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China apresenta seus termos para retomar relação com os Estados Unidos

No fim do encontro legislativo anual, país sela repressão a Hong Kong e acena a Biden

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São Paulo

A China encerrou nesta quinta (11) seu encontro legislativo anual estabelecendo os termos da relação que pretende ter com os Estados Unidos do presidente Joe Biden. Por um lado, aprovou medidas para solapar a oposição democrática em Hong Kong e um plano que visa a autossuficiência tecnológica do Ocidente.

Por outro, fez um aceno claro de cooperação, apesar das diferenças, a Washington.

Sessão de encerramento da reunião anual do Congresso Nacional do Povo, em Pequim
Sessão de encerramento da reunião anual do Congresso Nacional do Povo, em Pequim - Jin Liangkuai/Xinhua

A dinâmica do relacionamento entre as duas potências é o tema definidor deste começo de século 21. Biden e o líder Xi Jinping concordam sobre isso —o americano com a visão de quem é a força dominante, e o chinês, com a de quem é a desafiante.

No pensamento político chinês, a perspectiva de tempo importa. O 14º Plano Quinquenal, aprovado pelo Congresso Nacional do Povo nesta quinta, fala mais a Confúcio do que a Mao Tsé-Tung.

Na oferta chinesa ao Ocidente, o limite acerca de interferência em assuntos domésticos fica claro. Hong Kong hoje, Xinjiang amanhã, Taiwan em breve —anos ou décadas, pelo diapasão de Pequim.

Os EUA chamam a China de genocida pelo trato de sua minoria muçulmana e têm um pacto de defesa com os taiwaneses, vistos como rebeldes por Pequim. Para Xi, a posição de Pequim é fato consumado.

Por 2.895 votos a 0, com uma abstenção, o plenário do Congresso aprovou a reforma do sistema eleitoral honconguês após dois anos de extrema turbulência no território.

Em 2019, a região foi engolida por protestos de rua por maior autonomia e garantia de direitos. Para Pequim, até pelo forte apoio do Ocidente aos manifestantes, uma prova de interferência estrangeira.

Em 2020, a pandemia tratou de abafar a fervura, e a sessão anterior do Congresso aprovou uma draconiana Lei de Segurança Nacional. Houve atos, alguma ebulição, mas o dissenso foi coibido à força: ativistas estão presos ou exilados.

Agora, a chave de chumbo do processo, com a ampliação do número de deputados do Conselho Legislativo local, de 70 para 90, com vários indicados por Pequim. Por voto direto, apenas 35. Mais: apenas "patriotas", aspas compulsórias, poderão participar do processo.

Dispensável dizer que o patriotismo em questão é submissão ao Partido Comunista Chinês, instância máxima liderada por Xi de forma cada vez mais personalista desde 2012.

Desde que o limite para reeleições de mandato de cinco anos como secretário-geral foi retirado em 2017, Xi é visto como um imperador na política internacional —lentamente sedimentando seu poder, agora asseverado sobre dissidentes em Hong Kong.

A reunião do Congresso, chamada de Duas Sessões por englobar o encontro anual da Conferência Consultiva do Povo Chinês, é uma cerimônia da ordem unida sob o partido. De lá saem os recados "urbi et orbi" da ditadura comunista.

Os planos econômicos apresentados são ambiciosos e pretendem fazer da China um país autossuficiente em alta tecnologia até a próxima década. Isso é reflexo da Guerra Fria 2.0 aberta por Donald Trump em 2017, que Biden insinua manter em seu lugar.

Além disso, a pandemia da Covid-19 foi central para mostrar os riscos da dependência de chips vindos de Taiwan, ilha que Pequim considera sua e que está crescentemente se armando contra uma eventual invasão, com apoio dos EUA.

E, sem chips, não há armas nucleares nem a liderança que Pequim disputa no mercado do 5G, só para começar. Outros temas também foram abordados na economia, como a prioridade dada ao combate ao extravagante déficit do país, que chega a 270% de seu PIB de US$ 15 trilhões, e o risco do envelhecimento de um país com idade de aposentadoria generosa. Esse olhar para dentro visa estabelecer o lugar da China no mundo, indissociável de sua relação com os americanos.

Na entrevista coletiva final das Duas Sessões, o premiê Li Keqiang delineou sua visão. "Os povos da China e dos EUA são sábios e capazes, e ambos os lados têm de conduzir diálogo e comunicação com respeito e qualidade", afirmou. "China e EUA dividem vastos interesses em comum e há muitas áreas em que podemos cooperar. Nós devemos focar isso", afirmou o premiê.

Com efeito, ao longo das Duas Sessões foi amarrado o primeiro encontro entre chanceleres dos países desde que Biden assumiu, em janeiro. Ele ocorrerá no Alasca, na quinta-feira que vem (18).

O tom de Li não lembrava muito o de Xi, que defendeu durante reuniões do Congresso na semana que as Forças Armadas da China têm de estar "prontas para o combate". Pontos de atrito com os EUA não faltam, do mar do Sul da China ao estreito de Taiwan. Retórica, mas refletida no anúncio do aumento do gasto militar de forma contínua —foi 6,6% de crescimento em 2020, será de 6,8% agora.

Pequim, sempre sob a visão milenar impressa no DNA de sua política, quer ganhar tempo. Estima-se que possa ultrapassar os EUA em tamanho de economia em algum momento nesta década, embora a pandemia tenha embaçado as bolas de cristal do mercado.

No plano de Xi, será uma potência militar em condição de paridade com Washington em 2027 e terá capacidade como centro de manufatura iguais às dos EUA e às da Alemanha apenas daqui a 30 anos.

No campo de defesa, o fosso ainda é enorme. A China, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, tem o segundo maior orçamento militar do mundo, mas ele é quase quatro vezes menor do que o americano.

Sua crescente força naval é impressionante, mas não há nada parecido no planeta com os 11 grupos de porta-aviões dos EUA, que projetam sua vontade política como nenhum instrumento na história.

E, ainda que tenha armas nucleares suficientes para dissuadir um ataque contra si, não é páreo para os arsenais de Washington e de Moscou.

Assim, a marcha de Xi segue, com seus termos colocados. O Reino Unido, antigo proprietário de Hong Kong, previsivelmente protestou contra a mordaça democrática cimentada por Pequim no território. Mas não vai muito além disso. A interdependência da economia mundial, a começar pelos EUA e pela China, é um antídoto forte contra rupturas, por mais que sanções sejam anunciadas.

Nesta sexta (12), os EUA terão a oportunidade de bater seus tambores de guerra em reunião virtual com vizinhos regionais assustados da China: Japão, Índia e Austrália, que com Washington formam o chamado Quad. Até aqui, Biden mantém a ideia de deixar os chineses sob pressão, inclusive do ponto de vista militar.

Poderá ser uma sinalização da modulação pretendida pelo democrata à retórica belicosa de Trump e um aperitivo para o Alasca. Xi e o mundo estarão assistindo.

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