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Biden, 2° católico eleito presidente dos EUA, terá de lidar com evangélicos de Trump

Eleitorado evangélico branco votou em peso no atual presidente americano

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Rio de Janeiro

"Ganhei a eleição disparado!" Essa sentença é verdade na cabeça de Donald Trump, que a tuitou neste sábado (7), dia em que Joe Biden foi confirmado como seu sucessor na Casa Branca, e também se contássemos apenas um dos eleitorados que lhe é mais fiel.

Pesquisas estimam que, como em 2016, o voto evangélico branco foi em massa para Trump: três em cada quatro eleitores desse segmento. E essa fatia americana pode dar dor de cabeça para o presidente eleito, tido como uma pedra progressista num caminho até então florido para o conservadorismo nacional.

Segundo o Pew Research Center, principal instituto de pesquisa a medir a divisão religiosa nos EUA, evangélicos compõem a maior fé do país: 25% da população —outras linhas do protestantismo são contadas à parte, como as igrejas históricas (metodista, batista etc.) e as de tradição negra (essas votaram em peso no democrata, aliás).

Joe Biden, após ir à missa na igreja de Greenville, Delaware - Mark Makela - 20.set.20/Reuters

Biden será o segundo católico a assumir a Presidência dos EUA, 60 anos após o pioneiro JFK. Em entrevista de 2015, o democrata falou sobre o encontro que teve com papa Francisco dois anos antes. "Ele é a personificação da doutrina social católica com a qual fui criado”, disse sobre aquele tido como o mais progressista dos pontífices da história moderna. “A ideia de que todos têm direito à dignidade, que os pobres devem ter preferência especial, que você tem a obrigação de estender a mão e ser inclusivo.”

Uma visão de mundo que se contrapõe àquela cultivada por Trump, um presbiteriano pouco cordial com o papa. Há sinais de que a recíproca é verdadeira.

Na eleição de 2016, Francisco afirmou que uma pessoa "não é cristã" se "só pensa na construção de muros, onde quer que seja", e o mundo entendeu como um recado para o então pré-candidato republicano que prometia uma muralha para separar seu país do México. No ano passado, comparou a ideia com outro muro, o de Berlim, que "nos trouxe dor de cabeça e sofrimento suficientes".

Biden ganhou o apoio de alguns pastores ao longo da campanha, mas o maior pedaço desta torta evangélica foi para o adversário. Mais ou menos como aconteceu no Brasil em 2018, quando o petista Fernando Haddad conseguiu no máximo endossos pontuais entre a liderança dessa ala do cristianismo.

Trump tem como conselheira espiritual a pastora pentecostal Paula White, amiga de longa data, que já havia orado com a equipe de "O Aprendiz", reality que o empresário comandava antes de migrar para a política —talvez você a tenha visto num vídeo que viralizou nos últimos dias, em que ela repete trechos em looping numa pregação, como um sobre a vinda de anjos da África e da América do Sul para ajudar a reeleição do republicano.

Se no Brasil a bancada evangélica tem a estima de Bolsonaro, nos EUA "esse é um lobby que não existe enquanto bloco, mas como alinhamento entre parlamentares conservadores, majoritariamente protestantes e católicos", diz o teólogo Ronilso Pacheco, pesquisador da Universidade Columbia.

Trump também conta com um pelotão de fé, a começar por seu vice, Mike Pence, que se descreve como "um cristão, um conservador e um republicano, nessa ordem". Outro escudeiro é Tony Perkins, presidente do conservador Family Research Council. Ele costuma dizer que desastres naturais são enviados por Deus para punir gays. Em 2016, abandonou sua casa de canoa após enchentes inundarem o sul americano.

Também aliado, Jerry Falwell Jr. presidia a Liberty University, uma das maiores faculdades evangélicas do país. Renunciou após dois escândalos sexuais: primeiro ele compartilhou no Instagram uma foto com a braguilha aberta, deletada em seguida, depois, um sócio afirmou que por anos manteve relações com Falwell Jr. e sua esposa.

Ele é filho do televangelista Jerry Falwell, que em 1979 fundou a Maioria Moral, movimento que uniu a direita cristã e o partido que décadas mais tarde acolheria Trump. "O ecumenismo neoconservador é uma invenção republicana. Eles queriam mobilizar forças para restaurar a ordem", diz Sonia Correa, codiretora da Sexuality Policy Watch e estudiosa de grupos conservadores.

O contexto, Correa lembra, era o avanço de direitos LGBTI (a revolta de Stonewall ocorrera dez anos antes) e reprodutivos (em 1973, o caso Roe versus Wade levou a Suprema Corte a legalizar o aborto ao considerá-lo um direito constitucional da mulher).

Trump conseguiu galvanizar evangélicos e católicos mais à direita, um bloco ansioso para restabelecer a Maioria Moral no século 21. E esse grupo ficou particularmente feliz com a indicação de Amy Coney Barrett por Trump para a mesma Suprema Corte, uma católica que engrossará a maioria conservadora no tribunal.

Outro passo foi dado pelo secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que criou em 2019 a Comissão de Direitos Inalienáveis e a deixou sob guarda de Mary Ann Glendon, ex-embaixadora americana no Vaticano.

A mobilização dos evangélicos brancos conservadores já começou, aponta Ronilso Pacheco. "Os votos de Trump foram expressivos, e o campo evangélico branco vai se agarrar ao trumpismo como 'um mundo ideal que foi perdido'. O patrulhamento sobre a gestão Biden vai aumentar, o ato de pressionar e apelar ao conservadorismo da Suprema Corte tende a intensificar."

Por isso mesmo Biden precisará se cercar dos evangélicos diversos, progressistas e os das igrejas negras que o apoiaram, "para ser firme na contranarrativa, no enfrentamento da manipulação feita para distorcer o compromisso democrata com valores que contemplem toda a sociedade americana e não apenas atendendo a uma supremacia cristã", afirma o pesquisador.

Durante a corrida eleitoral, Trump tentou tachar Biden, que carrega um rosário no bolso e vai à missa aos domingos, como um homem sem Deus no coração. O desafio do democrata será desfazer essa imagem que colou para parte do eleitorado vermelho, a cor associada aos republicanos.

"Um dos erros que os democratas cometeram por décadas é ser muito reservado sobre valores que os movem na vida pública", disse à rádio NPR o senador democrata Chris Coons, de Delaware. "Se nós não falarmos a respeito, milhões de americanos ficarão se perguntando sobre o que nos motiva."

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