Descrição de chapéu Venezuela

Maduro diz ter se encontrado com Evo em viagem fugaz do ex-presidente boliviano a Caracas

Ditador exibe livro que teria recebido de presente e que conta 'detalhes do golpe' na Bolívia

Caracas | AFP

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, disse em um pronunciamento transmitido pela TV estatal neste domingo (25) que se reuniu com Evo Morales durante visita do ex-presidente da Bolívia a Caracas.

O encontro não foi registrado oficialmente, e Maduro não deu detalhes sobre o motivo da visita, mas exibiu um livro que teria sido dado pelo líder indígena. "Aqui está o presente que Evo Morales me trouxe. Evo me trouxe este presente, este livro, li de madrugada, li em seis horas", disse o venezuelano durante o pronunciamento transmitido de uma praia na cidade de La Guaira, a cerca de 30 quilômetros de Caracas.

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, mostra livro escrito por Evo Morales durante pronunciamento exibido pela TV estatal - Jhonn Zerpa - Presidência da Venezuela/Divulgação - 25.out.20/AFP

Segundo Maduro, o livro, intitulado "Voltaremos e Seremos Milhões", escrito por Evo, conta "os detalhes do golpe" na Bolívia e do exílio do líder indígena no México e na Argentina. "Obrigado, Evo, por este livro que você me deu pessoalmente, muito obrigado", disse Maduro.

O ex-presidente boliviano deixou Buenos Aires na última sexta-feira (23) rumo a Caracas, em um avião oficial do regime venezuelano, horas depois de Luis Arce, seu ex-ministro da Economia, ter sido eleito em primeiro turno como presidente da Bolívia.

Evo comandou o país por 13 anos e foi renunciar em novembro de 2019, sob pressão das Forças Armadas e de manifestações após denúncias de fraude no pleito em que tentaria obter o quarto mandato seguido.

Ameaçado, o líder indígena se exilou no México, onde ficou por algumas semanas, e depois foi para a Argentina, onde vive com status de refugiado. Após a vitória de Arce, Evo disse que pretende voltar à Bolívia, onde é alvo de processos judiciais que o acusam de terrorismo por estimular protestos violentos.

Neste domingo (25), ele voltou a Buenos Aires e disse, em entrevista a uma emissora de rádio, que deve decidir até o final da semana o cronograma de retorno a seu país.

Membros do Movimento ao Socialismo (MAS), partido liderado por Evo e do qual faz parte o presidente eleito, estão divididos sobre quando seria a melhor ocasião para o retorno do líder indígena.

Alguns afirmam que ele deve ir à cerimônia de posse de Arce, prevista para 8 de novembro; outros querem que ele adie a ocasião para não ofuscar o eleito, que é a antítese de Evo na formação e no jeito político.

Na última sexta, Evo disse que a confirmação da vitória de seu ex-ministro era "a maior prova de que não houve fraude" em 2019. "Aqueles que denunciaram têm a obrigação de retirar essas denúncias. Deve-se colocar em liberdade todas as pessoas presas injustamente por esse motivo", escreveu no Twitter.

Neste domingo, a Justiça boliviana anulou a ordem de prisão contra Héctor Arce, ex-ministro da Justiça no governo de Evo, que está refugiado na embaixada mexicana em La Paz há 11 meses.

Héctor era investigado pela Procuradoria-Geral da Bolívia por crime de fraude eleitoral devido à suposta manipulação de informações sobre o processo. Sua defesa conseguiu reverter a decisão baseada no argumento de que o ex-ministro não foi notificado do processo contra ele e os advogados não tiveram acesso à investigação, o que seria uma violação de direitos constitucionais.

Além de Héctor, outros quatro ex-ministros e dois ex-funcionários do governo de Evo, acusados de fraude eleitoral, sedição e terrorismo, foram acolhidos pela embaixada mexicana, de onde aguardam um salvo-conduto que lhes permita deixar o país.

Em entrevista a uma emissora de rádio, ex-presidente reiterou a suspensão dos processos, inclusive contra a ex-presidente do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), Maria Eugenia Choque. "Que fraude? Seu crime é ter sido aimará, indígena e a primeira mulher de 'polleras' a ser presidente do TSE", disse Evo, em referência às saias tradicionais de várias camadas utilizadas por parte das indígenas bolivianas.

A viagem do boliviano à Venezuela ocorre a pouco mais de um mês das eleições legislativas no país, em que a oposição a Maduro anunciou boicote para não "colaborar com a estratégia da ditadura".

Evo foi um dos principais aliados na América Latina de Hugo Chávez, que liderou o país de 1999 a 2013. Maduro também recebeu o apoio do ex-presidente boliviano, mas a relação amistosa entre La Paz e Caracas foi interrompida quando o líder indígena renunciou à Presidência da Bolívia.

Sob o governo da sucessora interina de Evo, Jeanine Añez, a Bolívia se juntou a outros 50 países, incluindo Brasil e Estados Unidos, que reconheceram Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana, como presidente legítimo do país, após Maduro ter sido acusado de fraudes eleitorais.

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