Descrição de chapéu The New York Times

Chuck Yeager, piloto de testes que rompeu a barreira do som, morre aos 97 anos

Yeager também foi ás dos caças-bombardeiros na Segunda Guerra e se aposentou em 1975 como general brigadeiro

The New York Times

Chuck Yeager, o mais famoso piloto de testes de sua geração e o primeiro a romper a barreira do som, morreu na segunda-feira (7) em Los Angeles. Tinha 97 anos. Graças ao escritor Tom Wolfe, ele acabou personificando o aviador que desafia a morte e possui o indefinível mas inconfundível “right stuff” (o éthos necessário para realizar seu trabalho, com qualidades como coragem, confiabilidade, retidão, audácia).

Sua morte, em um hospital, foi anunciada em sua conta oficial no Twitter e confirmada por John Nicoletti, um amigo da família.

Chuck Yeager no cockpit de um F-15, em foto de arquivo de 1995
Chuck Yeager no cockpit de um F-15, em foto de arquivo de 1995 - USAF/AFP

Yeager saiu do interior da Virgínia Ocidental com nada mais que um diploma do ensino médio e um sotaque arrastado que deixava muitos colegas pilotos perplexos. Na primeira vez que voou em um avião, sentiu enjoo e vomitou.

Mas virou um ás dos caças-bombardeiros na Segunda Guerra, tendo derrubado cinco aviões alemães em um único dia e 13 ao todo. Na década seguinte, ele ajudou a inaugurar a era dos jatos militares e das missões espaciais. Yeager pilotaria mais de 150 aeronaves militares, acumulando mais de 10 mil horas de vôo.

A conquista pela qual ele seria mais lembrado se deu em 14 de outubro de 1947, quando saiu de um bombardeiro B-29 enquanto este ascendia sobre o deserto de Mojave, na Califórnia, e entrou na cabine de um avião experimental laranja, com formato de bala e movido a foguete, preso ao compartimento de bombas.

Capitão da Força Aérea na época, Yeager partiu no avião, um Bell Aircraft X-1, a uma altitude de 23 mil pés.

Quando chegou a 43 mil pés acima do deserto, o primeiro estrondo sônico da história reverberou no leito dos lagos secos. Ele alcançara a velocidade de 1.126 km/h, rompendo a barreira do som e desfazendo o medo, que estava presente havia muito tempo, de que qualquer avião que alcançasse ou superasse a velocidade do som seria despedaçado pelas ondas de choque.

“Depois de toda a expectativa em torno desse momento, foi realmente uma decepção”, escreveu ele em sua autobiografia, “Yeager” (publicada em 1985 e escrita com Leo Janos).

“Deveria ter havido um obstáculo no caminho, alguma coisa para me notificar que eu acabara de fazer um buraco limpo na barreira sônica. O desconhecido não passou de um cutucão numa gelatina. Mais tarde, entendi que essa missão só poderia ter terminado em decepção, porque a verdadeira barreira não estava no céu e sim em nosso conhecimento e experiência do vôo supersônico.”

Mesmo assim, a façanha figurou ao lado do primeiro vôo dos irmáos Wright em Kitty Hawk, Carolina do Norte, em 1903, e do vôo solo de Charles Lindbergh a Paris em 1927, como evento épico na história da aviação. Em 1950 o avião X-1 de Yeager, que ele batizou de Glamorous Glennis (em homenagem à sua mulher), passou a ser exposto no Smithsonian Institute em Washington.

A proeza levou Yeager a figurar nas manchetes por algum tempo, mas ele só virou celebridade nacional de fato após a publicação do livro “The Right Stuff” (“Os Eleitos”), de Tom Wolfe, em 1979, sobre os primórdios do programa espacial, além do filme baseado no livro, quatro anos mais tarde, em que Yeager foi representado por Sam Shephard. O filme o mostra rompendo a barreira do som na cena de abertura.

No retrato que fez dos astronautas do programa Mercury da Nasa, Wolfe escreveu sobre a fraternidade dos pilotos de testes do pós-Segunda Guerra Mundial no deserto da Califórnia e sua ideia de que “um homem deve ter a habilidade necessária para subir em uma máquina que se lança nas alturas e colocar sua vida em risco e então ter a bravura, os reflexos, a experiência, a frieza necessárias para recuar no último instante —e depois de subir novamente no dia seguinte, e no dia seguinte, e em cada dia seguinte.”

Em sua autobiografia, Yeager contou que ficava irritado quando as pessoas lhe perguntavam se ele possuía “the right stuff” —a qualidade necessária—, porque achava que isso subentendia um talento que lhe seria inato.

“Só sei que trabalhei duro para aprender a pilotar. Trabalhei duro o tempo inteiro”, escreveu. “Se existe algo que possa ser chamado de ‘the right stuff’ na pilotagem, é a experiência. O segredo do meu sucesso foi que de alguma maneira eu sempre consegui sobreviver para voar de novo outro dia.”

Charles Elwood Yeager nasceu em 13 de fevereiro de 1923 em Myra, Virgínia Ocidental, o segundo dos cinco filhos de Albert e Susie Mae Yeager. Ele cresceu na vizinha Hamlin, cidadezinha de 400 habitantes, onde seu pai fazia perfurações em campos de carvão para procurar gás natural.

Com seis anos de idade, Chuck já caçava esquilos e coelhos com espingarda e os esfolava para acabarem na mesa de jantar da família, deleitando-se com a vida de um menino no campo.

Ele se alistou na Força Aérea em setembro de 1941, assim que concluiu o ensino médio, tornando-se mecânico de aviões. Um dia, deu uma volta com um funcionário de manutenção para testar um avião que havia consertado e vomitou em cima do banco traseiro.

Mas em julho de 1942 ingressou num programa de pilotagem para soldados alistados, pensando que assim se livraria de servir na cozinha ou como sentinela.

Recebeu seu diploma de piloto e foi nomeado oficial de vôo em março de 1943 enquanto estava numa base no Arizona e foi alçado a segundo tenente depois de chegar à Inglaterra para passar por treinamento.

Em 2016, quando alguém perguntou a Yeager no Twitter o que o levou a querer tornar-se piloto, ele respondeu jocosamente: “Eu estava na manutenção, via pilotos acompanhados de garotas lindas, sem as mãos sujas, então me candidatei”.

Yeager possuía uma coordenação e aptidão natural para entender o sistema mecânico dos aviões e sabia manter a calma mesmo estando sob pressão. Ele gostava de giros e mergulhos e adorava encenar falsos combates aéreos com seus colegas pilotos em treinamento.

Ele pilotou caças Mustang P-51 na Europa durante a Segunda Guerra Mundial e, em março de 1944, em sua oitava missão, foi derrubado sobre a França por um caça alemão, descendo de paraquedas e aterrissando num bosque com ferimentos na perna e na cabeça.

Mas foi escondido por membros da Resistência francesa, escalou os Pireneus nevados para chegar até a Espanha, neutra na guerra, carregando um aviador gravemente ferido, e retornou à sua base na Inglaterra.

Os pilotos derrubados geralmente não eram autorizados a voltar ao combate, mas Yeager pediu para entrar em ação novamente, e sua súplica foi ouvida. Em 12 de outubro de 1944, liderando três esquadrões de caças que fizeram a escolta de bombardeiros sobre Bremen, ele derrubou cinco aviões alemães, virando um ás em um dia. Em novembro, derrubou outros quatro aviões em um dia.

Depois da guerra, Yeager foi encaminhado à Base Aérea Muroc, na Califórnia, onde pilotos ases testavam protótipos de jatos. Passando à frente de pilotos mais seniores, ele foi escolhido para pilotar o Bell X-1 em uma tentativa de romper a barreira do som.

Quando partiu para fazê-lo, Yeager mal conseguia se mover, tendo fraturado duas costelas duas noites antes quando se chocou com uma cerca enquanto fazia uma corrida a cavalo com sua esposa no deserto.

Em função da Guerra Fria com a União Soviética, a Força Aérea guardou segredo sobre a façanha, mas em dezembro de 1947 a revista Aviation Week revelou que a barreira do som havia sido rompida, e a Força Aérea finalmente reconheceu esse marco em junho de 1948.

Já com a patente de coronel, Yeager comandou uma companhia de caças durante a Guerra do Vietnã e realizou 127 missões, pilotando principalmente bombardeiros leves Martin B-57, atacando as tropas inimigas e suas linhas de abastecimento ao longo da Trilha Ho Chi Minh.

Depois de ocupar o cargo de diretor de segurança aeroespacial da Força Aérea, Yeager se aposentou em 1975 como general brigadeiro. Suas condecorações incluem a Medalha de Serviço Distinto, a Estrela de Prata, a Legião do Mérito, a Cruz Voadora Distinta e a Estrela de Bronze.

Em 1985 ele recebeu do presidente Ronald Reagan a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta condecoração dada a um civil.

O administrador da Nasa, Jim Bridentsine, descreveu a morte de Yeager como “uma perda tremenda para nossa nação”. No Twitter, o astronauta Scott Kelly disse que Yeager foi “uma lenda legítima”.

O rosto de Yeager tornou-se conhecido em anúncios publicitários, e ele fez diversas aparições públicas.

Pilotando aviões F-15, voltou a romper a barreira do som no cinquentenário de seu vôo pioneiro e novamente no 55º aniversário, além de ter sido passageiro em um avião F-15 em outra vôo supersônico para comemorar o 65º aniversário de seu feito.

Sua primeira esposa, Glennis Dickhouse, com quem Yeager teve quatro filhos, morreu em 1990. Em 2003 ele se casou com Victoria D’Angelo. Yeager deixa sua esposa; duas filhas, Susan Yeager e Sharon Yeager Flick, e um filho, Don. Outro filho, Michael, morreu em 2011.

Em seu livro de memórias, Yeager escreveu que ao longo de seus anos como piloto ele fez questão de “aprender tudo que eu podia sobre meu avião e meus equipamentos de emergência”.

Uma coisa que ele disse pode ter destoado de sua imagem: “Sempre tive medo de morrer. Sempre.”

Tradução de Clara Allain

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