante para mexer com os eleitores. O encontro na Universidade de Utah, em Salt Lake City, porém, oferecerá um embate entre o vice de um presidente cuja situação de saúde não é completamente conhecida e a companheira de chapa de um candidato que terá 78 anos num eventual início de governo.

Assim, em vez de visões da economia americana ou posições sobre atos antirracismo, a discussão deve gravitar majoritariamente em torno da pandemia de coronavírus, da gestão do líder americano contra a Covid-19 e da ironia de Trump ter sido infectado por um patógeno que tanto desprezou.

Pence, alçado a um período de protagonismo na campanha republicana após a internação e o isolamento de Trump na Casa Branca, terá de defender as políticas do chefe frente à crise sanitária num momento de dificuldade. Segundo o FiveThirtyEight, site que calcula a média das principais pesquisas nacionais de intenção de voto nos EUA, Biden está 8,7 pontos percentuais à frente de Trump.

Outros levantamentos mostram diferença ainda maior: pesquisa da agência de notícias Reuters com o instituto Ipsos aponta liderança de 10 pontos percentuais, enquanto sondagem realizada a pedido da CNN americana deu 57% a 41% para o democrata, uma vantagem de 16 pontos percentuais.

Analistas apostam que Pence, 61, um comunicador discreto que já apresentou um programa de rádio na época em que era deputado, pode ser mais eficaz em debates do que o indisciplinado Trump, cuja agressividade ao interromper as falas de Biden e do moderador Chris Wallace foi duramente criticada.

Um político tradicional de credenciais conservadoras, o evangélico Pence pouco chamou a atenção durante o mandato de Trump. Chefe da força-tarefa de combate ao coronavírus, viu o trabalho da equipe ser atropelado por diversas declarações errôneas do presidente sobre a pandemia, como a de que injeções de desinfetante seriam, "quem sabe", eficazes para tratar a doença.

A campanha democrata espera que o ex-governador de Indiana ataque Kamala com as armas que Trump costuma usar contra Biden: tentativas de associá-la à ala mais à esquerda do Partido Democrata, além de indicar posições do candidato a presidente que seriam favoráveis à China.

As duas alegações, no entanto, não se confirmam. Tanto Kamala quanto Biden fazem parte do mainstream moderado da legenda, e o ex-vice-presidente deve manter uma postura agressiva contra o país asiático, uma vez que a maioria dos americanos tem visão negativa dos chineses.

A senadora, que disputou a indicação democrata para ser a candidata à Presidência, pavimentou uma reputação de oradora habilidosa nas audiências que confirmaram Brett Kavanaugh na Suprema Corte.

Aos 55, a primeira mulher negra a concorrer a vice por um grande partido nos EUA também se destacou em debates contra Biden, durante a disputa interna da legenda. Ela acusou o ex-vice de ter trabalhado com políticos racistas e de ser contrário ao fim da segregação racial nas escolas, nos anos 1970.

Agora, ao lado dele na chapa democrata, diz que os comentários são águas passadas. E mais: Biden costuma afirmar que, devido à idade, será um presidente de transição, sem intenção de buscar uma eventual reeleição em 2024. Assim, daqui a quatro anos Kamala pode estar em outro debate.

No que costuma chamar a atenção para valer.

Debate entre candidatos a vice dos EUA

  • Quando quarta-feira (7), às 22h
  • Onde BandNews TV, CNN Brasil, Globonews, G1, UOL

Com Reuters

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