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China acusa EUA de desestabilizarem o mundo em nome da democracia

Chanceler pede para que Biden abandone 'obstáculos artificiais' para cooperar sobre clima e Covid-19

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São Paulo

A China acusou os Estados Unidos de desestabilizarem o mundo em nome da promoção da democracia, mas pediu que Washington ajude a retirar "restrições injustificáveis" nas relações com Pequim para lidar com problemas como a crise climática e a pandemia da Covid-19.

O formulador da exortação foi o chanceler chinês, Wang Yi, que falou neste domingo (7) em entrevista coletiva no encontro anual do plenário do Congresso Nacional do Povo —as chamadas Duas Sessões, completadas por reunião análoga da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.

Repórter registra entrevista do chanceler Wang Yi em uma tela no Congresso Nacional do Povo, em Pequim
Repórter registra entrevista do chanceler Wang Yi em uma tela no Congresso Nacional do Povo, em Pequim - Thomas Peter/Reuters

"Esperamos que os EUA e a China se encontrem no meio do caminho e levantem as diversas restrições injustificáveis colocadas na cooperação sino-americana até aqui, o mais rapidamente possível, e não criem novos obstáculos artificialmente", afirmou.

A boa vontade direcionada ao novo presidente americano, Joe Biden, foi temperada com uma série de acusações contra a conduta de Washington pelo governo de Xi Jinping.

Segundo Wang, os EUA usam os temas da democracia e dos direitos humanos como base para interferir em outros países. "Os EUA devem entender isso o mais rapidamente possível, ou então o mundo continuará a experimentar instabilidade", disse.

Na semana passada, Biden afirmou que a disputa com a China será "o maior teste geopolítico do século". Antes, havia destacado Pequim como seu mais sério competidor estratégico no mundo.

Com isso, as eventuais esperanças chinesas de que o democrata se afastaria do rumo estabelecido pelo antecessor Donald Trump se esvaíram. O republicano, nos seus anos no poder (2017-2021), implantou a apelidada Guerra Fria 2.0.

Sob essa doutrina, todo campo possível de disputa virou um ponto agudo de atrito. Sem muito sucesso, os EUA promoveram uma disputa tarifária com a China. Foram melhor na ofensiva para fechar mercados da tecnologia 5G para a gigante chinesa Huawei.​

Foram riscadas linhas em temas com graves implicações militares: a soberania sobre o mar do Sul da China e a liberdade de Taiwan. O manejo da pandemia do coronavírus e o solapamento da autonomia de Hong Kong, entre outros pontos, entraram no cardápio também.

Acerca de Hong Kong, que terá seu sistema eleitoral mudado para enterrar o que restou da oposição local, Wang afirmou que as mudanças decididas pelo Congresso vão garantir "um futuro brilhante" para a região.

Os países são as maiores economias do mundo e os que mais gastam com defesa, mas a vantagem americana ainda é enorme: quatro vezes mais despesas militares e um PIB de US$ 21 trilhões, antes US$ 15 trilhões chineses.

Como ocorre sazonalmente na história, contudo, Pequim é a potência em ascensão, e assim é percebida pela nação hoje dominante. Os riscos de choques que possam sair do controle, mesmo acidentalmente, estão colocados.

Por outro lado, a interdependência de suas economias, abalada pela realidade restritiva da pandemia, serve como uma espécie de seguro momentâneo contra escaladas que possam levar a um conflito.

Questionado sobre o fato de os EUA terem classificado a China como genocida no tratamento dispensado à minoria muçulmana uigur, Wang foi taxativo. "Não vamos aceitar acusações sem base e calúnias."

O chanceler reiterou a retórica das Forças Armadas do país, afirmando que não há espaço para acordos sobre Taiwan, que Pequim considera uma ilha rebelde a ser reabsorvida pela ditadura continental. Os EUA apoiam Taipé, inclusive com venda de armas para dissuadir uma invasão chinesa.

Wang pediu que Biden mudasse os "perigosos atos de brincar com fogo" de Trump, em referência ao envio de autoridades americanas a Taiwan, estimulando a ideia de que os EUA possam romper o status quo de seu reconhecimento da China em 1979 e apoiar a independência da ilha.

Isso hoje parece improvável, dado que todo o arranjo econômico mundial gira em torno da relação China-EUA, mas não é impossível.

Sobre os uigures, Wang afirmou que "o chamado genocídio em Xinjiang [a província chinesa que concentra a minoria] é ridiculamente absurdo".

"É um rumor com motivos ulteriores, uma mentira completa. Quando se pensa em genocídio, a maioria das pessoas lembra dos índios americanos, dos escravos africanos, dos judeus, dos aborígenes australianos, que ainda está lutando hoje", cutucou o chanceler.

A Austrália é uma aliada dos EUA na região contra a China. Biden deverá promover um encontro com o premiê do país e os líderes do Japão e da Índia, os países que formam a aliança informal militar Quad no Pacífico.

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