Rússia diz que matou 5 soldados ucranianos na fronteira; Kiev nega

Putin afirma que 'fez tudo o que pôde' e diz a líderes europeus que reconhecerá áreas rebeldes na Ucrânia

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Rostov-do-Don

A Rússia anunciou ter destruído dois blindados ucranianos que teriam atravessado a fronteira entre os países na manhã desta segunda-feira (21), matando cinco soldados. Kiev nega que o incidente tenha ocorrido.

Assim, com apresentação de versões imiscíveis que tem marcado o conflito entre Vladimir Putin e o Ocidente, centrado na situação de seu vizinho, está completo o quadro para que o presidente russo coloque em prática algum tipo de ação militar na região.

O roteiro vinha sendo cantado por autoridades ocidentais desde o começo do ano. A gravidade do incidente desta segunda é que se trata da primeira vez em que os russos dizem ter enfrentado o que chamam de "provocação" de Kiev.

Ginásio esportivo é equipado com leitos para refugiados do Donbas em Taganrog, região de Rostov
Ginásio esportivo é equipado com leitos para refugiados do Donbas em Taganrog, região de Rostov - Serguei Pivovarov/Reuters

Desde a última quinta-feira (17), quem fazia tal acusação eram os separatistas das autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, as áreas autônomas resultantes da guerra civil fomentada pelo Kremlin em 2014.

Com isso, no desenho ocidental, o pretexto para uma invasão ou incursão militar contra os ucranianos por Putin está dado. Adensando o drama, o próprio presidente russo convocou os membros do seu Conselho de Segurança para uma reunião cuidadosamente transmitida depois de ter acabado pela TV. O objetivo: anunciar que irá decidir se reconhece as ditas repúblicas como países.

Segundo o próprio Kremlin informou horas depois, Putin disse ao alemão Olaf Scholz e ao francês Emmanuel Macron que assinaria um decreto nesse sentido. Os europeus, segundo o governo russo, manifestaram desapontamento com a decisão.

Nela, Putin demonstrou irritação. "Eu fiz tudo o que pude para resolver a crise com a Ucrânia de forma pacífica", disse. Ele e ministros como o chanceler Serguei Lavrov revisitaram os temas do ultimato lançado pela Rússia aos Estados Unidos, que foi rejeitado pela Casa Branca e pela Otan (aliança militar ocidental).

Em resumo, Putin quer o fim da expansão da Otan e, por extensão, da União Europeia. O símbolo disso seria o compromisso de que a Ucrânia nunca seria membro da aliança militar, trazendo forças ofensivas ocidentais para as fronteiras russas —a presença no outro ponto de contato, os Estados bálticos, é bastante modesta justamente para não provocar demais Moscou.

A desconfiança estava no ar. Lavrov disse que a Rússia falou com os EUA "porque a Otan fala o que os EUA dizem". Os presentes consideraram os Acordos de Minsk, que até aqui eram a base que Moscou considerava para negociar a paz na região, morto na prática. O reconhecimento jogaria a pá de cal.

O Conselho de Segurança reportou tanto as ações dos últimos dias quanto o suposto incidente desta segunda. "Vamos fazer uma investigação. Houve 40 violações de cessar-fogo só nesta noite [de segunda]. Os ucranianos estão usando armas pesadas contra civis. Há 325 tanques, 880 canhões, tropas", afirmou o ministro da Defesa russo, Serguei Choigu.

Segundo as agências de notícias russas, a ação ocorreu quando blindados de transporte de pessoal cruzaram a fronteira entre a dita república de Lugansk e a região russa de Rostov, em Mitianskaia. Além dos mortos, há um capturado, segundo o Kremlin. Mais cedo, um posto policial havia sido atingido por um projétil, segundo os russos.

Não há provas ainda do que teria ocorrido no episódio mais grave, mas a resposta do ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksii Reznikvo, foi imediata: ele negou ter havido qualquer escaramuça, quanto mais com mortos. E negou a acusação russa, de que os blindados levavam sabotadores que agiam em Lugansk.

Verdade, mentira ou algo no meio do caminho, o que interessa é que o pretexto para Putin está dado. Analistas moscovitas apostam que ele irá usar isso para pressionar ainda mais o Ocidente e Kiev a aceitar negociar, ou ainda forçar que os ucranianos se acertem com separatistas sob as regras dos Acordos de Minsk.

Na leitura do Kremlin, isso resolveria o problema pois a Ucrânia seria federalizada e os rebeldes teriam poder de veto a decisões como abraçar o arcabouço institucional do Ocidente. Mas, como a reunião deixou claro, isso é inviável, embora o governo do presidente Volodimir Zelenski esteja assustado com a possibilidade de ser deixado sozinho para enfrentar Putin.

EUA e países europeus prometem diversas sanções contra Moscou, mas o presidente Joe Biden falou várias vezes que n​ão enviará tropas para defender Kiev. Essa é a senha para Putin: ele não precisa necessariamente atirar, mas demonstrar que pode fazer isso.

Também nesta segunda, os líderes das duas repúblicas rebeldes pediram a Putin que as reconheça e lhes forneça ajuda militar e financeira. "Essa situação terá de ser enfrentada. Há cerca de 800 mil cidadãos russos naquelas regiões, não podemos ignorar isso", afirmou o número 2 do Conselho de Segurança, Dmitri Medvedev.

Ele se referia às pessoas que receberam passaporte de Moscou nos últimos anos. Há ao todo cerca de 4 milhões de pessoas morando nas áreas separatistas. Medvedev citou a situação na Geórgia em 2008, quando ele era presidente e tinha Putin como mentor e premiê, que acabou em guerra para garantir direitos e reconhecimento a russos étnicos naquele país.

Tudo isso ocorre após um domingo (20) em que o presidente Emmanuel Macron, da França, parecia ter conseguido arranjar uma reunião de cúpula entre Putin e Biden. Mais cedo, nesta segunda, o Kremlin já havia dito que isso seria prematuro.

Na reunião, Lavrov sugeriu a Putin que deveria ir em frente com a reunião prevista para a próxima quinta-feira (24) com o secretário de Estado americano, Antony Blinken, na Suíça ou na Finlândia. Do lado mais falcão do encontro, Choigu alertou para a fala de Zelenski na Conferência de Segurança de Munique, no fim de semana, na qual o ucraniano sugeriu que seu país poderia buscar ter armas nucleares.

A Ucrânia está cercada por três lados: a Crimeia anexada por Putin em 2014, uma grande faixa no seu leste e ao norte, pelos cerca de 30 mil militares russos que estão na Belarus. Além disso, há uma pequena presença militar russa no encrave separatista pró-Kremlin de Transdnístria, em Moldova, a oeste de Kiev.

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