Descrição de chapéu Governo Biden

Dias dos EUA se curvando à Rússia acabaram, diz Biden

Democrata anuncia medidas ligadas a guerra no Iêmen e retirada de soldados americanos da Alemanha

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Washington

Em seu primeiro grande discurso sobre política externa, o presidente Joe Biden fez uma fala forte contra a Rússia e a China, num equilíbrio calculado com a ideia de que os EUA vão retomar a diplomacia como centro de sua relação com outros países pelo mundo.

De dentro do Departamento de Estado, sede da chancelaria americana, Biden disse nesta quinta-feira (4) que os dias dos EUA se curvando diante da Rússia acabaram, no seu mais duro rechaço público sobre as práticas do governo Vladimir Putin até agora.

"Os dias em que os EUA se curvam para as ações agressivas da Rússia interferindo nas nossas eleições, fazendo ataques cibernéticos, envenenando cidadãos, esses dias acabaram", disse Biden.

O presidente dos EUA, Joe Biden, fala sobre política externa no Departamento de Estado americano
O presidente dos EUA, Joe Biden, fala sobre política externa no Departamento de Estado - Saul Loeb/AFP

O democrata afirmou ainda que conversou com Putin nesta quarta-feira (3) e que ambos concordaram em estender um acordo sobre segurança e estabilidade nuclear por mais cinco anos. "Seremos mais efetivos ao lidar com a Rússia quando atuarmos em coalizão e cooperação", completou o líder americano.

Durante sua fala de quase 20 minutos, o democrata anunciou diversas outras medidas práticas, como o fim do apoio militar dos EUA às ofensivas lideradas pela Arábia Saudita no Iêmen, além do congelamento da retirada dos soldados americanos da Alemanha, e fez um apelo para que os militares em Mianmar abram mão do poder e da violência, citando possíveis consequências caso a situação no país não se resolva em breve.

Desde que chegou à Casa Branca, Biden tem sinalizado que vai manter —ou até reforçar— políticas assertivas de Trump em relação à China. No discurso desta quinta, o democrata mostrou que, apesar da retórica mais amena e do espaço para algum diálogo que não aparecia no governo republicano, Pequim segue sendo considerada uma ameaça.

Biden citou "a ambição da China como rival dos EUA" e a "determinação da Rússia em danificar e perturbar nossa democracia" ao falar dos desafios atuais de enfrentar a pandemia de coronavírus e as mudanças climáticas e fazer a defesa do regime democrático e dos direitos humanos.

Segundo o presidente, esses devem ser os pilares de sua chancelaria no comando da Casa Branca.

"Os EUA estão de volta, a diplomacia está de volta", disse Biden. "Vamos reconstruir nossas alianças, vamos voltar a engajar o mundo."

O rompimento com a política externa autoritária e isolacionista de Trump era uma das principais promessas de campanha de Biden, mas um dos maiores anúncios do democrata nesta quinta, o fim do apoio à intervenção no Iêmen, é a reversão de uma medida que começou no governo de Barack Obama.

Desde 2015, quando Biden era vice de Obama, os EUA dão respaldo à coalizão liderada pela Arábia Saudita em apoio ao governo do Iêmen contra os rebeldes houthis, que têm suporte do Irã.

Aliado dos sauditas, Trump deu continuidade à ajuda militar americana, num conflito que já deixou milhares de mortos, a maioria civis, em uma das piores crises humanitárias do mundo, segundo a ONU.

Durante um debate eleitoral, Biden havia dito que faria da Arábia Saudita um pária por causa da guerra, o que agradou à ala progressista democrata.

O senador Bernie Sanders, por exemplo, era um dos principais defensores do fim do apoio militar americano às ofensivas no Iêmen, e seus aliados viram no anúncio desta quinta o auge de anos de ativismo para criar consciência sobre a realidade daquele país.

Com seu pronunciamento, Biden deu novos passos na sua missão de restaurar a liderança dos EUA no cenário multilateral. Seu plano é colocar o país novamente no centro do mundo, mas, diferentemente de Trump, com uma política ancorada em alianças para dar respostas à pandemia, fazer oposição a governos anti-democráticos e garantir a proteção ambiental, tema com reflexos diretos no Brasil.

"Nas últimas duas semanas, conversei com os líderes de muitos de nossos amigos mais próximos —Canadá, México, Reino Unido, Alemanha, França, Otan, Japão, Coreia do Sul e Austrália— para começar a reformar os hábitos de cooperação e reconstruir os músculos de alianças democráticas que se atrofiaram em quatro anos de negligência e abusos", disse Biden.

"As alianças dos EUA são nossos maiores ativos, e liderar com diplomacia significa ficar ombro a ombro com nossos aliados e parceiros-chave mais uma vez."

O democrata ainda não falou com o presidente Jair Bolsonaro, e não há data para que isso aconteça. Diplomatas brasileiros acreditam que uma conversa entre os dois líderes irá ocorrer apenas quando houver medidas específicas em debate.

Na semana passada, Biden assinou um ambicioso plano sobre o clima no valor de US$ 2 trilhões (quase R$ 11 trilhões) em que cita diretamente a proteção da Amazônia.

O texto, que ainda precisa de aprovação no polarizado Congresso americano, diz que os EUA "vão exercitar sua liderança para promover um aumento significativo na ambição climática global à altura do desafio" ambiental.

Biden é crítico da destruição da Amazônia e já havia citado a floresta durante um debate com Trump, no ano passado. Na ocasião, o democrata disse que os EUA se juntariam a outros países para oferecer um fundo de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 108 bilhões) para a preservação do bioma.

"Parem de destruir a floresta. Se não fizerem isso, vocês terão consequências econômicas significativas", afirmou Biden.

Bolsonaro, por sua vez, disse que não aceitava o que chamou de "suborno" e classificou a postura de Biden como "lamentável."

De perfil conciliatório, Biden é especialista em política externa e foi responsável por grande parte da relação do governo Obama com a América Latina, tornando-se um dos presidentes dos EUA que mais conhecem o Brasil e se interessam por ele.

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