Descrição de chapéu Guerra na Ucrânia Rússia

Otan começa a doar armas pesadas para Ucrânia enfrentar os russos

Tanques e baterias antiaéreas ainda são insuficientes, mas podem provocar Moscou

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São Paulo

Após semanas de cobrança por mais armamento pesado para enfrentar a nova fase da invasão russa de seu território, a Ucrânia começou a receber parte do prometido pela Otan, a aliança militar ocidental. Não é nada que pareça mudar o jogo em campo, mas poderá provocar reações em Moscou.

Nesta sexta (8), emergiram relatos de que Kiev está recebendo sistemas antiaéreos de longa distância, blindados, peças de artilharia, lançadores de foguetes e até tanques de pelo menos dois de seus vizinhos que operam também antigo material bélico soviético, herança do tempo em que todos ficavam sob o guarda-chuva comunista do Pacto de Varsóvia.

Sistema S-300 russo, semelhante ao doado para Kiev, lança míssil durante exercício militar
Sistema S-300 russo, semelhante ao doado para Kiev, lança míssil durante exercício militar - Serguei Pivovarov - 19.jun.19/Reuters

O premiê da Eslováquia, Eduard Heger, afirmou que seu país doou os sistemas antiaéreos de origem russa S-300 para o país vizinho. "Não significa que a República Eslovaca está tomando parte do conflito", disse.

Em 1989, nos estertores do império comunista, a então aliada Tchecoslováquia recebeu de Moscou um regimento do S-300 na sua versão PMU, de exportação, com quatro lançadores. Quando as repúblicas Tcheca e Eslovaca se separaram, em 1993, a segunda herdou o sistema.

Esse modelo é mais antigo, podendo atingir aeronaves a até 90 km. Os russos operam versões que podem derrubar alvos a até 400 km, mas no contexto da destruição das seis baterias que os ucranianos tinham até o começo da guerra é melhor que nada. A Otan, da qual a Eslováquia faz parte, irá instalar sistemas americanos Patriot para suprir a carência de defesa aérea do país.

Já a agência de notícias Reuters divulgou, sem dar nome à fonte da informação, que a República Tcheca embarcou ao menos cinco tanques T-72, cinco blindados de infantaria BMP-1, morteiros pesados e lançadores múltiplos de foguetes nas últimas semanas para o vizinho.

O país opera 30 versões antigas do T-72 soviético e tinha 89 em estoque.

Nada disso irá mudar o rumo da guerra, claro, dada a destruição ampla de blindados dos dois lados, mas mostra algum comprometimento do Ocidente que poderá gerar ruído no Kremlin, que até aqui fazia vista mais ou menos grossa às armas leves mas letais enviadas a Kiev.

Na quinta, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse genericamente que os membros da aliança estavam fornecendo material pesado para os ucranianos, após nova reclamação do governo em Kiev.

O temor expresso pelo chanceler ucraniano, Dmitro Kuleba, diz respeito à esperada ofensiva russa para capturar o restante da região histórica do Donbass, no leste do país. Hoje, os separatistas que dominavam a porção mais oriental do território desde 2014 expandiram seu controle com apoio russo para quase toda a província de Lugansk e talvez 60% da de Donetsk. Fica nesta última, na porção ucraniana, a cidade de Kramatorsk, alvo do polêmico ataque a uma estação de trem nesta sexta.

Desde que sua ofensiva inicial esmoreceu por erros de planejamento e resistência ucraniana, Moscou alterou os planos e retirou o grosso de suas forças da região nordeste do país, em torno de Kiev. Anunciou que iria focar, na nova fase da guerra, o controle do Donbass —de resto, o motivo alegado da invasão.

Desde a semana passada, a Ucrânia pede equipamento mais pesado, pois a batalha lá demandará o uso de forças mecanizadas, além do previsível apoio aéreo que os russos usarão —daí a necessidade do S-300 e de sistemas de menor alcance, como o Strela que os tchecos também doaram, segundo a Reuters.

Kuleba desenhou isso ao falar com Stoltenberg e outros ministros de países da Otan. A questão até aqui é que o Ocidente vinha se limitando a fornecer eficazes sistemas portáteis antitanque e antiaéreos, que funcionaram muito bem para segurar avanços de blindados russos em emboscadas.

Mas uma ação concentrada, com barragens de artilharia, mísseis, apoio aéreo e intrusão de blindados e infantaria precisa encontrar algo semelhante à sua frente. Exceto que as quantidades de material sejam muito maiores do que as divulgadas, o que é possível, a Ucrânia terá um problema grande no Donbass.

A questão é que a Otan teme melindrar a Rússia, cujo presidente Vladimir Putin sugeriu que usaria armas nucleares para lidar com quem tentasse se envolver no conflito.

Por isso, a sugestão polonesa de enviar caças MiG-29 para o vizinho foi vetada pelos EUA, os líderes da aliança, assim como o pedido para que os ocidentais tentassem implantar uma zona de exclusão aérea sobre a Ucrânia —o que poderia equivaler à declaração da Terceira Guerra Mundial.

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