Descrição de chapéu Governo Biden

Em 1º discurso no Congresso, Biden aposta em nacionalismo e força da classe média

Presidente dos EUA convocou americanos a se vacinarem na véspera de completar cem dias no cargo

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Washington

Na véspera de completar cem dias de governo, Joe Biden fez nesta quarta-feira (28) seu primeiro discurso na sessão conjunta do Congresso. O presidente dos EUA cristalizou o papel que seu governo pretende dar ao Estado, como agente para o bem-estar social e crescimento da economia, com fortalecimento da classe média, e deu um tom nacionalista para sua gestão.

“Após apenas cem dias, posso dizer à nação: os EUA estão em movimento novamente, transformando perigo em possibilidade, crise em oportunidade, recuo em força”, afirmou na Câmara. “Temos que provar que a democracia ainda funciona, que nosso governo ainda funciona e que pode ajudar as pessoas.”

O presidente dos EUA, Joe Biden, faz seu primeiro discurso ao Congresso americano
O presidente dos EUA, Joe Biden, faz seu primeiro discurso ao Congresso americano - Melina Mara/Reuters

À frente de um dos programas mais exitosos de vacinação contra a Covid do mundo, que derrubou número de casos e mortes no país, Biden começou pedindo que os americanos se vacinem, mas sinalizou que pode, em algum momento, compartilhar doses. "Enquanto nosso estoque de vacina cresce para atender as nossas necessidades, e está atendendo, vai se tornar um arsenal para vacinas para outros países, assim como a América é um arsenal de democracia para o mundo."

O novo governo aplicou mais de 200 milhões de doses em cem dias, mais que o dobro do que tinha prometido inicialmente. No pronunciamento de pouco mais de uma hora, Biden disse que herdou "uma nação em crise", com a pior pandemia do século, a pior crise econômica desde a Grande Depressão e, sem nomear o ex-presidente Donald Trump, falou em "pior ataque à nossa democracia desde a Guerra Civil".

Apesar de traçar o cenário sombrio, Biden tentou imprimir otimismo com suas prioridades, vistas com ceticismo por parte dos republicanos, e abusou do tom nacionalista para tentar conquistar parte da oposição. "Nunca foi uma boa aposta apostar contra os EUA. E ainda não é", disse. "No exato momento em que nossos adversários estavam certos de que nos separaríamos e fracassaríamos, estivemos juntos. [...] Somos os Estados Unidos da América, e não há nada que não possamos fazer se o fizermos juntos."

Ciente da polarização no país, Biden disse que não há nada mais bipartidário do que "investimento que vale à pena" e afirmou que seu modo de gastar dinheiro —focado em reformas na infraestrutura e auxílio aos mais vulneráveis— servirá para criar empregos e aumentar a competitividade, principalmente, em relação à China. "Dinheiro de americanos será usado para comprar produtos americanos feitos nos EUA. É assim que deve ser e como vai ser neste governo", afirmou. "Estamos prontos para decolar de novo, para liderar o mundo de novo [...] Os EUA estão andando para frente, e não podemos parar agora."

O presidente enumerou ainda o que considera avanços de sua gestão no combate à pandemia, anunciou um novo pacote de US$ 1,8 trilhão para ampliar o acesso a educação e saúde e se comprometeu a criar empregos e a lidar com a crise imigratória, a maior de seu governo e o grande foco das críticas à sua gestão. "Vamos acabar com nossa exaustiva guerra anti-imigração [...] o Congresso precisa agir agora."

Biden pediu apoio para o seu pacote de US$ 2,3 trilhões de investimento em infraestrutura, que mistura agenda ambiental e criação de empregos, e apelou diretamente a uma fatia importante do eleitorado trumpista —homens brancos, da classe trabalhadora e sem diploma universitário— para tentar angariar votos de republicanos em favor da medida no Congresso.

“Sei que alguns em casa se perguntam se esses empregos são para vocês, que se sentem deixados para trás e esquecidos em uma economia que está mudando rapidamente. Deixe-me falar diretamente com vocês: esses são empregos com bons salários, que não podem ser terceirizados. Quase 90% dos empregos de infraestrutura criados no Plano Americano de Emprego não exigem diploma universitário.”

O presidente celebrou o já aprovado pacote de auxílio econômico, no valor de US$ 1,9 trilhão, mas sabe que precisa da chancela do Congresso para os outros dois planos, e essa não será uma tarefa fácil.

Ele diz que pretende financiar os projetos, em parte, com o aumento de impostos sobre os mais ricos —o que pode dificultar a aprovação das medidas, pois parlamentares estão divididos sobre o aumento de gastos do governo e quem deve pagar essa conta.

A estratégia de Biden é inflar o discurso de que os projetos vão gerar empregos, na tentativa de conseguir apoio popular e pressionar o Legislativo. Nesta quarta, destacou que seu programa de infraestrutura é “operário” e que não foram os ricos que construíram o país, mas sim a classe trabalhadora.

“Tem bons homens e mulheres em Wall Street, mas Wall Street não construiu este país. A classe média construiu este país, e os sindicatos construíram a classe média."

O presidente realizou cerca de 40% das promessas que havia feito para os seus cem primeiros dias no cargo, mas governou, basicamente, via ordem executiva –mecanismo que não precisa de aval do Congresso para entrar em vigor, mas pode ser revertido pelo próximo presidente.

Diante dos parlamentares que podem fazer com que suas propostas virem, de fato, lei, Biden pediu que o Congresso aprove medidas sobre imigração, sua grande dor de cabeça hoje. Entre os projetos na fila do Legislativo está o que inclui um caminho para a cidadania aos 11 milhões de imigrantes sem documentos no país, além de financiamento para melhorias na segurança da fronteira com o México.

"Por mais de 30 anos, os políticos falaram sobre a reforma da imigração e nada fizeram a respeito. É hora de consertar", afirmou Biden. "Se você acredita que precisamos de uma fronteira segura, aprove a lei. Se você acredita em um caminho para a cidadania [americana a imigrantes], passe a lei. Se você realmente quer resolver o problema, eu mandei a lei, agora passe-a." Os EUA enfrentam um descontrole nas fronteiras com o maior fluxo de imigrantes tentando entrar no país em 20 anos, e Biden tem sido duramente criticado, inclusive por aliados, por não dar a devida atenção ao tema.

O presidente também renovou o apelo e pediu coragem para os parlamentares aprovarem uma reforma no sistema policial, após a condenação do ex-policial branco Derek Chauvin, que assassinou George Floyd em maio do ano passado, e políticas mais assertivas contra a venda de armas.

"Precisamos trabalhar juntos para achar consenso, vamos fazer isso até o mês que vem, primeiro aniversário de morte de Floyd […] o Congresso tem que agir."

Biden discursou no Congresso ao qual serviu como senador por 36 anos e no plenário invadidos por apoiadores de Trump em 6 de janeiro. Cercado por protocolos de segurança e restrições devido à pandemia, o democrata observou o marco histórico de sua fala, com duas mulheres assistindo ao pronunciamento logo atrás dele pela primeira vez: a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, as duas de máscara. "Nenhum presidente jamais havia dito essas palavras deste púlpito", disse em um dos momentos em que foi mais aplaudido.

Também por causa desse controle, somado às restrições da pandemia, apenas cerca de 200 pessoas estavam no plenário da Câmara para ouvir o discurso, no lugar das mais de mil que costumam acompanhar esse tipo de evento.

O discurso na sessão conjunta do Congresso é considerada a estreia de um presidente em primeiro mandato frente ao Legislativo. Nos outros anos da gestão, a fala é intitulada discurso do Estado da União. No ano passado, o último de Trump, o republicano rivalizou com Pelosi, que rasgou o papel com a cópia do pronunciamento do presidente, em uma cena que viralizou na internet.

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