Com eleições legislativas, El Salvador pode dar mais poder a Nayib Bukele

Partido do presidente, que tem 97% de aprovação, lidera intenção de voto para o Parlamento

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Buenos Aires

Segundo as mais recentes pesquisas de intenção de voto, as eleições legislativas de El Salvador, marcadas para este domingo (28), apontam para um fortalecimento do partido do presidente de centro-direita Nayib Bukele, 39.

Mais de 5,8 milhões de salvadorenhos são esperados nos centros de votação (o voto é obrigatório), para eleger os 84 membros do Legislativo unicameral, além de 262 prefeitos.

Com uma popularidade alta, de 97%, segundo o instituto Gallup, Bukele espera conquistar a maioria do Congresso com o recém-criado Nuevas Ideas, que tem uma intenção de voto de 64,7%.

O presidente salvadorenho, Nayib Bukele, fala durante uma entrega de computadores a alunos de escolas públicas em San Salvador - Marvin Recidos - 22.fev.2021/AFP

Se as pesquisas se confirmarem, haverá, ainda, um significativo encolhimento dos dois partidos tradicionais do país, o direitista Arena e o esquerdista FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional). Até aqui, ambos somavam mais de 70% das cadeiras do Parlamento. Agora, as projeções indicam que não chegarão a ter nem 10%, juntos.

Os dois partidos têm dominado a cena política salvadorenha desde o acordo de paz que pôs fim à guerra civil no país em 1992.

Apesar de ter começado a militar no FMLN, Bukele hoje faz ataques às duas legendas. Quando foi eleito, com 53% dos votos, apostou na narrativa de ser um outsider e se apoiou na crítica às gestões dos dois partidos —que deixaram vários escândalos de corrupção, alguns já com condenação e outros em julgamento.

Enquanto o Arena é o partido de direita formado originalmente pelos que lutaram para defender o regime militar, o FMLN nasceu da guerrilha que fez frente ao mesmo. O conflito deixou mais de 75 mil mortos e ainda é um trauma na sociedade.

Até aqui, a gestão de Bukele tem sido polêmica. Sua ação contra a pandemia do coronavírus é enérgica e rendeu frutos, a violência das "maras" (facções criminosas) diminuiu. O número de homicídios caiu em 60% e, com isso, aumentou o apoio a ele, principalmente nas áreas rurais, mais atingidas pela violência. Também houve avanços nas investigações de corrupção dos governos anteriores.

Por outro lado, Bukele vem sendo acusado de abusos de direitos humanos durante a pandemia, instalando centros de confinamento forçado a pessoas com suspeita de infecção ou de ter tido contato com alguém contagiado. Quarentenas localizadas foram aplicadas para abafar protestos contra o governo.

Jornais independentes que divulgaram esses abusos vêm sendo perseguidos ou ameaçados. O site El Faro, o mais importante do país, está sendo processado por expor publicamente o nepotismo do governo Bukele e ações irregulares na aplicação das medidas de quarentena.

"Uma vitória do partido de Bukele nesta eleição significará o controle dele dos três poderes. Ele já tem o Executivo e parte do Judiciário, também terá o Legislativo", afirma à Folha o cientista político Óscar Picardo.

A maioria oposicionista até hoje no Congresso impediu Bukele de realizar algumas reformas relacionadas a gasto público e aposentadorias. O presidente também gostaria de chamar um referendo constitucional, mas o atual Parlamento o impediu. Com uma maioria alinhada a ele, será possível, ainda, que Bukele nomeie os juízes da Corte Suprema e o Procurador-Geral, sabendo que teria anuência dos congressistas.

Não faltam vozes que consideram que isso seria um avanço do Executivo sobre as instituições e a tomada de um rumo autoritário pelo atual mandatário. Para o jornalista Carlos Dada, do El Faro, o país está vivendo "um paradoxo da representação democrática. Por meio do voto, um mecanismo democrático legítimo, cidadãos abrem a porta para regimes corruptos e antidemocráticos".

Já para José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da Human Rights Watch, Bukele está "seguindo o script da criação do populista clássico, dividindo cidadãos entre os apoiadores incondicionais e os inimigos, intimidando os adversários".

Para Picardo, porém, a classe política que até então governava El Salvador é responsável pelo que está acontecendo. "Bukele vai ganhar sem fraude, porque uma fraude não é necessária. As pessoas o querem. Votarão em seu partido porque se sentem incorporadas, acolhidas pelas cestas básicas, pelos planos sociais, pela queda da violência, algo que nunca ocorreu nos governos da Arena e do FMLN, com o acréscimo de que estes, ainda por cima, foram corruptos", resume.

Bukele já havia sinalizado que queria o controle do Legislativo quando, em fevereiro de 2020, acompanhado do Exército, cercou o edifício e sentou-se na cadeira do presidente da casa. "Bukele se guia pelo espetáculo, se comunica bem pelas redes. Ele não ia tomar o Legislativo à força naquele dia, apenas transmitir esse show para amedrontar. Agora, entrará no Congresso pela via legal", diz Picardo.

A pandemia é a principal preocupação dos salvadorenhos, segundo pesquisa do instituto Fundaungo. O país soma cerca de 60 mil casos e 1.841 mortos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

E a crise sanitária vem impactando muito a economia, que tem um mercado informal de quase 60%. A contração do PIB salvadorenho foi de 8,6% em 2020, e houve uma perda de 70 mil empregos.

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