Diplomacia da vacina e economia viram armas de EUA e aliados contra China

Reunião inédita com Japão, Índia e Austrália renova pressão militar sobre Pequim

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São Paulo

A geopolítica da vacina contra a Covid-19 e a cooperação tecnológica entraram no arsenal usado pelos Estados Unidos e seus aliados no entorno da China como forma de conter a expansão de Pequim, embora o componente central da estratégia siga sendo militar.​

"Um Indo-Pacífico livre e aberto é essencial para cada um dos nossos futuros", ressaltou o presidente americano, Joe Biden, em encontro virtual com os premiês Narendra Modi (Índia), Yoshihide Suga (Japão) e Scott Morrisson (Austrália).

Biden, à esquerda, reúne-se virtualmente com os líderes Suga (Japão), Modi (Índia) e Morrisson (Austrália)
Biden, à esquerda, reúne-se virtualmente com os líderes Suga (Japão), Modi (Índia) e Morrisson (Austrália) - Olivier Douliery/AFP

É a primeira reunião de chefes de Estado do Quad, abreviação para Diálogo de Segurança Quadrilateral, que deverá ter uma versão presencial ainda neste ano.

O grupo começou a tomar forma após o tsunami que varreu o oceano Índico em 2004. Instalado em 2007, sumiu e foi trazido à vida por Donald Trump dez anos depois, parte da Guerra Fria 2.0 contra a China.

A fala de Biden antecipa a reunião entre os chefes da diplomacia americana e chinesa, que ocorrerá no dia 18, no Alasca, para iniciar o contato direto entre as duas potências dominantes do século 21 até aqui.

Por "Indo-Pacífico livre e aberto" deve-se entender a manutenção do caráter internacional de rotas comerciais usadas pela China nos mares a seu redor, sua obsessão estratégica. Os EUA fazem isso rotineiramente ao conduzir exercícios militares e navegação em áreas que os chineses consideram suas.

Mas o encontro foi além. A Índia, que no ano passado teve um choque fronteiriço com a China em região disputada no Himalaia, ação que resultou na morte de dezenas de soldados, pediu para que o grupo financiasse a produção de vacinas com tecnologia americana em seu território.

No caso, os fármacos da Janssen e da Novavax. Nova Déli fabrica vacinas da AstraZeneca sob licença, tem a Covaxin desenvolvida em seu território e vem disputando com China e Rússia a primazia da diplomacia da vacina —ou seja, fornecimento por contratos ou doação a países desassistidos pelo mundo rico, focado na imunização de sua população.

Não foram dados detalhes além de que Japão entraria com dinheiro e Austrália, com logística de distribuição. "Estamos lançando uma nova e ambiciosa associação conjunta que vai impulsionar a fabricação de vacinas em benefício do mundo e reforçar a vacinação em todo o Indo-Pacífico", disse Biden.

Segundo membros do governo Biden, o alvo é o Sudeste Asiático, quintal geopolítico da China. Cabe ressaltar que os EUA, que vêm acumulando estoques de vacinas e são criticados na Europa por isso, não falaram em distribuir suas doses na região.

O comunicado do grupo também prometeu maior cooperação em tecnologia, notadamente o 5G, que opõe a chinesa Huawei a fabricantes ocidentais, e de criação de alternativas às cadeias produtivas dependentes da China.

Foi cobrada mais transparência da Organização Mundial da Saúde, ente visto como próximo do governo chinês, e pedida a restauração da democracia em Mianmar —país que registrou um golpe no mês passado que não foi condenado por Pequim.

"Quando governos se reúnem no mais alto escalão, isso mostra um novo nível de cooperação para criar uma nova âncora para paz e estabilidade", afirmou Morrisson a repórteres. A Austrália tem tido desavenças com os chineses durante a pandemia, seja pelo manejo sanitário ou por questões comerciais.

Suga, que assumiu o Japão no ano passado e já afirmou querer um Quad forte, ressaltou a repórteres a ideia de um "Indo-Pacífico livre e aberto". O país tem lidado com uma maior militarização nos últimos anos, muito por suspeita do comprometimento dos EUA com sua defesa.

O japonês afirmou que defendeu, no encontro, que a China não pode mudar unilateralmente o status quo da região.

Modi, por sua vez, disse que o Quad será uma "força para o bem mundial". "O Quad chegou à maioridade. Agora seguirá sendo um importante pilar de estabilidade na região", afirmou.

Com o encontro desta sexta, Biden sinaliza uma política de aproximação com seus aliados mais organizada do que a proposta por Trump.

Em algumas reuniões anteriores, o grupo já estabelecera uma retórica mais militarista. A China tomou nota, e autoridades passaram a chamá-lo de "mini-Otan", em referência à aliança criada em 1949 pelo Ocidente para fazer frente à União Soviética e, hoje, à Rússia.

É um claro exagero, dado que não há nada parecido com a integração militar na Europa no Indo-Pacífico. Mas passos foram tomados, como a entrada da Austrália no regime de exercícios navais anuais de EUA, Índia e Japão. O recado é claro: Pequim precisa conter sua assertividade regional, a começar pela militarização do mar do Sul da China, e o instrumento para coibi-la é a ameaça a suas rotas marítimas.

Os chineses têm investido pesadamente em sua Marinha, mas estão muito distantes das capacidades americanas. O Quad forma geograficamente um cerco às saídas de Pequim para o mundo.

No curto prazo, poucos veem risco real de guerra entre EUA e China, mas a dinâmica da ascensão asiática ante o poderio estabelecido por Washington historicamente gera conflitos. E há riscos de acidentes, claro, e movimentos como a reativação da Primeira Frota americana, no Índico, aumentam a desconfiança.

Para reforçar sua posição, antes do encontro do Alasca o secretário de Estado americano, Antony Blinken, visitará o Japão e a Coreia do Sul —que não faz parte do Quad, mas é um dos entrepostos militares mais importantes dos Estados Unidos no exterior.

A China apresentou seus termos de engajamento com Washington durante a semana, quando houve a reunião anual de seu Congresso. Apesar de acertar a reunião no Alasca, acusou os americanos de desestabilizar o mundo em nome da promoção da democracia.

Também foi clara em dizer que não aceitará interferência no que considera assunto interno, como a repressão ao movimento democrático em Hong Kong ou o trato da minoria muçulmana uigur, o que os EUA classificam como genocídio.

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