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Provável eleição de ultraconservador no Irã manda recado à administração Biden

Apesar da gravíssima crise econômica do país, não haverá retorno ao espírito negociador dos anos Rowhani

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Felipe Loureiro

Professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e coordenador do Observatório da Democracia no Mundo (ODEC-USP)

As eleições presidenciais no Irã deste ano representarão uma quebra importante com o padrão eleitoral das últimas duas décadas no país. Dada a importância de Teerã para o tabuleiro geopolítico global, essa mudança impactará consideravelmente a política internacional.

Com exceção das primeiras eleições pós-revolução de 1979, pleitos presidenciais a partir de meados da década de 1990 apresentaram ao menos duas candidaturas viáveis —uma do campo conservador e outra do campo reformista—, ainda que sob os limites ideológicos da república islâmica.

O candidato à Presidência do Irã Ebrahim Raisi, durante evento de campanha em Teerã
O candidato à Presidência do Irã Ebrahim Raisi, durante evento de campanha em Teerã - Majid Asgaripour - 15.jun.21/Wana/Reuters

Não desta vez. Salvo um resultado improvável, o chefe do Poder Judiciário e ultraconservador Ebrahim Raisi deverá ser eleito presidente, fazendo ruir o último pilar reformista no interior do regime, representado pelo atual presidente Hasan Rowhani.

São múltiplas as razões desse fechamento do já quase nada democrático regime iraniano, com destaque para os maus resultados do projeto do campo reformista de normalizar as relações internacionais de Teerã com o Ocidente. Na visão de setores conservadores, esse projeto teria colocado o regime em risco.

Rowhani elegeu-se em 2013 com a promessa de superar a grave crise econômica por meio do diálogo com Estados Unidos e Europa, aceitando implementar restrições ao programa nuclear iraniano em troca do fim das sanções impostas por Washington, União Europeia e Nações Unidas.

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No curto prazo, a estratégia funcionou: o acordo nuclear de 2015 resultou na eliminação de várias sanções, reabrindo os mercados financeiro e de bens e serviços internacionais para Teerã. No primeiro ano do acordo, em 2016, a economia cresceu mais de 13% e a inflação recuou para o menor patamar em 25 anos.

Logo, porém, os ventos mudaram. Para júbilo de Israel e da Arábia Saudita —os dois principais adversários regionais do Irã e grandes opositores do acordo—, a eleição de Donald Trump em 2016 pôs fim à breve détente entre Irã e Estados Unidos.

Com isso, a saída unilateral de Washington do acordo nuclear em 2018, acompanhada da reimposição de sanções econômicas e da implementação de estratégia de “máxima pressão” sobre Teerã, emparedou o campo reformista.

Para piorar, o assassinato do general Qassim Suleimani pelos americanos em janeiro de 2020, aliado ao esforço diplomático de Trump de normalizar relações diplomáticas de Israel com vizinhos árabes, reforçou a impressão de conservadores iranianos de que Washington teria usado a abertura de Teerã como oportunidade para destruir a república islâmica, da mesma forma como o teriam feito com Muammar Gaddafi após a Líbia ter aceitado assinar acordos de desarmamento.

Nesse sentido, a decisão do Conselho de Guardiões de não correr riscos nestas eleições, praticamente garantindo a vitória de um ultraconservador, traz claro recado à administração Biden: mesmo com a gravíssima crise econômica do país, ampliada pelos efeitos da pandemia, não haverá retorno ao espírito negociador dos anos Rowhani.

Isso não significa que Teerã necessariamente romperá as negociações em curso sobre a retomada do acordo nuclear. É do interesse da elite conservadora que as sanções sejam levantadas, principalmente devido às crescentes insatisfações populares insufladas pela recessão econômica, que podem servir de motor para desestabilizar o regime.

Mas isso não se dará às expensas da segurança nacional. Se americanos e europeus nutriam esperanças de que seria possível ampliar a cesta de negociações, englobando outros pilares da estratégia de defesa iraniana, como o programa de mísseis balísticos e a assistência a milícias islâmicas na região, essa possibilidade se fecha com Raisi na Presidência.

Há sério risco, portanto, de as negociações emperrarem, com a manutenção das sanções e a grave crise na economia. Nesse cenário, salvo uma revolta popular semelhante à onda sangrenta de 2019, a tendência é ver Teerã empregando cada vez mais a cartada chinesa, já bastante usada desde 2018. E, com isso, vai se consolidando mais uma peça no tabuleiro da Guerra Fria do século 21.

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