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Mathias Alencastro

Ernesto já conquistou lugar de destaque na caçamba da história nacional

Em pouco mais de dois anos à frente do Itamaraty, ex-chanceler derivou da diplomacia mambembe para o vandalismo sanitário

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São Paulo

Burocrata reservado escondido atrás de uma barba farta, de sorriso tímido e olhar caprino, Ernesto Araújo não era exatamente uma estrela ascendente quando iniciou a passagem sideral pela chefia do Itamaraty.

Após rabiscar umas páginas elogiosas sobre o Mercosul e a diplomacia petista, ele subiu discretamente na hierarquia até chegar a frequentar o gabinete do chanceler. A saída do armário extremista e a adoção por Bolsonaro espantou os conhecedores dos meandros da diplomacia.

Rapidamente batizado de “Cabo Daciolo intelectualizado” pelo saudoso Clóvis Rossi, Ernesto viveu o seu primeiro ano de ministro como se fosse o último. Na América Latina, envolveu o Brasil numa operação para emplacar Juan Guaidó em Caracas e noutra para derrubar o governo de Evo Morales na marra.

O ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no Palácio do Itamaraty
O ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no Palácio do Itamaraty - Pedro Ladeira - 15.mar.19/Folhapress

Ao se aliar com o que há de mais golpista em Washington, extinguiu a liderança regional do país na sua primeira canetada. Nos meses seguintes, o chanceler implementou a diplomacia de alinhamento automático com os EUA, conduziu uma ofensiva de insultos infantis contra a China e assistiu passivamente ao presidente sabotar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia que ele próprio ajudou a finalizar.

Durante esse processo, a política externa foi infiltrada por turistas como Eduardo Bolsonaro, e o Itamaraty virou piada na Esplanada. Os diplomatas que não embarcaram na loucura entraram em depressão.

Até aqui, a confusão criada poderia ter sido interrompida e até superada. Afinal, quem nunca teve a má ideia de jogar War depois de tomar ácido? Mas para o azar de todos, a maior pandemia do século eclodiu bem no governo Bolsonaro, e Ernesto derivou da diplomacia mambembe para o vandalismo sanitário.

Enquanto as mortes de brasileiros se acumulavam, ele atacou a Organização Mundial da Saúde, acusou o governo chinês de ter criado o coronavírus, inventou termos alucinógenos como “comunavírus” e “lockdown dos espíritos”, passou a mão na cabeça da turba que invadiu o Congresso americano e inventou uma missão ridícula a Israel para alimentar a máquina de notícias falsas do governo.

A lista é longa, mas é a imagem do diplomata abanando uma caixa de cloroquina ao lado de Jair Bolsonaro numa reunião do G20, no final de março de 2020, que tem mais chances de constar no álbum de lembranças dos juízes do Tribunal de Haia. Foi ali que a comunidade internacional entendeu que a população brasileira estava refém de um governo suicida. Os dignitários internacionais postados em Brasília deixaram de dar gargalhadas e passaram a rezar pelo país.

Durante esse tempo, o número de seguidores de Ernesto no Twitter ultrapassou 700 mil, e as mortes no país, 300 mil. Não é preciso cursar o Rio Branco para saber que só o primeiro dado interessa ao chanceler.

Nas últimas semanas, Ernesto cruzou a linha Weintraub-Silveira do não retorno na política brasileira.

Obrigado a partir para golpes baixos para se proteger, como na postagem para ligar Katia Abreu ao lobby chinês pelo 5G, Ernesto multiplicou os ataques contra senadores, que retaliaram com uma rara violência.

Esse ritual de autoimolação sugere que o ex-chanceler tem consciência de que a sua carreira diplomática acabou: o Itamaraty nunca vai perdoar a humilhação da corporação em nome do olavismo, e o Senado, com a sua memória de elefante, vai neutralizar qualquer tentativa de progressão na carreira. A sociedade, por fim, já associa Ernesto ao que há de mais devastador no governo Bolsonaro.

Mas ele, no fundo, é um cara de sorte. Sua saída no meio do caos oferece uma oportunidade rara para se refugiar no subsolo do Palácio. Lá, no conforto da irrelevância, pode retomar a sua vida virtual em alguma rede social alternativa habitada por adultos inseguros e, para o alívio da humanidade, desaparecer do horizonte político do Brasil.

Sua história era para ser uma comédia bizarra, típica da tragédia bolsonarista. Infelizmente, ele superou todas as expectativas e entregou a “grande transformação” mencionada durante a sua intervenção no Senado: o Brasil é uma terra de leprosos aos olhos da comunidade internacional. Ernesto, por unanimidade, já conquistou um lugar de destaque na caçamba da história nacional.

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