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Janan Ganesh

Líderes da Europa acordaram para o 'hard power'

Não está claro se seus eleitores fizeram o mesmo, e são eles que estabelecem os limites do que é possível

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Janan Ganesh
Financial Times

Não se fala o suficiente sobre o outro Donald T.

Tendo liderado a Polônia entre 2007 e 2014, Donald Tusk pode receber algum crédito à medida que sua nação se aproxima dos padrões de vida da Europa Ocidental. Agora em seu segundo mandato, a Ucrânia não tem amigo mais veemente no mundo.

Falar da Polônia como a eventual herdeira do Reino Unido —uma voz pró-mercado, pró-americana e marcial na União Europeia— parece precipitado. Tem cerca da metade da população e menos influência diplomática. Mas a facilidade de Tusk nessas instituições como ex-figurão de Bruxelas estreita a lacuna.

Donald Tusk comemora a aprovação de seu nome como novo premiê da Polônia
Donald Tusk comemora a aprovação de seu nome como novo premiê da Polônia - Aleksandra Szmigiel/Reuters


O que quer que falte à Europa ao tentar se tornar um "hard power" [poder "duro", geralmente por meios militares ou de coerção], não é liderança. Mesmo à parte de Tusk, Ursula von der Leyen tem sido uma forte presidente de guerra da Comissão Europeia.

Com o zelo de um convertido, Emmanuel Macron agora vê o Kremlin como implacável. Rishi Sunak e Keir Starmer estão tão unidos em relação à Ucrânia que o assunto nunca surge na política britânica. Como populista italiana, Giorgia Meloni poderia ser uma apoiadora da Rússia. Ela não é. Mesmo Olaf Scholz, o suposto indeciso, viu a Alemanha se tornar facilmente o maior doador de ajuda militar da Europa para a Ucrânia em seu mandato.

A alta política não é perfeita. Sempre há motivos para uma metáfora cansada sobre o motor franco-alemão engasgando e assim por diante. Mas essas divisões somam um erro de arredondamento ao lado do problema real, que é, receio, nós.

Para se militarizar tanto quanto precisa, a Europa precisa que seus cidadãos suportem impostos mais altos ou um estado de bem-estar menor. Para ter uma ideia de quão provável isso é, considere que os maiores protestos da França neste século foram ambos contra medidas de aperto orçamentário: um imposto sobre combustíveis em 2018, um aumento na idade da aposentadoria pública em 2023.

O Reino Unido tem uma carga tributária alta por seus próprios padrões, e isso após 14 anos de um governo de direita. Quanto à Alemanha, seu modelo econômico, sempre um pouco superestimado pela esquerda crédula da Grã-Bretanha, acabou apostando em insumos russos e demanda chinesa.

Encaixotado financeiramente assim —não mencionei os custos da transição verde— quem pensa que os eleitores priorizarão o rearmamento?

Para citar ainda um terceiro Donald —Rumsfeld, ex-secretário de Defesa dos EUA— há uma "nova" Europa. No leste e centro do continente expostos à Rússia, os eleitores estão dispostos a renunciar a outras coisas pelo "hard power". Mas o destino da Europa ainda é em grande parte determinado por esse oligopólio de países com populações de 60 milhões ou mais. Há pouco para sugerir que seus eleitores estejam dispostos a aceitar uma ruptura do contrato social assistencialista para se armar.

Em um sentido, a Europa já concedeu implicitamente isso. Poderia ter feito mais para negar receitas à Rússia após a invasão da Ucrânia. Poderia ter restringido as importações de energia. Mas foi decidido que os eleitores não suportariam as contas de serviços públicos (ou os impostos diferidos para cobrir o custo de subsidiá-los). Essa avaliação foi precisa, sem dúvida. E esse é o problema.

"Os líderes devem liderar, não seguir", você dirá, mas essa é sempre uma visão sonhadora da política. Se eu puder divagar sobre segredos comerciais por um momento, a parte mais difícil de escrever um editorial não assinado de jornal é o terço final, ou algo assim. Depois de expor um problema —migração, por exemplo— é preciso sugerir uma resposta. Mas esses problemas perduram por um motivo. As soluções são elusivas. Se uma existir, será impopular. E assim tudo o que resta é um apelo por mais "liderança".

Esta é a palavra mais usada na política. O quanto o público é "levado" contra suas preferências é superestimado por românticos. Franklin Roosevelt foi o mais próximo que se chegou de um político perfeito, e ele não conseguiu convencer os americanos a entrar na Segunda Guerra Mundial até que o Império do Japão precipitasse as coisas.

São os eleitores que estabelecem os limites do que é possível. Eventos do mundo real mudam suas mentes, não a retórica de cima para baixo. Se a Europa pretende honrar seus planos de grande potência, algo terá que acontecer para fazer com que os gastos com defesa pareçam uma questão verdadeiramente existencial para britânicos e alemães, como fazem para poloneses e estonianos.

Há boas notícias a serem consideradas. A Europa é bem liderada (compare suas principais figuras com as da América). Em dois anos, a elite fez uma conversão intelectual quase total do comércio como o bálsamo para todos os conflitos para as verdades eternas da política de poder.

As más notícias são que os líderes só podem fazer tanto contra o sentimento público. A "mudança histórica" de Scholz ocorreu nas chancelarias. Não sabemos se ocorreu nos lares. Não consigo tirar da minha mente uma citação atribuída a outro líder europeu, em outra era, em outro contexto. "Todos sabemos o que fazer. Mas não sabemos como ser reeleitos depois de fazê-lo."

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