Remoção de 12 agentes da posse de Biden expõe tensão aguda em torno de cerimônia

Ao menos 2 membros da Guarda Nacional foram afastados devido a ligações com grupos de extrema direita

Washington

Milhares de soldados em uniformes camuflados se espalham pelas ruas de Washington. Monumentos e prédios públicos estão cercados. De longe, mal se vê a Casa Branca, protegida por barreiras e homens armados, que impedem a aproximação de veículos e pessoas que normalmente circulavam por ali.

A tensão aguda que invadiu a capital americana é reflexo de um esquema de proteção que vai ser colocado à prova nesta quarta (20), dia em que Joe Biden toma posse como o 46º presidente dos EUA. Mas não é só com a ameaça externa que o Departamento de Defesa dos EUA está preocupado.

A possibilidade de um ataque interno, causado por agentes de segurança, fez com que o FBI investigasse os 25 mil homens que chegaram a Washington destacados pela Guarda Nacional.

Doze deles foram removidos nesta terça (19) do esquema de segurança da posse, segundo o Pentágono —ao menos dois oficiais por ligações com grupos de extrema direita. A polícia federal americana está examinando o perfil e os antecedentes dos agentes e há orientação para que todos os profissionais monitorem e denunciem qualquer comportamento ou comentário suspeito de colegas.

Membros da Guarda Nacional próximos ao prédio do Capitólio, em Washington, na véspera da posse de Joe Biden
Membros da Guarda Nacional próximos ao prédio do Capitólio, em Washington, na véspera da posse de Joe Biden - Andrew Kelly/Reuters

Desde o dia 6, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Congresso na tentativa de impedir a certificação da vitória do democrata, Washington viu a chegada de dezenas de milhares de soldados da força federal. O contingente é maior que as tropas americanas no Afeganistão, no Iraque e na Síria juntas.

A região central, onde ficam o Capitólio, a Casa Branca e os principais pontos turísticos da capital, virou uma zona militarizada, bloqueada por veículos militares que dividem espaço com quem vive nas cercanias.

Moradores e pessoas autorizadas precisam se identificar aos agentes antes de cruzar ruas e quarteirões, em que cada espaço tem sido monitorado pela maciça operação coordenada pelo Serviço Secreto.

O alerta máximo foi colocado em marcha diante da ameaça de novos atos violentos após o Congresso ser invadido por uma multidão insuflada por Trump, numa ação que deixou cinco mortos. O republicano não aceita totalmente a derrota e insiste na tese falsa de que as eleições foram fraudadas.

Em comunicado divulgado na semana passada, o FBI, a polícia federal dos EUA, alertou para o risco de manifestações e ataques de grupos armados pró-Trump em Washington e nos 50 estados americanos.
Até agora não foram registrados incidentes significativos, e a promessa de um grande protesto no domingo (17) acabou frustrada, com mais jornalistas e agentes federais do que manifestantes.

As preocupações foram redobradas depois que apurações apontaram que vários dos invasores do Capitólio no início do mês tinham laços militares, reforçando a tese de que há um crescimento da extrema direita nas fileiras das Forças Armadas americanas.

Segundo o jornal The Washington Post, o Pentágono tem recebido notificações de suspeitas de extremismo doméstico entre membros do serviço militar, a maioria das quais relacionada a veteranos, ou seja, àqueles que não estão mais na ativa.

O Serviço Secreto é responsável pela segurança da posse presidencial nos EUA, mas há vários militares e policiais envolvidos na cerimônia, que vão desde a Guarda Nacional e o FBI ao Departamento de Polícia Metropolitana de Washington e a Polícia do Capitólio.

Além de Washington, as maiores cidades americanas são pontos de atenção pelo risco de atos organizados por milícias de extrema direita, como o movimento boogaloo, que diz se preparar para uma suposta segunda guerra civil nos EUA.

Estados em que a disputa eleitoral entre Trump e Biden foi mais acirrada, como Michigan e Pensilvânia, por exemplo, estão sob monitoramento especial, e regiões como Texas e Kentucky, de tradição republicana, fecharam completamente o acesso aos seus respectivos prédios do Legislativo.

Em abril, manifestantes armados com fuzis protestaram dentro do Congresso de Michigan contra as medidas de isolamento social adotadas pelo governo do Estado no combate ao coronavírus.

Especialistas afirmam que esse já era um prenúncio do que poderia acontecer no Capitólio após a vitória de Biden e, de fato, a escalada dos atos mostra que as facções de extrema direita seguirão com força nos próximos anos, mesmo sem a figura de Trump no poder central.

Apesar de todas as precauções, um pequeno incêndio nas imediações do Capitólio causou pânico na manhã de segunda (18) e interrompeu o ensaio da cerimônia de posse, que já havia sido adiado por motivos de segurança. Houve correria, e o Congresso foi fechado e isolado por cerca de uma hora.

Os agentes alegaram "abundância de cautela" ao bloquearem todas as entradas e saídas da sede do Legislativo americano e, em comunicado, esclareceram que as medidas se deram em resposta ao fogo que atingiu um acampamento de pessoas em situação de rua a poucos quilômetros dali.

Ninguém ficou ferido, mas o incidente não deixou de causar pânico e escancarar as dificuldades sociais e logísticas que Biden precisa enfrentar a partir do momento em que abrir a porta da Casa Branca.

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